Todos os jogos do Mundial têm sido interrompidos por novas pausas de hidratação, uma medida da FIFA recebida com vaias. Porque gera polémica?
Já houve muitos momentos de alegria neste Mundial, mas também uma impressionante sucessão de polémicas.
Dos adeptos japoneses a limparem os estádios aos pedidos gastronómicos dos escoceses e a Erling Haaland a revelar-se um verdadeiro senhor, tem sido entusiasmante acompanhar alguns dos momentos virais em torno do torneio. Mas, no centro de grande parte da contestação, está o presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Defendeu os preços exorbitantes dos bilhetes, que fazem o Mundial parecer um caos elitista; surgiram dúvidas sobre a alegada neutralidade política da FIFA quando atribuiu o primeiro Prémio da Paz da FIFA a Donald Trump; tem usado um jato privado para assistir a dois jogos por dia, aumentando assim aquilo que o New Weather Institute (fonte em inglês) descreveu como “o evento mais poluente de sempre”...
Junte-se a isto o seu conselho desajustado de que todos “devem relaxar” perante a recusa de entrada nos EUA ao árbitro somali Omar Artan, e o recente anúncio de que Donald Trump irá entregar o troféu de campeão do Mundo aos vencedores na final de 19 de julho... As polémicas sucedem-se e a lista não fica por aqui.
Uma preocupação particularmente irritante, que está a ganhar cada vez mais peso, são as controversas “pausas para hidratação” deste ano.
Talvez tenha reparado que os jogos deste Mundial passaram a ter a brusca introdução de paragens obrigatórias a meio de cada parte. A medida foi apresentada como necessária para proteger a saúde dos jogadores, mas nem todos estão convencidos.
É certo que a necessidade de dar prioridade à saúde dos jogadores em temperaturas elevadas é importante, mas muitos defendem que o formato em quatro períodos, mais associado às modalidades norte‑americanas, é desnecessário quando tantos estádios já têm cobertura e ar condicionado.
As pausas têm sido recebidas com sonoras vaias e tornaram-se uma tendência crescente; e não são só os adeptos que se mostram irritados com estas interrupções. Jogadores e treinadores têm criticado a forma como a nova estrutura altera os jogos.
O internacional neerlandês Virgil van Dijk criticou a introdução das pausas após o empate 2-2 dos Países Baixos com o Japão, no AT&T Stadium, com ar condicionado, em Arlington, no Texas, a 14 de junho.
“As pausas para hidratação são um pouco curiosas, porque eu estive obviamente a ver quase todos os jogos até hoje e ir para intervalo publicitário de cada vez é um bocado... Não é propriamente algo de que eu goste”, disse van Dijk. “Acho que, para os espectadores neutros na televisão, também não é grande coisa. Se estiver mesmo muito calor, obviamente é bom que existam. Mas, na minha opinião, é preciso avaliar caso a caso, em cada jogo. De qualquer forma, acho que já disse o suficiente sobre isso.”
O selecionador do Uruguai, Marcelo Bielsa, criticou as pausas para hidratação antes do Uruguai–Cabo Verde, a 21 de junho, afirmando: “Segundo o consenso geral, jogar quatro períodos em vez de dois altera a conceção culturalmente construída de como se interpreta o futebol. No meu entender, não acrescenta nada e retira muito.”
O selecionador de Inglaterra, Thomas Tuchel, admitiu também não ser adepto das pausas. “Acho que interrompem e mudam a identidade de um jogo de futebol muito mais do que eu pensava. Já tive pausas para hidratação quando estava mesmo, mesmo muito calor e eram necessárias, mas eram mais curtas. Isto divide praticamente o jogo em quatro quartos. E penso que altera a característica do jogo mais do que eu imaginava.”
“No geral, porém, gosto mais de futebol quando é jogado de uma só vez em cada parte, porque assim constrói-se um impulso”, acrescentou. “É difícil criar embalo, e é difícil mantê-lo, quando há estas pausas.”
Já a selecionadora dos Estados Unidos em futebol feminino, Emma Hayes, que está a trabalhar como comentadora para o canal britânico ITV durante o torneio, disse que o momento em que as pausas para hidratação ocorrem pode ser uma arma de dois gumes.
“É vantajoso para a equipa que está a perder embalo – por isso é que lhes chamo pausas de momentum”, afirmou. “Quando se está por cima do jogo, não se quer a pausa. Quando se está a perder, quer-se.”
A FIFA defende que a decisão de aplicar pausas para bebidas em todos os 104 jogos, independentemente da temperatura local à hora de cada partida, foi tomada para garantir coerência em todo o torneio.
No entanto, muitos têm criticado Infantino pelo que consideram serem motivações financeiras subjacentes à imposição destas pausas. Argumentam que são uma forma dissimulada de introduzir mais publicidade.
De facto, sempre que o apito do árbitro interrompe o jogo aos 22 minutos de cada parte, quem vê em casa é confrontado com um ecrã dividido ou um corte total para blocos publicitários.
Será então um esquema descarado para arrecadar mais dinheiro?
Infantino insiste que não, garantindo que a FIFA não está a receber receitas adicionais por as televisões passarem anúncios nesses momentos.
“Não há receitas adicionais para a FIFA, porque todos os acordos comerciais foram assinados com muita antecedência”, disse. “Isto não é uma questão financeira para nós. Para nós, é puramente uma questão desportiva.”
Ainda assim, as vaias continuam, os adeptos não estão satisfeitos e cresce o número de pessoas a sublinhar que as pausas abriram mais janelas de publicidade para os canais.
“Capitalismo desnecessário”, “interrupção descarada do jogo para ter mais receitas de publicidade”, “mais uma razão para detestar Infantino e o comercialismo do futebol” são alguns dos comentários amplamente partilhados online, sendo poucos os que acreditam na defesa apresentada por Infantino perante as críticas crescentes.
Veja em baixo algumas das reações:
Apesar da contestação, o atual presidente da FIFA afirmou que o organismo vai ponderar manter as pausas para hidratação em futuros Mundiais. E quando, inevitavelmente, decidirem prosseguir com estas interrupções, convém lembrar que os detentores de direitos televisivos estarão ansiosos por mais janelas de transmissão em direto...
Mais encorajadora para os adeptos tem sido, no entanto, a reação da UEFA.
O organismo que tutela o futebol europeu afastou a possibilidade de introduzir pausas para hidratação, confirmando que não há planos para se desviar das tradicionais duas partes ininterruptas na Liga dos Campeões e no Europeu de 2028.
Entretanto, pelo menos alguns vão-se divertindo com a situação:
O Mundial de 2026 (e as respetivas pausas publicitárias) decorre nos Estados Unidos, no Canadá e no México até 19 de julho.