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Alemanha, França, Itália e Espanha: onde foi a inflação mais alta em outubro

Aviso nas estantes vazias de um supermercado pede desculpa aos clientes pela falta de produtos por greve de camionistas em Nápoles, Itália, terça-feira, 20 de outubro de 2026
Aviso em prateleiras vazias de supermercado pede desculpa pela falta de produtos, causada por greve em curso de camionistas em Nápoles, Itália, terça, 20 outubro 2026. -  Direitos de autor  2026 Copyright The Associated Press
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De Piero Cingari
Publicado a •Últimas notícias
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A inflação subiu em Itália e França, manteve-se em Espanha e caiu na Alemanha em outubro. O que explica o fosso entre as maiores economias europeias e voltará o BCE a subir juros em dezembro?

As quatro maiores economias da zona euro divulgaram na sexta-feira novos dados sobre a inflação, oferecendo uma leitura inicial do que se está a tornar mais um mês de fortes pressões sobre os preços na Europa.

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A hierarquia da inflação em outubro ficou clara.

A Itália ficou à frente, com os preços a subir 5,4% face a um ano antes. A Espanha seguiu-se com 4,9%, a França com 3,4% e a Alemanha com 2,8%.

Mais reveladora é, no entanto, a direção do movimento.

A inflação acelerou de forma acentuada em Itália e em França, manteve-se estável em Espanha e desceu na Alemanha, apesar de as quatro grandes economias enfrentarem a mesma vaga de subida dos custos da energia.

Porque é que as mesmas pressões se traduzem em faturas tão diferentes e o que significa isso para o Banco Central Europeu?

Itália: porque sobem mais os preços

A inflação italiana subiu para 5,4% em outubro face a 4,2% em setembro, segundo dados preliminares do instituto nacional de estatística, Istat.

Volta assim ao nível de agosto de 2023, bem acima dos 4,6% esperados pelos economistas.

Pela medida harmonizada usada para comparar países na UE, a inflação em Itália atingiu 5,6%.

A energia foi o principal fator. O Istat indicou que os preços da energia estavam 31,4% acima dos de há um ano, contra 22,6%, ainda moldados pelo pano de fundo geopolítico internacional.

A energia regulada, ou seja, as tarifas que não são fixadas livremente pelo mercado, aumentou 59,5% em termos anuais, mais do que o dobro do ritmo do mês anterior. Os preços nesta categoria subiram 18,8% só em outubro.

A pressão está também a chegar às prateleiras dos supermercados.

O chamado “carrinho de compras”, um cabaz de produtos alimentares, de uso doméstico e de higiene pessoal que os italianos compram com mais frequência, aumentou 2,5%, após 1,5%. Os preços dos alimentos não transformados aceleraram para 7,5% e os serviços de transportes para 3,1%.

A inflação subjacente, que exclui energia e alimentos frescos para mostrar as tendências de fundo dos preços, subiu para 2% face a 1,6%.

Para os agregados familiares italianos, o momento é delicado. O Istat informou também na sexta-feira que a economia não cresceu no terceiro trimestre.

Melanie Debono, economista sénior para a Europa na Pantheon Macroeconomics, escreveu numa nota que a decomposição a publicar no próximo mês deverá mostrar que o choque energético pesou mais no consumo das famílias do que sugeriam os dados mensais de comércio a retalho.

Espanha: porque estagna a inflação

A taxa de inflação em Espanha manteve-se em 4,9% em outubro, o mesmo valor de setembro, segundo uma estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística (INE). Mantém-se assim próxima do nível mais elevado desde o início de 2023.

Os preços ainda subiram 0,6% face a setembro. A inflação anual estabilou sobretudo porque os combustíveis estavam mais baratos do que em outubro passado, quando os preços da gasolina e do gasóleo estavam a subir. Tarifas de gás mais elevadas compensaram parte desse alívio.

ARQUIVO. Pessoas caminham entre tendas montadas por manifestantes na praça Puerta del Sol, em Madrid, Espanha, a exigir leis mais rigorosas para proteger inquilinos, 17 out. 2026
ARQUIVO. Pessoas caminham entre tendas montadas por manifestantes na praça Puerta del Sol, em Madrid, Espanha, a exigir leis mais rigorosas para proteger inquilinos, 17 out. 2026 AP Photo/Bernat Armangue

A inflação subjacente, que exclui energia e alimentos não transformados, manteve-se em 3,1%. A taxa harmonizada abrandou ligeiramente para 4,9% a partir de 5%.

A Espanha é também, neste momento, a economia mais forte entre os grandes países do bloco.

Joe Nellis, responsável pela investigação económica na consultora MHA, assinalou em comentários por e-mail que a produção espanhola cresceu 0,6% no terceiro trimestre, apoiada por uma procura interna mais forte.

