Sánchez criticou esta manhã, na TVE, o Centro Nacional de Inteligência de Espanha por não ter impedido “de todo” a travessia a nado até à cidade autónoma. Ainda assim, o CNI avisou os homólogos marroquinos e a polícia alertou os comandos em Ceuta e Melilla
Uma nota urgente do Centro Nacional de Inteligência (CNI) de Espanha, desclassificada esta tarde e datada de 29 de julho, confirma que o organismo teve conhecimento, pelo menos 24 horas antes, da possibilidade de um cruzamento migratório por ocasião da Festa do Trono marroquina. O comunicado, desclassificado esta quarta-feira pela Moncloa, alerta os serviços de informações marroquinos DGST e DGED para vários grupos ativos de WhatsApp que estariam “a preparar uma tentativa de entrada (…) na próxima quinta-feira, 30 de julho”.
Pedro Sánchez criticou, também esta quarta-feira, numa entrevista ao programa da televisão pública espanhola (TVE), “Mañaneros 360”, que o CNI espanhol não preveniu de forma eficaz a crise migratória e humanitária que acabou por se registar em território de Ceuta, apesar de a ministra da Defesa defender que o Centro avisou um dia antes da possível crise a Delegação do Governo na cidade autónoma. A nota, assim como outra conversa por WhatsApp também desclassificada, dão razão a Margarita Robles neste último ponto.
“Sem pôr em causa a sua profissionalidade, de facto não se previu de todo uma chegada massiva de tantos migrantes”, afirmou o presidente socialista na entrevista desta quarta-feira, criticada pelo Conselho de Informativos da TVE por ser realizada a partir de um programa de uma produtora externa ao canal público e sem jornalistas da estação.
Sánchez voltou assim a alinhar com o seu ministro da Administração Interna, Fernando Grande-Marlaska, na guerra de comunicação que mantém com Robles. Grande-Marlaska sempre defendeu que não recebeu qualquer comunicação oficial que advertisse sobre um possível cruzamento fronteiriço massivo.
Tanto ele como Sánchez sustentaram sempre, além disso, que Marrocos não teve um papel ativo na crise, apesar de as evidências jornalísticas (os testemunhos dos próprios migrantes sobre a atitude dos guardas marroquinos) e relatórios tanto privados como policiais posteriores apontarem nessa direção. O novo documento do CNI, desclassificado pela Moncloa, confirma que, pelo menos, os serviços de informações do reino alauíta receberam um aviso de Espanha a esse respeito.
Segundo documento policial e duas conversas internas confirmam versão do CNI
O Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF) também alertou, no dia 29 de julho, noutra das comunicações desclassificadas eenviada aos seus postos fronteiriços em Ceuta e Melilha, sobre a possibilidade “alta” de entradas a nado. “Este Centro (…) obteve informação sobre um risco potencial de entradas irregulares nas cidades autónomas de Ceuta e Melilha, previsto para o dia 30 de julho de 2026”.
“Não se pode garantir que isto venha a produzir-se, mas quando se deteta este tipo de atividade nas redes sociais e noutros fóruns, em algumas ocasiões chega a concretizar-se”, adverte o documento, que também aponta para a possibilidade “média” de uma entrada tanto pelas vedações terrestres como pelo mar, bem como “média-baixa” no caso de os organizadores combinarem ambas as opções.
Além disso, outras duas conversas via WhatsApp, desclassificadas, demonstram contactos entre os diferentes aparelhos de segurança do Estado, bem como com a Delegação do governo da cidade autónoma, um cargo alheio à presidência de Ceuta e que, na prática, responde ao executivo central em funções.
Na primeira, desenvolvida entre um funcionário anónimo do CNI e o gabinete da Delegação de Ceuta, alerta-se igualmente para a possibilidade de um salto, tanto pela vedação como pelo mar. A conversa está datada das 13h52 do dia 29 de julho e foi transcrita sem alterações, salvo para facilitar a sua legibilidade.
CNI: Nas redes sociais há um apelo para um assalto pela vedação e pelo mar amanhã às 20h. Aproveitando a Festa do Trono e o facto de as suas forças de segurança estarem ocupadas. Há dois grupos diferentes com um total de 180.000 seguidores, para teres uma ideia do alcance da divulgação.
