Presidente do BCE enfrenta críticas após revelar que recebe mais de 140 mil euros por ano como membro do conselho do Banco de Compensações Internacionais (BIS), apesar de as normas do BCE proibirem o pessoal permanente de aceitar remunerações de terceiros.
Christine Lagarde revelou na sexta-feira ter recebido 130.457 francos suíços (142.700 euros) do Banco de Compensações Internacionais (BIS) no ano passado, segundo uma carta enviada aos eurodeputados Fabio De Masi e Dick Erixon e citada pelo Financial Times.
Internamente, trabalhadores do BCE denunciaram o que consideram ser a desonestidade do "duplo salário" de Christine Lagarde.
Um dos funcionários escreveu de forma incisiva: "Pregam a água e bebem o vinho!", segundo capturas de ecrã vistas e relatadas pelo FT.
Elementos do pessoal afirmam estar proibidos de aceitar pagamentos externos por funções relacionadas com o trabalho.
Mesmo o funcionário do BCE designado para acompanhar Lagarde nas reuniões do BIS não pode receber qualquer abono do banco.
De acordo com o manual de normas, se aos funcionários forem oferecidas remunerações externas pelo desempenho das suas funções, esse dinheiro tem de ser entregue ao BCE.
"Nós, mortais, não podemos ficar com o abono do BIS", escreveu outro funcionário frustrado.
O banco central defendeu estes pagamentos estabelecendo uma distinção clara entre funcionários e direção executiva, argumentando que Lagarde não é membro do quadro geral e está sujeita a um código de conduta próprio para altos dirigentes.
O BCE alega ainda que o cargo de Lagarde no BIS implica decisões de governação de grande alcance que acarretam riscos jurídicos pessoais, justificando assim a remuneração separada, e que os funcionários que a apoiam não assumem essas mesmas responsabilidades.
O banco central da zona euro defendeu igualmente Lagarde, salientando que a presidente do BCE se limita a seguir a tradição dos seus antecessores, Mario Draghi e Jean-Claude Trichet, que também recebiam uma verba do BIS.
Lagarde integra o grupo de 18 principais banqueiros centrais que compõem o conselho do BIS, mas nem todos gerem a remuneração extra da mesma forma.
Por exemplo, o presidente da Reserva Federal (Fed) e o governador do Banco de Inglaterra não recebem o salário do BIS. No caso da Fed, a legislação norte-americana proíbe expressamente os responsáveis de aceitarem dinheiro de instituições estrangeiras.
O Banco de França permite ao governador ficar com o abono, mas recupera para a instituição 50% da remuneração fixa paga pelo BIS.
Com todas as fontes de rendimento, Lagarde é atualmente a responsável pública mais bem paga da União Europeia, auferindo cerca de 743.000 euros por ano.