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Espanha: “La superviviente”, documentário sobre a falsa vítima do 11 de Setembro

11 de setembro de 2026: desaba a primeira torre gémea
11 de setembro de 2026, desabamento da primeira torre gémea Direitos de autor  JIM COLLINS/AP2001
Direitos de autor JIM COLLINS/AP2001
De Jesús Maturana
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Alicia Esteve, cidadã catalã, fez‑se passar durante seis anos por Tania Head, alegada sobrevivente do 11 de Setembro e líder de uma associação de vítimas, até o “The New York Times” revelar a fraude em 2007.

Tania Head dizia ter sido, segundo a sua própria versão, uma das 18 pessoas que sobreviveram no 78.º andar da Torre Sul do World Trade Center, na zona situada acima do ponto onde embateu o segundo avião em 11 de setembro de 2001.

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Relatava que um homem moribundo lhe entregou a aliança para que a devolvesse à viúva, que um voluntário com a roupa em chamas a ajudou a descer pelas escadas e que perdera o noivo, David, na Torre Norte. Com essa história acabou por presidir à Associação de Superviventes do World Trade Center e reunir-se com Rudy Giuliani, então presidente da câmara de Nova Iorque.

Nada disso era verdade. Tania Head era, na realidade, Alicia Esteve, uma jovem de Barcelona que, no dia dos atentados, frequentava um mestrado na cidade e que nunca pôs os pés nas Torres Gémeas.

Também nunca existiu o compromisso com David Scott Suárez, o funcionário da Deloitte que morreu no atentado e com quem dizia estar noiva, nem a família deste nem a empresa para a qual alegadamente trabalhava chegaram a confirmar esse vínculo.

A mentira manteve-se até 2007, quando os jornalistas do “New York Times” David W. Dunlap e Serge F. Kovaleski, guiados pela intuição de que algo não batia certo na sua história, a desmascararam. Pouco depois, começou a circular nos fóruns de sobreviventes a notícia de que Alicia Esteve se teria suicidado, informação que nunca pôde ser confirmada.

Cartaz do documentário de 88 minutos de Kike Maíllo
Cartaz do documentário de 88 minutos de Kike Maíllo Sabado diez

Documentário de Kike Maíllo: “A sobrevivente”

Vinte e cinco anos depois dos atentados, o realizador barcelonês Kike Maíllo, conhecido por “Eva” e por “Toro”, mergulha nesta história com “A sobrevivente”, um documentário que dá continuidade à linha aberta com “Oswald. O falsificador”, o seu trabalho anterior sobre o falsificador de arte Oswald Aulestia.

Como Alicia Esteve não quis participar nem aparecer em público, Maíllo recorre à atriz e humorista Hannah Becker para reconstruir, a partir de fontes diretas como textos e gravações de terapia, aquilo que nunca foi registado nem respondido numa entrevista real.

Para o documentário, Maíllo viaja aos Estados Unidos e entrevista quem conheceu de perto Tania Head: sobreviventes da associação, o antigo presidente que afastou e Sam Kedem, o psicólogo que a tratou como vítima dos atentados sem nunca detetar qualquer incoerência no relato. As opiniões sobre ela estão longe de ser unânimes.

Alguns recordam-na como uma pessoa ávida de protagonismo; outros defendem que, sem a sua dedicação, a associação não teria alcançado nem metade da visibilidade nem dos objetivos que conseguiu e sublinham que nunca retirou dinheiro da fraude.

Trata-se de um documentário de 88 minutos que retrata a mulher catalã que, durante anos, tirou partido de se fazer passar por mais uma vítima.

Porque ninguém a desmascarou antes?

Mais do que localizar o paradeiro atual de Alicia Esteve, o documentário procura perceber como foi possível manter durante seis anos, sem despertar suspeitas, uma identidade e um trauma completamente inventados.

O caso tem paralelos com o de Enric Marco, o catalão que se fez passar por sobrevivente do campo de concentração de Flossenbürg e chegou a presidir à Amical de Mauthausen antes de ser desmascarado (fonte em espanhol). Em ambos os casos, um relato construído com detalhes emotivos ligou-se ao público de uma forma que os testemunhos reais, mais sóbrios, não conseguiam.

A questão que o documentário deixa em aberto não é apenas como é que Alicia Esteve enganou tanta gente, mas que necessidade coletiva permitiu que essa mentira funcionasse durante tanto tempo sem que ninguém, nem sequer um psicólogo, pusesse em causa a sua história.

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