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Suspeitas de espionagem em universidades e centros de investigação na Alemanha por serviços secretos chineses

Bandeira diante da embaixada chinesa em Berlim, 22 de abril de 2024
Bandeira em frente à embaixada chinesa em Berlim, 22 de abril de 2024 -  Direitos de autor  (c) Copyright 2024, dpa (www.dpa.de). Alle Rechte vorbehalten
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De Laura Fleischmann
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Suspeitas de espionagem em centros de investigação estatais e tentativas de recrutar cientistas: serviços secretos chineses visam know-how alemão. Especialistas alertam para falhas de segurança e pedem mais proteção sem perder a liberdade científica

Continua por esclarecer se investigadores chineses terão enviado dados sensíveis de investigação do Centro Helmholtz para a Segurança da Informação (CISPA) para a República Popular da China.

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As consequências poderão ser devastadoras para a Alemanha: no CISPA, sediado em Saarbrücken, são desenvolvidas investigações em áreas como a inteligência artificial, a proteção de dados e a cibersegurança. A instituição é considerada uma das principais referências mundiais nestas áreas.

A direção admite a existência de falhas na "seleção de colaboradores científicos". Vários investigadores terão mantido contactos com instituições de ensino superior ligadas às forças armadas chinesas, noticiou inicialmente o diário Handelsblatt.

Uma porta-voz da Embaixada da China rejeitou as acusações, considerando-as "infundadas" e classificando-as como "difamação e calúnia". Este caso é representativo de muitos outros registados na Alemanha nos últimos anos.

Outro caso envolve August Hanning, antigo diretor do Serviço Federal de Informações (BND). No início de outubro, o homem, de 80 anos, foi detido por suspeita de ter partilhado informações secretas com um membro dos serviços secretos chineses, segundo a revista semanal Der Spiegel. A Procuradoria-Geral Federal está a investigar o caso por suspeita de tentativa de traição ao Estado.

Em maio, a Procuradoria-Geral Federal ordenou a detenção, em Munique, de Xuejun C. e Hua S., dois alegados espiões chineses. O casal alemão de origem chinesa terá tentado estabelecer contactos com cientistas e universidades alemãs em nome dos serviços de informações chineses. Faziam-se passar por intérpretes ou funcionários de um fabricante de automóveis. Terão também tentado atrair investigadores alemães para a China. Já no país, esses cientistas seriam inesperadamente convidados a proferir palestras perante funcionários de empresas públicas do setor do armamento. O objetivo de Xuejun C. e Hua S. seria obter informações sobre tecnologia de ponta com potencial aplicação militar.

No ano passado, o Tribunal Regional Superior de Dresden condenou Jian G., antigo colaborador do eurodeputado da AfD Maximilian Krah, a quatro anos e nove meses de prisão por espionagem a favor da China.

Entre 2019 e 2024, Jian G. terá recolhido informações, algumas das quais confidenciais, e enviado-as para a China. Terá também vigiado dissidentes chineses e recolhido dados sobre a direção da AfD. Jian G. chegou à Alemanha em 2001, ao abrigo de um programa de intercâmbio para estudantes. A partir de 2002, começou a enviar informações para a China.

Investigadores após a busca ao gabinete do eurodeputado Maximilian Krah (AfD) e do seu assistente Jian G., Parlamento Europeu em Bruxelas, 7 de maio de 2024
Investigadores após a busca ao gabinete do eurodeputado Maximilian Krah (AfD) e do seu assistente Jian G., Parlamento Europeu em Bruxelas, 7 de maio de 2024 Copyright 2024 The Associated Press. All rights reserved.

China: uma ameaça silenciosa

“A ameaça representada pela China é uma ameaça silenciosa”, afirma Luca Manns, diretor da Unidade de Investigação sobre Serviços de Informações da Universidade de Colónia.

“Potencialmente, qualquer pessoa na economia e na ciência pode tornar-se vítima de espionagem da República Popular”, acrescenta Manns.

“As medidas de contra-espionagem estão atualmente fortemente orientadas contra a Rússia”, explica o especialista em espionagem. Isso chama também a atenção da população. As atividades da China, sublinha Manns, "acabam por ser muitas vezes esquecidas, pelo menos na perceção pública."

Mais recentemente, tanto a Federação da Indústria Alemã (BDI) como o serviço de proteção da Constituição alertaram para a espionagem chinesa na área científica. Há grande preocupação de que os serviços secretos chineses consigam acesso a tecnologias-chave de que a economia alemã, já enfraquecida, precisa urgentemente.

A República Popular, para além dos agentes que trabalham nas embaixadas disfarçados de diplomatas, recorre “relativamente pouco a oficiais de informações próprios, destacados em território alemão, porque a sua utilização está associada a um risco elevado”, explica Manns.

