O chefe do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP diz que a polícia irá privilegiar o diálogo com os manifestantes, mas "o diálogo infinito não é possível". O regresso da "acampada" ao Rossio, em Lisboa, foi votado em "assembleia popular" na noite de sexta.
Este sábado, as manifestações pelo direito à habitação e contra o alto custo de vida voltam às principais cidades de Portugal, com destaque para Lisboa e Porto, e há promessa de uma nova "acampada" no Rossio pela noite dentro, apesar da interdição de permanecer para lá das 00:30 e da dispersão violenta feita pela polícia na madrugada do dia 25, depois de os manifestantes terem recusado retirar as tendas. A carga policial, muito criticada pela oposição, foi feita simultaneamente em Lisboa e no Porto e causou dezenas de feridos.
Ao contrário da grande manifestação de terça-feira, que terminou com uma grande concentração frente à Assembleia da República e depois dispersou, as marchas deste sábado em Lisboa e no Porto devem terminar com a montagem de tendas no Rossio, no caso da capital, e provavelmente também na praça D. João I, no Porto, onde ainda não foi tomada uma decisão. Em Lisboa, os manifestantes a prometerem mantê-las durante a noite durante vários dias, conforme votado na "assembleia popular" de sexta-feira, onde foi também decidido repetir estas reuniões todas as noites às 21:00 ou às 19:00. A proposta de vetar a presença de jornalistas junto dos grupos de manifestantes
A marcha de Lisboa começa com uma concentração no Largo do Camões e segue para o Rossio, enquanto no Porto irá ligar a Praça da Batalha à Praça D. João I.
Polícia admite voltar a recorrer à força
A polícia admite voltar a recorrer à força, se os manifestantes insistirem em voltar a instalar tendas e pernoitar nas praças. Em entrevista ao jornal online Observador, o superintendente-chefe Luís Elias, comandante do Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública (PSP) garantiu que a polícia iria privilegiar o diálogo, mas que "o diálogo infinito não está em cima da mesa".
Quanto à possibilidade de as imagens da carga policial do dia 25 se repetirem, respondeu: “Não posso antecipar esse cenário neste momento. Veremos na altura a melhor forma de atuar. As modalidades de ação estão bem definidas, nós sabemos bem aquilo que podemos e o que não podemos fazer, e aquilo que devemos fazer”, disse. "Esgotaremos todas as etapas do diálogo, da negociação com os promotores da manifestação“, acrescenta.
A intervenção musculada do dia 25 causou um coro de críticas. A polícia tentou demover os manifestantes a retirar as tendas, alegando o decreto-lei de 1974 que impede as manifestações na via pública para lá das 00:30. Os manifestantes contrapõem o direito à manifestação consagrado na Constituição.
A polícia proibiu também o sobrevoo das manifestações por drones não autorizados, garantindo no entanto que a Comunicação Social poderia continuar a usá-los.
O deputado Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, alega ter sofrido agressões durante a repressão da manifestação, o que a polícia contesta. Há também acusações de bastonadas da polícia a vários participantes na manifestação nas ruas adjacentes ao Rossio, já depois de o protesto ter dispersado. Um gupo de 20 pessoas prepara uma queixa contra a PSP.
Cidadãos recorrem à Provedora
Entretanto, um grupo de cidadãos decidiu recorrer à Provedora de Justiça para evitar novos excessos nas manifestações deste fim de semana. O grupo, que inclui a economista e comentadora televisiva Susana Peralta, ou ainda a ex-candidata presidencial Ana Gomes e o professor de economia Luís Aguiar-Conraria, fez um pedido "urgente" à provedora Luísa Neto para que acione o mecanismo nacional de prevenção da tortura.
A constitucionalista Teresa Violante, também assinante da petição, disse ao jornal Público que este mecanismo existe para prevenir os abusos, e não para ser usado depois de eles acontecerem.
O pedido destina-se a prevenir abusos nas esquadras com os manifestantes que possam ser detidos, depois de várias acusações relativas aos detidos no dia 25, que alegadamente foram retidos nas esquadras enquanto os advogados estivessem também presentes.
O grupo diz também que as recentes declarações do ministro da Administração Interna, a validar a ação da polícia, contribuiram para este pedido.