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Europa viveu o verão mais mortal de sempre: que país sofreu mais com o calor extremo?

Fiéis procuram abrigo do sol forte enquanto o papa Leão XIV chega para a audiência geral semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano, 24 de junho de 2026.
População procura abrigo do calor enquanto o papa Leão XIV chega à audiência geral semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano, 24 de junho de 2026 -  Direitos de autor  AP Photo/Alessandra Tarantino
Direitos de autor AP Photo/Alessandra Tarantino
De Angela Symons
Publicado a •Últimas notícias
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Europa viveu aquele que foi o seu “pior verão registado” em mortes por calor, com as alterações climáticas responsáveis por dois terços.

Estima-se que o verão escaldante na Europa tenha causado mais de 50 000 mortes em áreas urbanas, tornando-o o “pior registado até hoje”, segundo um novo relatório.

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Os investigadores identificam claramente a causa: as alterações climáticas – sobretudo resultantes da queima de combustíveis fósseis – terão sido responsáveis por cerca de dois terços deste excesso de mortalidade devido ao calor.

O número ultrapassa largamente os máximos anteriores, de cerca de 29 000 mortes no verão de 2022 e 28 000 em 2003, nas áreas abrangidas pelo modelo.

É um retrato do calor extremo enfrentado entre junho e agosto deste ano pelo continente que mais depressa aquece no mundo. Uma sucessão de ondas de calor elevou as temperaturas na Europa Ocidental 2,9 ºC acima da média de 1991-2020 – chegando a subir até 12 ºC em alguns dias – atingindo muitas vezes países pouco habituados e pouco preparados para valores tão elevados.

“Estes números são um lembrete claro de que os nossos verões mais quentes e mais extremos têm um impacto cada vez mais grave na saúde pública”, afirma a coautora do estudo, a investigadora Clair Barnes, especialista em fenómenos meteorológicos extremos e alterações climáticas no Imperial College London.

“Por trás destas estatísticas estão pessoas reais cujas vidas se perderam e famílias reais que choram por elas.”

Quase um terço das mortes estimadas ocorreu durante a vaga de calor particularmente intensa entre 17 de junho e 1 de julho, quando as temperaturas estiveram, em média, 5,3ºC acima do normal.

Como foram estimadas as mortes provocadas pelo calor no verão

O estudo recorreu a modelos para estimar o número de mortes adicionais relacionadas com o calor nos verões desde o início do século.

“Na realidade, o verdadeiro peso da mortalidade causada pelo calor não é diretamente observado nem medido”, explica o coautor do estudo Malcolm Mistry, professor auxiliar de modelização climática e geoespacial na London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM).

“Por isso, o calor é muitas vezes referido como um ‘assassino silencioso’, com o número de vítimas subestimado em várias regiões do mundo.”

Os cientistas utilizaram registos de temperatura e modelos baseados na relação histórica entre calor e mortalidade para estimar o número de vítimas no verão de 2026. Foram tidas em conta características geográficas e ambientais, fatores socioeconómicos, disponibilidade de serviços de saúde e ligações específicas por faixa etária entre temperatura e mortalidade.

A modelização foi aplicada a 854 áreas urbanas na UE, Reino Unido, Noruega e Suíça – zonas que representam cerca de 40 por cento da população dos 30 países analisados.

Um estudo de atribuição separado (fonte em inglês), que abrangeu os verões de 2000 a 2025, foi usado para comparação, com resultados em linha, de forma geral, com as estatísticas oficiais divulgadas pelas autoridades nacionais de saúde. Muitos países europeus ainda não publicaram os números finais do verão de 2026.

Os investigadores compararam depois as temperaturas reais com aquelas que seriam esperadas sem o aquecimento provocado pelas alterações climáticas, para estimar as mortes adicionais causadas.

No total, 65 por cento do excesso de mortalidade relacionado com o calor – cerca de 32 000 mortes – no verão de 2026 foi atribuído às alterações climáticas induzidas pelo ser humano. No início do século, estimava-se que fossem responsáveis por cerca de 40 por cento das mortes relacionadas com o calor.