Em vez disso, a China procura envolver intermediários e auxiliares, entre eles cientistas convidados, doutorandos e bolseiros chineses enviados para instituições europeias de ensino superior.

Roubo de ideias como “instrumento legítimo”

Cerca de 40 mil estudantes chineses vivem na Alemanha. Uma grande parte deles mantém ligações estreitas ao Estado chinês, informou em 2024 o noticiário Tagesschau, citando o serviço de proteção da Constituição. Isso aplica-se sobretudo aos que são enviados para a Alemanha através de programas de bolsas.

Isto leva repetidamente a casos de roubo de ideias, explica Manns à Euronews. “Uma universidade quer, por exemplo, registar uma patente e descobre que esta já foi registada na China alguns meses antes. Em tais situações, a fuga de informação é por vezes atribuída a cientistas convidados que trabalharam anteriormente na instituição em causa, ou a ciberataques.”

Para a China, isto é menos um símbolo agressivo de ingerência externa e mais um “instrumento legítimo na concorrência internacional”.

Embaixada da China em Berlim, 2024
Embaixada da China em Berlim, 2024 Copyright 2024 The Associated Press. All rights reserved

A República Popular tem como objetivo, até ao 100.º aniversário da sua fundação, em outubro de 2049, tornar-se a principal potência mundial. Para isso aposta, entre outros fatores, na inovação, em tecnologia de ponta própria e na influência global.

Para atingir esse objetivo, os serviços secretos chineses recorrem por vezes, nos países-alvo, a pessoas que são relativamente fáceis de conquistar como intermediários, como indivíduos com problemas financeiros, refere Manns. Com o tempo, funcionários dos serviços de informações chineses estabelecem uma relação próxima com essas pessoas e utilizam-nas, entre outras funções, como consultores ou prestadores de serviços.

Os agentes atuam geralmente de forma discreta, pelo menos numa fase inicial. Para quem é contactado, nem sempre é evidente à partida que está a lidar, por exemplo, com o Ministério da Segurança do Estado chinês.

Também antigos políticos influentes, deputados e altos funcionários alemães são alvo direto de recolha de informações para os serviços secretos da República Popular da China. Manns designa isto como “estratégia das raposas prateadas ou barbas grisalhas”.

Depois de deixarem a sua profissão anterior, estas pessoas, quase sempre homens, são contratadas como consultores ou atraídas através de uma cátedra visitante. “Alguns têm dificuldade em lidar com a perda de relevância e, por isso, são particularmente vulneráveis à lisonja e à perspetiva de reconhecimento. Essas características podem ser exploradas de forma inteligente para extrair, muitas vezes sem se dar por isso, o conhecimento institucional que possuem”, explica Manns.

Também “durante estadas na China são abordadas pessoas-alvo provenientes da Alemanha e recrutadas com a promessa de remuneração”, lê-se no Relatório de Proteção da Constituição de 2025 do Ministério Federal do Interior.

“Os visados dispõem de acessos valiosos ou prometem, na perspetiva dos serviços de informações chineses, uma evolução futura promissora.”

Medidas deste tipo de recrutamento realizam-se, por exemplo, em eventos no meio académico.

Institutos Confúcio como cobertura

Para difundir “uma imagem o mais irrepreensível possível da China”, os serviços secretos chineses recorrem também a estruturas como os Institutos Confúcio, prossegue o relatório.

Através desses institutos, a China procura “impedir eventos ou investigação críticos do regime em instituições de ensino superior alemãs”. As atividades chinesas na educação e na investigação ameaçam “minar a liberdade académica na Alemanha”.

Os Institutos Confúcio são centros de cultura e língua que a República Popular da China tem vindo a criar em todo o mundo desde 2004 para divulgar a língua e a cultura chinesas. Oferecem cursos de mandarim, mas também conferências, sessões de cinema e eventos culturais.

Ao contrário, por exemplo, do Goethe-Institut, os Institutos Confúcio raramente operam de forma autónoma e estão normalmente integrados em universidades: uma instituição de ensino superior no país anfitrião coopera com uma universidade parceira chinesa, cabendo à China fornecer financiamento, docentes e materiais.

Na Alemanha existiram temporariamente cerca de 19 destes institutos. Várias universidades, entre elas Hamburgo, Düsseldorf e Frankfurt, encerraram as respetivas cooperações nos últimos anos.

Texto em chinês, arquivo
Texto em chinês, arquivo San Francisco Chronicle

Manns explica que, do ponto de vista dos serviços de informações, estes institutos oferecem à República Popular “vantagens de segurança significativas”, “porque fornecem uma cobertura credível e um enquadramento institucional legítimo”. “Dessa forma, para além do funcionamento oficial, podem decorrer também atividades de serviços de informações.”