Delegação: [Chamada telefónica de 11 minutos às 21h34]
A segunda desenrola-se entre o CNI e a Guardia Civil e trata do mesmo assunto:
CNI: [Chamada sem resposta às 13h53]
CNI: [Nome classificado] ligo-te pela situação de Ceuta. Temos informação sobre uma tentativa de entradas a nado e de salto à vedação para amanhã, dia da Festa do Trono. Temos vários grupos no Facebook e no WhatsApp a incentivar essas entradas.
[Chamada perdida às 13h59 da Unidade Central Especial 3 da Guardia Civil]
UCE-3: [Nome classificado] desculpa, todo este assunto apanhou-me fora e não é fácil para mim resolvê-lo. Estes dias está [nome classificado], que esteve uns meses ausente, e também [nome classificado]. Também me podes ligar a mim.
Sánchez defende atuação mas admite falhas perante “ataques híbridos” e nos recursos em Ceuta
Durante a entrevista, o primeiro-ministro espanhol argumentou que a chegada gradual de centenas de pessoas a nado, diariamente, durante a segunda quinzena de julho (“um ligeiro pico”, nas suas palavras) não permitiu antecipar o número final de 80.000 pessoas que chegaram a pisar o enclave afro-europeu após os dias 30 e 31. Para já, desconhece-se a percentagem de migrantes que ainda permanece em Ceuta, mas tanto a cidade, como o governo e a polícia trabalham com uma estimativa entre 5.000 e 10.000 pessoas aproximadamente.
“O que teria feito outro governo? Ter-se-ia posto aos tiros contra essas pessoas jovens, menores, meninos e meninas? Ou não foi mais inteligente permitir que pudessem entrar para posteriormente, em 90%, nas horas seguintes ou nos dias seguintes saírem?”, questionou oSánchez, apresentando dados enganosos tanto sobre a percentagem de pessoas que permanecem no exclave como sobre a rapidez da sua expulsão, seja para Marrocos seja para o resto de Espanha no caso dos menores.
Sánchez admitiu que “o Estado”, sem colocar a responsabilidade no seu próprio executivo, deve preparar-se para possíveis novos episódios desta natureza. “Um é como nos preparamos perante ataques híbridos desta natureza”, afirmou. “Temos, claro, de investir muito mais no controlo e no perímetro da fronteira (…) e ter consciência de que precisamos de infraestruturas de acolhimento”.
Apesar do apoio indireto que Grande-Marlaska recebeu por parte do chefe de governo, este último mostrou-se crítico em relação à lista de jornalistas e comentadores de rádio e televisão, elaborada (e divulgada) a partir do próprio Ministério da Administração Interna. O documento identifica com nome, apelidos e ideologia presumida várias centenas de profissionais da comunicação em Espanha. “Parece-me um documento muito pouco apropriado”, afirmou o líder socialista.
“Fizemos um exercício de striptease”, afirma sobre o financiamento ilegal do PSOE
Na entrevista, com cerca de uma hora de duração, foram também abordados os diferentes casos de corrupção que afetam o círculo pessoal do presidente (a sua mulher, Begoña Gómez, a um passo de ir a julgamento por tráfico de influências, ou o seu irmão, David Sánchez, já condenado por prevaricação), bem como o próprio Partido Socialista e figuras relevantes dentro deste último, como o antigo primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero.
“Claro que vou contar com o José Luis nas campanhas eleitorais”, garantiu o atual chefe de governo. Sánchez defendeu a sua presunção de inocência face aos indícios que se acumulam em torno de quem liderou o governo de Espanha entre 2004 e 2011, relativamente às suas alegadas sociedades ‘offshore’ ou à rede de pagamento de comissões que está a ser investigada pelo juiz Calama.
Sánchez invocou a transparência nas contas da sua formação política depois de terem sido revelados os diferentes casos de corrupção que afetam o PSOE. “Fizemos um exercício de striptease, em que entregámos as faturas, os recibos, desde, creio recordar, o ano 2014 ou o ano 2017. Tudo. E posso garantir que não há financiamento irregular”.
Questionado sobre um hipotético adiamento eleitoral das próximas eleições legislativas, que devem realizar-se antes de julho de 2027, o que será novamente candidato do PSOE negou que pretenda fazê-las coincidir com as municipais e determinadas autonómicas de maio. “Não vai haver superdomingo eleitoral”, rematou.