Quem está por trás dos ciberataques a arcas de supermercados na Europa e porque é que a IA vai agravá-los? A Euronews Next falou com peritos em cibersegurança
Frigoríficos e congeladores de supermercados estão a tornar-se cada vez mais alvos de piratas informáticos, o que leva à deterioração de alimentos e aumenta os receios de que a alimentação se torne um alvo tecnológico.
A mais recente série de incidentes informáticos noticiada na segunda-feira afetou cadeias de supermercados na Bélgica, Luxemburgo, Estónia, Países Baixos e Irlanda. A Suécia também foi afetada, e uma loja atribuiu o incidente a um ciberataque.
Os casos surgem poucas semanas depois de congeladores em cerca de 500 a 700 supermercados franceses terem sido atingidos por um grande ciberataque, que fez subir as temperaturas até aos 50 graus Celsius.
Embora nenhum grupo tenha reivindicado a responsabilidade ou tenha sido acusado de qualquer ataque a frigoríficos de supermercados, as autoridades francesas acreditam que o ataque de 12 de outubro envolveu atores internacionais, mas não foi atribuída qualquer responsabilidade oficial.
Porque é que os frigoríficos estão online?
Frigoríficos, sistemas de aquecimento e sistemas de segurança passaram cada vez mais a estar ligados à internet para poderem ser monitorizados à distância e, assim, serem mais fáceis de gerir pelos donos das lojas.
Em teoria, se um dispositivo estiver ligado à internet, através de uma aplicação ou de uma rede na nuvem, pode ser pirateado.
Uma vez dentro da rede, um pirata informático pode recolher informações ou controlar um dispositivo alterando definições, impedir os utilizadores de aceder às suas contas ou desligar completamente um dispositivo.
Qual é a razão dos ataques?
O facto de ninguém ter reivindicado a responsabilidade pode significar muitas coisas, por exemplo que os piratas queiram causar perturbação ou preparar novos ataques, segundo Marta Rybczynska, fundadora e especialista em cibersegurança na empresa Ygreky, que também salientou que não houve qualquer ganho monetário para os atacantes.
“Os investigadores mantêm silêncio sobre os resultados atuais da investigação em França, mas por eliminação é provável que exista aqui um grupo apoiado por um Estado”, disse ela ao Euronews Next.
“Depois do ataque em França, considerei a hipótese de se tratar de um grupo de jovens, mas com o último caso isso torna-se muito mais provável. Exceto se se limitarem a copiar o método”, acrescentou.
A principal razão pela qual acredita que os congeladores e frigoríficos de supermercados são atacados é o facto de serem “alvos fáceis”, já que as instruções sobre como os atacar estão facilmente disponíveis online.
A grande questão que coloca é “porquê agora” e porque é que as lojas afetadas não protegeram melhor as suas instalações depois dos ataques em França.
“O grande problema que vejo é que as lojas não se consideravam possíveis alvos. Penso que há uma necessidade urgente de começar a proteger estes serviços que não eram considerados suficientemente importantes”, afirmou.
A questão da infraestrutura
Embora talvez nunca se venha a saber quem esteve por detrás dos ataques a frigoríficos de supermercados, os especialistas acreditam que eles vão continuar devido “à simples razão de que são vulneráveis”, disse Pavlina Pavlova, fundadora da organização sem fins lucrativos de cibersegurança Critical Cyber.
“Funcionam com sistemas antigos que são despriorizados ou impossíveis de corrigir, muitos dos controladores atingidos em França, por exemplo, eram modelos mais antigos que já não recebem atualizações de segurança, apesar de falhas conhecidas desde 2025.”
“São atacados por causa da matriz de disponibilidade, atratividade e vulnerabilidade, são acessíveis e não defendidos”, disse ela ao Euronews Next.
Mas na era da inteligência artificial as ameaças deverão aumentar, já que a IA reduz a barreira de entrada para ataques sofisticados e permite automatizar ataques em grande escala e a uma velocidade que os humanos não conseguem igualar.
“A deteção de vulnerabilidades com recurso a IA torna mais fácil e rápida do que nunca a identificação e exploração de pontos fracos, incluindo em funções vitais de que as pessoas dependem, enquanto a correção a esta velocidade continua a ser um estrangulamento para os defensores”, afirmou Pavlova.
“Provavelmente vai piorar antes de melhorar.”