Associação de Cinemas do Reino Unido pondera restrições aos óculos da Meta, que oferecem acessibilidade mas também gravam vídeos de forma discreta
Acessório apelidado de ‘pervert glasses’ poderá em breve ser proibido nas salas de cinema do Reino Unido.
Segundo avançou a Sky News (fonte em inglês), a UK Cinema Association (UKCA) está a ponderar proibir os óculos inteligentes da Meta nas salas de cinema, enquanto os operadores equilibram as preocupações com pirataria e privacidade com as vantagens de acessibilidade destas armações de alta tecnologia.
Todos os olhos em si
Desde que chegaram ao mercado, os óculos da Meta deram aos voyeurs e aos aspirantes a piratas uma atualização bem ao estilo do século XXI.
Os óculos inteligentes da Meta integram câmaras nas hastes que permitem aos utilizadores tirar fotografias e gravar vídeos de forma discreta. Existe uma pequena luz pensada para alertar as pessoas quando está a decorrer uma gravação, mas muitos utilizadores têm relatado como é fácil tapar o indicador (fonte em inglês). Há mesmo vendedores independentes a comercializar coberturas para essa luz em mercados online como a Amazon.
Essa realidade levantou preocupações generalizadas sobre consentimento, sobretudo porque a pessoa filmada pode não ter qualquer ideia de que lhe está apontada uma câmara. Daí as alcunhas “óculos espião” e “óculos de tarado”.
Para as salas de cinema, esta nova tecnologia coloca outros desafios para lá da privacidade.
Porque os cinemas estão preocupados
A pirataria está longe de ser um problema novo. A UKCA (fonte em inglês) estima que a violação de direitos de autor custa às indústrias criativas do Reino Unido, pelo menos, 500 milhões de libras (585 milhões de euros) por ano.
Mais de 90% das cópias ilegais de filmes recém-lançados têm origem nas salas de cinema, segundo o relatório anual de 2024 da UKCA.
Na maioria dos casos, são gravadas com dispositivos compactos, como smartphones.
Por isso, em algumas sessões de grande destaque, o público tem sido obrigado a deixar os telemóveis em bolsas de segurança ou fora da sala de projeção.
Os operadores de cinema também formam as equipas para identificarem gravações ilegais. Em 2025, a Film Content Protection Agency (fonte em inglês) registou 121 incidentes em que trabalhadores de cinema identificaram, interromperam e comunicaram gravações ilegais em todo o Reino Unido.
Há quem tema que os óculos da Meta possam oferecer aos piratas uma nova forma de gravar sessões de cinema.
Vantagem ou ponto cego?
Existem razões legítimas para querer usar estes óculos, e não apenas porque a Kylie Jenner quer que pense que ficam bem.
Para espectadores com deficiência visual ou com perda de audição, os óculos podem trazer benefícios de acessibilidade. O diretor executivo da UKCA, Phil Clapp, disse à Sky News que algumas armações inteligentes conseguem oferecer legendas feitas à medida.
A Meta defende que estes óculos representam “uma nova tecnologia crítica” para pessoas cegas ou com baixa visão, acrescentando que “limitar a forma como se pode usar esta tecnologia seria um grande retrocesso”.
Para já, não existe qualquer proibição a nível nacional nas salas de cinema do Reino Unido, mas o debate sobre como regular óculos inteligentes com tecnologia de inteligência artificial está a ganhar força na Europa.
A autoridade alemã de proteção de dados, por exemplo, afirma que estes óculos podem ser proibidos ao abrigo das leis que já proíbem dispositivos de gravação ocultos em objetos do quotidiano.