França: instala-se a estagflação?

Em França, a inflação subiu para 3,4% a partir de 3,1%, o valor mais alto desde janeiro de 2024, indicou o instituto de estatística Insee. Os economistas esperavam 3,2%.

Os preços da energia aumentaram 24,1% em termos anuais, acelerando pelo quarto mês consecutivo, impulsionados pelo gás e pelos produtos petrolíferos. A inflação dos serviços, o maior componente do cabaz francês, acelerou para 2,7%, à medida que subiam os preços de hotéis e transportes.

Pela medida harmonizada, a inflação francesa chegou a 3,8%.

Os números foram divulgados juntamente com dados que mostram uma contração de 0,1% da economia francesa no terceiro trimestre.

“A França enfrenta estagflação”, afirmou Claus Vistesen, economista-chefe para a zona euro na Pantheon Macroeconomics, num relatório.

O termo descreve a combinação de subida de preços com uma economia estagnada.

Vistesen prevê que a inflação harmonizada francesa ultrapasse 4% em novembro.

Alemanha: porque desce a inflação

A Alemanha foi a exceção.

A inflação desceu para 2,8% a partir de 3,3%, abaixo dos 3% previstos pelos economistas, indicou o gabinete federal de estatística, Destatis.

A principal razão foi um corte nos impostos sobre combustíveis que entrou em vigor em 1 de outubro e vigora até ao fim do ano. A inflação da energia abrandou para 12,2% a partir de 14,9%. Os preços no consumidor recuaram 0,2% face a setembro.

A inflação subjacente, excluindo alimentos e energia, abrandou para 2,1% após 2,4%.

Os economistas avisam que este alívio pode ser de curta duração. Vistesen escreveu que é provável que a inflação da energia se mantenha contida até ao fim do ano, mas volte a subir em janeiro e fevereiro se as taxas sobre combustíveis aumentarem novamente.

“Os números atuais da inflação subjacente alemã parecem benignos, mas esta fraqueza não vai durar muito”, afirmou.

Significado para a zona euro como um todo

O Eurostat vai divulgar na próxima semana a estimativa rápida para todo o bloco da moeda única e os números de sexta-feira apontam para mais uma leitura desconfortável.

Antes dos dados italianos, o BofA Global Research esperava uma inflação de 3,7% na zona euro em outubro.

Depois da surpresa em Itália, a Pantheon elevou a sua própria previsão para 4%, acima dos 3,8% de setembro e o dobro da meta de 2% do BCE.

Paolo Grignani, economista sénior na Oxford Economics, afirmou que os dados do dia traçam “um quadro misto para a zona euro, com tendências estagflaçãoistas”.

Disse que a energia continua a suportar a maior parte da pressão, mas há “sinais preocupantes de que o choque energético se esteja a propagar rapidamente a componentes mais rígidas”.

Em Portugal, a inflação homóloga subiu em outubro para 3,8%, mais 0,2 pontos percentuais (p.p.) do que a registada no mês anterior, de acordo com a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística.

A confirmar-se a inflação nos 3,8% esta será a variação mais alta de aumento dos preços desde maio de 2023.

Com o crescimento da zona euro a manter-se em 0,4% no terceiro trimestre, a Oxford Economics espera que o BCE suba as taxas mais duas vezes.

BCE volta a subir juros?

Na quinta-feira, o BCE manteve a sua taxa de depósito em 2,5%, depois de uma subida em setembro. Christine Lagarde disse que os responsáveis de política monetária discutiram novo aumento, mas concordaram por unanimidade em esperar.

A reunião foi ofuscada pelo anúncio de que Lagarde se vai demitir em fevereiro, nove meses antes do fim do mandato.

Matthew Ryan, responsável pela estratégia de mercados na empresa de serviços financeiros Ebury, afirmou em comentários por e-mail que uma subida em dezembro continua “claramente ‘em cima da mesa’”.

Acrescentou que uma busca prolongada pelo sucessor de Lagarde “poderá injetar volatilidade nos mercados num momento já de si frágil”.

Nellis disse que o BCE se encontra numa posição difícil. Anos de crescimento anémico apontam para a necessidade de manter custos de financiamento favoráveis, mas, com as pressões sobre os preços a aumentar, o banco central “pode ver-se obrigado a aumentar novamente as taxas de juro na reunião de dezembro”.

Os números de sexta-feira mostram os dois lados deste dilema.

Na Alemanha, um corte fiscal direcionado bastou para fazer descer a inflação. Em Itália, o choque energético já se reflete no que as famílias pagam por alimentação e viagens.

Qual destas duas histórias se propaga ao resto da zona euro poderá determinar até onde o BCE terá de ir.

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