Patti Smith apresenta textos e hinos de Santa Hildegarda de Bingen na inauguração oficial do pavilhão da Santa Sé do Vaticano.
Uma performance de carácter místico na igreja Santa Maria di Nazareth foi apresentada por Patti Smith e os Soundwalk Collective, no âmbito da abertura oficial do Pavilhão da Santa Sé do Vaticano na 61.ª Bienal de Veneza.
O espetáculo, com cerca de meia hora, organizado em colaboração com a Onassis Culture, incluiu três peças criadas especificamente para a ocasião.
Os textos e os hinos interpretados pela consagrada cantautora norte-americana são de Santa Hildegarda de Bingen, monja da Ordem dos Beneditinos do século XII, poeta, curandeira e compositora.
O seu mosteiro situa-se na Alemanha e continua ativo. Trinta freiras seguem a sua doutrina, cantam e tratam dos jardins. Hildegarda de Bingen e a sua obra têm inspirado numerosos compositores, músicos e cantores. É uma das compositoras mais conhecidas de música religiosa monofónica, bem como a mais gravada da história contemporânea.
O evento integrou a exposição do Pavilhão da Santa Sé do Vaticano, intitulada "O ouvido é o olho da alma" (The Ear is the Eye of the Soul).
O conceito desta mostra encaixa perfeitamente na proposta curatorial de Koyo Kouoh para a Bienal deste ano, centrada em abrandar o ritmo e em procurar uma sintonia mais serena.
Por isso, neste pavilhão assume a forma de uma oração sonora. É um convite ao exercício reflexivo da escuta, inspirado na vida e no legado de Santa Hildegarda de Bingen.
A exposição do Pavilhão da Santa Sé é comissariada por Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, em colaboração com os Soundwalk Collective. Está patente em dois espaços em Veneza: o Jardim Secreto dos Carmelitas Descalças, em Cannaregio, e o complexo de Santa Maria Ausiliatrice, em Castello.
Reúne um conjunto de novas obras de 24 artistas, encomendadas para a ocasião. Entre os participantes contam-se Jim Jarmusch, Brian Eno, FKA twigs, Kali Malone e Meredith Monk.
Das obras apresentadas no Pavilhão da Santa Sé, 21 são peças sonoras. No Jardim Secreto, os visitantes são convidados a viver uma experiência de escuta contemplativa. Percorrem o jardim, de grande beleza, com auscultadores, ouvindo as novas criações, reunidas num único percurso sonoro pelos Soundwalk Collective.
Logo após o concerto com Patti Smith, falámos com Stephan Crasneanscki, a alma do coletivo Soundwalk Collective:
"Queríamos criar uma oração sonora como homenagem, para assinalar a inauguração do Pavilhão da Santa Sé dedicada a Hildegarda de Bingen. Concebemos aqui uma exposição sonora, em que se percorre um mosteiro dentro de um jardim. Aqui continuam a existir os remédios e as plantas de Hildegarda. Assim, na capela do mosteiro, quisemos prestar-lhe homenagem e abrir o Pavilhão da Santa Sé. No contexto do pavilhão e da Bienal de Veneza, oferecemos um momento de recolhimento".
"Venho do mundo do som. Trabalho com som há 30 anos. Por isso há um entusiasmo incrível em torno deste pavilhão. É extraordinário, porque o som esteve sempre na sombra. Esteve sempre ao serviço da imagem ou em segundo plano face a outra coisa qualquer. A arte sonora e o próprio som nunca foram verdadeiramente valorizados como merecem. E aqui, de repente, neste jardim, não há nada além do som. E o som permite-nos uma experiência totalmente nova. Não se vê nenhuma obra de arte, nenhum quadro, nada disso, há apenas a natureza, que realmente deixa o som sobressair. Está no seu máximo potencial e o pavilhão é uma verdadeira homenagem ao som", diz entusiasmado.
"A Hildegarda de Bingen centra-se sobretudo na música, no canto e na natureza. E usava para isso a palavra Viriditas. Tem a ver com a ideia de força verde, de vitalidade e de presença, para que o mundo se desdobre diante de nós. Servia-se do canto, da jardinagem e da natureza para nos enraizar, para nos manter presentes", continua.
"E assim, nesta oração sonora que criámos com a Patti Smith, a ideia foi também prolongar esse estado de contemplação e permitir essa abertura do coração"
A Soundwalk Collective é um coletivo internacional de arte sonora experimental, fundado em 2001 por Stephan Crasneanscki, a que se juntou Simone Merli em 2008.
O grupo está sediado em Berlim e Nova Iorque e já colaborou várias vezes com Patti Smith, uma colaboração que tem já quase 15 anos.
"Conhecemo-nos por acaso num avião e achámos que era destino. Desde então, trabalhámos juntos muitas vezes. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar para o Vaticano, telefonei-lhe de imediato e propus-lhe que fizesse esta peça e se juntasse ao grupo de artistas envolvidos", confidenciou.
"E assim, quando chegámos a este jardim e vi esta pequena capela de Santa Maria, no fundo do jardim, liguei à Patti e disse-lhe 'Esta é a tua capela. É aqui que temos de gravar a tua voz e criar a tua peça'. Gravámo-la em Nova Iorque e fizemos uma homenagem à Virgem Maria, em que a Patti se torna a Virgem. Encarnou a figura de Maria como mulher, como mãe"
O que fica para quem visita o pavilhão?
_"_O espírito de Hildegarda. Essa é a nossa ideia e foi nela que se baseou todo o desenho do percurso no Jardim Secreto. É como entrar no tempo e no espaço, no som e na música. Mas o som não tem tempo. O som está sempre aqui. O som do mar já existia muito antes de nós e continuará muito depois de nós. O som não funciona com o nosso tempo. Somos nós que inventamos o tempo; o som não conhece o tempo"
A performance de Patti Smith com os Soundwalk Collective realizou-se na sexta-feira, 8 de maio, na igreja Santa Maria di Nazareth, em Veneza.
A 26 de outubro, haverá oportunidade de os ouvir também em Atenas, onde preparam um projeto especial com Jim Jarmusch, numa produção da Stegi da Fundação Onassis.