“É mais um lembrete da necessidade de implementar intervenções específicas para proteger quem está mais vulnerável a este calor cada vez mais extremo e, ao mesmo tempo, da urgência de uma transição rápida para longe dos combustíveis fósseis, para abrandar o ritmo da mudança e limitar o aquecimento futuro”, afirma Barnes.

Termómetro de uma farmácia marca 38 graus Celsius quando as temperaturas atingem máximos históricos, em Roma, 24 de junho de 2026.
Termómetro de uma farmácia marca 38 graus Celsius quando as temperaturas atingem máximos históricos, em Roma, 24 de junho de 2026. AP Photo/Andrew Medichini

Quem está mais em risco com o calor extremo

As pessoas vulneráveis estão mais expostas aos perigos do calor extremo, incluindo doentes, idosos e crianças muito pequenas, bem como quem não consegue afastar-se do calor – por limitações físicas ou razões socioeconómicas.

No estudo sobre o verão de 2026, pessoas com 85 ou mais anos representaram cerca de metade das mortes estimadas. Mas os adultos mais jovens também foram afetados: calcula-se terem ocorrido 800 mortes adicionais entre pessoas dos 20 aos 44 anos e um total de cerca de 6 000 mortes em indivíduos com menos de 65 anos.

Os investigadores identificaram também variações geográficas, com o sul da Europa a registar significativamente mais mortes associadas a temperaturas elevadas do que o norte.

Tal deve-se sobretudo às temperaturas mais altas enfrentadas pelos países mais a sul, embora outras vulnerabilidades também tenham desempenhado um papel.

“Por exemplo, fatores como níveis mais elevados de poluição atmosférica, infraestruturas de espaços verdes limitadas, acessibilidade aos sistemas de saúde e alertas de calor”, explica o coautor do estudo Garyfallos Konstantinoudis, professor auxiliar no Grantham Institute do ICL.

Europa enfrenta verão sem precedentes: que país foi mais afetado

Os riscos para a saúde pública do verão escaldante da Europa foram enormes, levando vários governos a emitirem avisos de calor e estimativas em tempo real de mortalidade associada ao calor.

De acordo com o relatório sobre o verão de 2026, Itália terá registado o maior número de mortes adicionais relacionadas com o calor: um total de 13 303. Segue-se França, com 7 268, e Espanha, com 6 824.

Países tradicionalmente mais frescos também enfrentaram dificuldades com o calor, tornado mais perigoso por infraestruturas pensadas para um clima diferente e por cidadãos pouco habituados a temperaturas tão altas.

Na Alemanha, estimam-se 6 340 mortes adicionais, e no Reino Unido 4 354.

“No Reino Unido, o verão é historicamente a época mais calma para o nosso serviço de saúde. Este ano, porém, o nível de procura e de pressão foi semelhante ao de uma época de inverno com uma vaga grave de vírus”, afirma Andrew Hartle, professor no Imperial College Healthcare.

A precisão dos modelos dá-lhes potencial para ajudarem os serviços de saúde a preparar-se para fenómenos extremos antes de estes acontecerem.

Além de reduzirem as emissões de gases com efeito de estufa para limitar o aquecimento futuro, as cidades podem investir na criação de espaços verdes e azuis, que trazem benefícios adicionais ao reduzirem as temperaturas e melhorarem a qualidade do ar.

Segundo os autores do estudo, o norte e o oeste da Europa devem inspirar-se no sul, onde já existem soluções bem consolidadas.

Entre elas contam-se o investimento em abrigos climáticos; a renovação de edifícios para lhes dar maior resistência ao calor, por exemplo através da instalação de persianas ou sombras exteriores; e a promoção de mudanças de comportamento, como verificar o estado de vizinhos vulneráveis, evitar sair nas horas de maior calor, levar a sério os avisos de calor, procurar sombra e beber muita água.

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