“A hipótese de os meus conterrâneos gronelandeses trocarem um colonizador cruel por outro é demasiado brutal”, escreveu a música islandesa no Instagram, criticando Trump e a Dinamarca.
Tem sido um início de 2026 extenuante, devido à captura, autorizada por Donald Trump, do presidente venezuelano Nicolás Maduro e às suas ameaças renovadas de anexar a Gronelândia.
O presidente dos Estados Unidos tem sugerido repetidamente a possibilidade de a Gronelândia se tornar parte anexada dos Estados Unidos. Disse recentemente a jornalistas que o país “precisa da Gronelândia do ponto de vista da segurança nacional”, apontando que a localização da ilha tem valor estratégico para fins de defesa.
As ameaças de Trump reacenderam receios de uma invasão dos Estados Unidos à ilha, que é autogovernada mas continua a integrar o reino da Dinamarca. A Dinamarca também continua a controlar os assuntos externos e a defesa da Gronelândia.
Mette Frederiksen, primeira-ministra dinamarquesa, avisou na segunda-feira que qualquer ataque dos Estados Unidos a um aliado da NATO seria o fim da “segurança do pós-Segunda Guerra Mundial”.
“Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da NATO, então tudo pararia, incluindo a NATO e, por conseguinte, a segurança do pós-Segunda Guerra Mundial”, disse Frederiksen à cadeia de televisão dinamarquesa TV2.
Os comentários de Frederiksen surgiram após o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, ter desvalorizado a ameaça de Trump como “fantasia” e ter dito ao presidente “já chega”.
“Ameaças, pressão e conversas sobre anexação não têm lugar entre amigos”, disse Nielsen numa publicação nas redes sociais. “Não é assim que se fala a um povo que tem demonstrado responsabilidade, estabilidade e lealdade repetidamente. Chega. Sem mais pressão. Sem mais insinuações. Sem mais fantasias de anexação”.
Agora, a lenda islandesa da música Björk partilhou uma nota de solidariedade com o povo da Gronelândia, criticando Trump e a Dinamarca e manifestando apoio à independência do território.
“Desejo a todos os gronelandeses bênçãos na sua luta pela independência”, começou, referindo depois a história do seu próprio país. “Os islandeses ficaram extremamente aliviados por terem conseguido romper com os dinamarqueses em 1944. Não perdemos a nossa língua (os meus filhos estariam a falar dinamarquês agora), e sinto uma enorme empatia pelos gronelandeses”.
Björk prosseguiu, chamando a atenção para o escândalo da “contraceção forçada” em meados da década de 1960 e no início da de 1970. Recordou a ação judicial do ano passado, movida por 143 mulheres, que acusam o governo dinamarquês de lhes ter colocado DIUs sem consentimento numa tentativa de limitar o crescimento demográfico da Gronelândia. Uma investigação oficial concluiu que cerca de 4.500 mulheres indígenas gronelandesas foram afetadas pela campanha de contraceção forçada.
Björk também criticou os testes de competência parental, proibidos em maio de 2025, que obrigaram à separação de famílias, com crianças inuítes retiradas aos pais e entregues a famílias de acolhimento dinamarquesas.
E considerou que “os dinamarqueses tratam os gronelandeses como seres humanos de segunda classe” em 2025.
“O colonialismo tem-me provocado arrepios de horror, e a possibilidade de os gronelandeses passarem de um colonizador cruel para outro é demasiado brutal para sequer imaginar”, continuou a cantora.
“’Úr öskunni í eldinn’, como dizemos em islandês”, escreveu. A expressão traduz-se por “das cinzas para o fogo”, significando que o que está mal pode piorar.
Björk concluiu: “Caros gronelandeses, declarem independência!!!! Votos de solidariedade dos vossos vizinhos".
Não é a primeira vez que Björk incentiva a Gronelândia a separar-se da Dinamarca. Tem até uma canção chamada ‘Declare Independence’, do álbum ‘Volta’ de 2007, dedicada à Gronelândia.
O último álbum de estúdio da artista foi ‘Fossora’, em 2022. No ano passado, participou na faixa ‘Berghain’ no álbum ‘LUX’ de Rosalía, Álbum do Ano de 2025 da Euronews. Em maio, vai inaugurar uma exposição de obras imersivas na Galeria Nacional da Islândia, e há rumores de que lançará um novo álbum este ano.