Foi lançado um novo prémio literário que pretende distinguir obras escritas em colaboração com IA. O momento escolhido é, no mínimo, problemático.
Foi lançado esta semana em França um novo prémio para livros escritos com recurso a IA, numa altura especialmente conturbada.
O Prix Pascal de Littérature IA surge após semanas de polémica em torno do uso de IA por finalistas de vários prémios literários, incluindo o Prix Goncourt, o galardão literário mais prestigiado de França.
Desde setembro, o meio literário francês tem sido abalado pelo caso Thélyson Orélien, desencadeado por alegações de uso extensivo de IA no romance do autor canadiano-haitiano, “C’était ça ou mourir”.
Ontem, a editora canadiana de Orélien confirmou que a IA tinha sido efetivamente utilizada no livro e decidiu afastar-se do autor. Orélien continua a negar as acusações e falou com o jornalista do “Libération” Rachid Laïreche, a quem disse ter recorrido a fontes externas para a investigação histórica.
“Disse que escrevi o livro; não foi a IA que o escreveu”, insiste. “Tal como na tradução de línguas, usei ferramentas”, acrescentando que “não estava à espera de nada disto”.
Agora, o Prix Pascal incentiva abertamente o uso de IA, ao mesmo tempo que sublinha no seu site (fonte em inglês) que o prémio “não é um concurso de tecnologia”.
“A IA já está presente em ateliers de escrita, em manuscritos e nas livrarias, muitas vezes sem ser notada”, lê-se no site. “O Prémio Pascal coloca a questão em voz alta: o que constitui uma obra literária quando o autor e a máquina colaboram?”
Os candidatos têm de enviar um manuscrito, acompanhado de um dossiê técnico que detalhe a assistência algorítmica utilizada. Estão autorizados todos os grandes modelos de linguagem, incluindo o ChatGPT, o Claude, o Gemini e o LLaMA.
“Enquanto outros perseguem a IA recorrendo a ferramentas de deteção contraditórias, o Prix Pascal pede aos autores que declarem o seu uso: sem proselitismo, sem processos judiciais – transparência como base do debate e da inteligência coletiva”, afirmam os organizadores do prémio.
“O prémio está aberto a quem escreva em francês, em qualquer ponto do espaço francófono, independentemente da nacionalidade ou do local de residência, e sem necessidade de editora”, explicam os seus fundadores Philippe Rodriguez, Albin Serviant e Gilles Mentré, todos empreendedores na área da tecnologia. Rodriguez é sócio fundador da consultora de fusões e aquisições Avolta; Serviant foi presidente da revista LGBTQ+ “Têtu”; e Mentré leciona em Harvard e na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne.
“O júri procura uma obra inédita que seja útil ou que faça pensar”, acrescentaram.
Lançou-se ontem o apelo à apresentação de candidaturas, e a composição do “júri de cinco figuras de destaque” deverá ser revelada no final do mês. O vencedor da edição de 2026 será anunciado em meados de dezembro. Não haverá recompensa financeira, embora seja oferecido apoio à publicação.
Tendo em conta que a legislação francesa não regula nem proíbe o uso de IA na escrita de uma obra literária, o prémio é considerado legítimo. Foi, no entanto, lançado numa altura em que criadores se manifestam contra o recurso à IA e exigem a adoção de regras e mecanismos de proteção.
O novo prémio presta homenagem ao matemático e filósofo francês Blaise Pascal, com o site do Prix Pascal a salientar que Pascal “é o único pensador ocidental que foi simultaneamente pioneiro dos dispositivos mecânicos e mestre da linguagem”.
A sua citação “À mesure qu'on a plus d'esprit, on trouve qu'il y a plus d'hommes originaux” é igualmente referida – “Quanto mais espírito se tem, mais se percebe que há pessoas originais”.
Que probabilidades haverá de o celebrado polímata e autor de “Pensées” estar neste momento a revirar-se no túmulo?