A dois dias de nova mobilização, Emmanuel Macron reúne no Eliseu os serviços de informações, criticados pela falha de 17 de outubro, e à tarde recebe no Matignon partidos e autarcas das grandes cidades.
Multiplicam-se esta quinta-feira, ao mais alto nível do Estado, as reuniões de crise, a dois dias de um temido “ato II” da mobilização social, depois das violências e dos saques cometidos à margem das manifestações contra o custo de vida no fim de semana passado em França.
Num momento em que vários centros de cidades estão sob recolher obrigatório pela terceira noite consecutiva e em que novos ajuntamentos já foram proibidos hoje, Emmanuel Macron preside esta manhã a um Conselho de Segurança que reúne o primeiro-ministro, os ministros envolvidos e “todo o conjunto dos serviços de informação”.
Marcada para as 10 horas, esta reunião deve permitir fazer o ponto sobre os “dispositivos de informação, de antecipação e de segurança” para as próximas semanas, mas também voltar a dicutir as “falhas que conduziram aos acontecimentos do fim de semana passado”, segundo o Eliseu.
Emmanuel Macron fará uma declaração no final do Conselho.
As autoridades francesas reconheceram uma falha dos serviços de informação, que subestimaram claramente a dimensão da mobilização de 17 de outubro. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, esperava ver cerca de 200 000 pessoas nas ruas, contra entre 550 000 e 800 000 participantes contabilizados. Quase 60 000 elementos das forças de segurança tinham sido mobilizados no sábado em todo o país, sem conseguir impedir os atos de vandalismo cometidos à margem dos protestos, cujas imagens correram o mundo.
O dispositivo de segurança previsto para a nova mobilização de sábado, 24 de outubro, será reforçado pela presença de militares da força Sentinelle e de unidades de elite da polícia e da gendarmaria, como o Raid, o GIGN ou a BRI.
O ministro delegado junto do Ministério do Interior, Jean-Didier Berger, anunciou na BFMTV um aumento de “20 %” dos efetivos das forças de segurança em relação a 17 de outubro.
Matignon recebe partidos, vários pesos pesados ausentes
Durante a tarde, as consultas prosseguem no Matignon. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, vai receber os representantes das forças políticas com assento no Parlamento, nomeadamente para discutir uma possível “evolução” da doutrina de manutenção da ordem pública.
“Com o ministro do Interior, quero falar-lhes da polícia. Diz-se que a polícia mata ou que a polícia fere. E, há dois dias, ouvimos: ‘Onde está a polícia?’. É uma esquizofrenia bem francesa do debate político-mediático”, escreveu numa carta dirigida às forças políticas, citada por vários meios de comunicação.
A segurança dos comícios da campanha presidencial deverá também estar em cima da mesa nessa reunião.
Sinal de desconfiança em relação ao executivo: vários candidatos à eleição presidencial de 2027 optam por não comparecer à reunião. Marine Le Pen e Jordan Bardella, do Rassemblement National, bem como o antigo primeiro-ministro Édouard Philippe, estarão ausentes.
Em sentido inverso, a líder dos Ecologistas, Marine Tondelier, o vencedor das primárias socialistas Raphaël Glucksmann e o presidente dos Republicanos, Bruno Retailleau, confirmaram a presença.
LFI promete “sabotar” a reunião
A França Insubmissa (LFI) e o governo trocam farpas desde as cenas de violência de 17 de outubro, culpando-se mutuamente pelo caos. O executivo acusa o movimento de esquerda radical de “soprar sobre as brasas” da ira expressa nas ruas, enquanto a LFI denuncia a estratégia de “deixar apodrecer” adotada pelas autoridades, acusando-as de não responderem politicamente a reivindicações que considera legítimas, nomeadamente as dos estudantes do ensino secundário.
Jean-Luc Mélenchon estará representado no Matignon pelo coordenador da LFI, Manuel Bompard. Mas o dirigente do movimento marcou o tom na terça-feira, perante simpatizantes, em reação à carta do primeiro-ministro: “Vamos lá, vamos estragar-te a reunião!”.
O fundador da LFI reagia sobretudo à passagem em que Sébastien Lecornu afirma que “nenhum desacordo, nenhum descontentamento, nenhuma ambição política pode justificar o recurso à violência”.
“Vais pôr-nos a assinar um certificado? É isso que queres? Acreditas mesmo que o vamos fazer? Claro que não!”, respondeu Jean-Luc Mélenchon.
Algumas horas antes da reunião, Manuel Bompard escreveu que irá ao Matignon para “exigir um pedido de desculpas”, “obter explicações” e “conseguir respostas políticas à mobilização do povo francês”.
Presidentes de câmara de Paris, Lyon e Marselha exigem explicações ao Estado
As consultas não se limitam aos partidos. Os presidentes das Câmaras de Paris, Lyon e Marselha, três grandes cidades particularmente afetadas pela violência do último fim de semana, vão também ser recebidos.
O presidente da autarquia de Lyon, o ecologista Grégory Doucet, desloca-se a Paris “com a vontade de obter explicações sobre a cadeia de acontecimentos que levou o Estado a não antecipar corretamente os eventos de sábado”, informou a sua equipa à Euronews.
No início da semana, os três autarcas, Grégory Doucet, Emmanuel Grégoire e Benoît Payan, já tinham denunciado, numa coluna conjunta publicada no Libération, o “sentimento de que bairros inteiros” das suas cidades, apesar de “habituados” à expressão popular, tinham sido “deixados sem proteção”.
Os três autarcas da esquerda reclamam a criação de uma “comissão independente sobre a estratégia de manutenção da ordem aplicada nesse dia”, bem como a criação de um “fundo excecional de solidariedade nacional” para financiar a reparação dos danos.