Um caso deste tipo terá ocorrido em 2019 na Bélgica: nessa altura, as autoridades revogaram o visto do diretor do Instituto Confúcio em Bruxelas e expulsaram-no do país. Durante oito anos não poderá entrar na área Schengen. Ao politólogo é imputada uma “ameaça à segurança nacional”.

“No contexto destas estruturas, pode tratar-se, por exemplo, de identificar quem é crítico em relação à política chinesa e com quem se podem estabelecer contactos potenciais”, acrescenta Manns.

Mas também os próprios chineses sofrem com a influência exercida a partir de Pequim, sublinha Manns. “Embora a China atue na maioria das vezes de forma discreta neste país, o Estado pode assumir um comportamento claramente autoritário e repressivo, sobretudo quando, do ponto de vista chinês, pessoas põem em causa a segurança interna. Isso afeta sobretudo pessoas no exílio, incluindo indivíduos que anteriormente ocuparam posições sociais ou científicas relevantes na República Popular.”

Nestes casos ocorrem, por exemplo, chamadas de ameaça e tentativas de intimidação. “Em situações mais extremas, chega a tentar-se colocar fontes humanas no círculo próximo dos visados, para recolher informações privadas sobre eles.”

Estado aperta as rédeas

Para combater a espionagem chinesa na economia e na ciência, o governo federal está a rejeitar cada vez mais pedidos de visto de cidadãos chineses com a finalidade de estudar ou de investigação. Em 2025, as autoridades terão recusado cerca de 200 pedidos de investigadores e cientistas, em comparação com 2 100 pedidos aprovados, segundo o canal WDR.

Entre estudantes, cerca de 200 pedidos foram igualmente indeferidos. No total, terão sido apresentados cerca de 9 mil pedidos. O número de recusas aumentou assim face aos anos anteriores. Apenas pedidos provenientes do Irão são rejeitados com maior frequência.

No final de 2025, o presidente do serviço de proteção da Constituição, Sinan Selen, afirmou numa audição no Bundestag que as medidas de defesa têm sido “insuficientes” na avaliação de pessoas que participam em “projetos de investigação sensíveis”.

O problema está a crescer, mas há “potencial de melhoria” no grau de sensibilização para a segurança.

Além disso, o governo federal criou uma Plataforma Nacional para a Segurança da Investigação. Em meados de outubro, a plataforma realizou a sua primeira reunião. O objetivo é ajudar cientistas e instituições a avaliar riscos e aconselhá-los sobre medidas de proteção. Também será abordada a gestão de possíveis parceiros críticos. Prevê-se ainda elaborar análises nacionais de risco. O serviço é financiado pelo Ministério Federal da Investigação, Tecnologia e Espaço (BMFTR).

A ministra federal da Investigação, Dorothee Bär (CSU), afirmou a propósito: “Não podemos ser ingénuos e temos de garantir que as nossas inovações não caem em mãos erradas. Ao mesmo tempo, a liberdade científica consagrada na Constituição é uma premissa indispensável para o nosso espaço de investigação.” Essa liberdade implica responsabilidade.

Cooperação sim, ingenuidade não

Para o especialista em serviços de informações, Manns, pôr termo de forma generalizada à cooperação com investigadores chineses seria ir demasiado longe.

“A Alemanha beneficia, em parte, da colaboração com a República Popular, porque o país está hoje muito avançado em muitos domínios científicos e tecnológicos”, afirma. “Face à forma pragmática como a China avalia a relação connosco, deveríamos refletir mais sobre a necessidade de colocar sistematicamente em primeiro plano as nossas próprias vantagens nas cooperações. Isso inclui uma avaliação clara da segurança antes de projetos de investigação conjuntos.”

Konstantin von Notz, vice-presidente da Comissão Parlamentar de Controlo (PKGr), que supervisiona os serviços de informações alemães, afirma à Euronews: “Tem sido repetidamente assinalado o enorme risco de que serviços de informações estrangeiros, em particular chineses, espionem deliberadamente universidades e instituições de investigação extrauniversitárias alemãs para obter conhecimentos e tecnologias relevantes para a segurança.”

Von Notz considera “irresponsável” que "ainda existam instituições que ignoram em grande medida estes avisos e revelam um grau assustador de ingenuidade”. Em especial, acrescenta, "instituições que investigam temas como inteligência artificial, tecnologias quânticas, de chips e semicondutores, ou áreas de cibersegurança e bens de dupla utilização deverão continuar a estar muito particularmente no alvo de atacantes", porque “são precisamente elas que estão chamadas a proteger-se bem. Também as cooperações de investigação já existentes têm de ser reavaliadas.”

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