Nadezhda Tolokonnikova falou à Euronews sobre as "festas sobre ossos" que decorrem no pavilhão russo e sobre quem deveria, na verdade, representar a Rússia na Bienal de Veneza, tendo-se conectado ao nosso estúdio enquanto tentava aceder ao gabinete do presidente da exposição, Pietrangelo Buttafuoco.
"Arte para exibição, mas por baixo dela jazem sepulturas" e "A arte da Rússia é sangue". Tendo por base estes slogans, reuniram-se, na quarta-feira, para invadir o pavilhão russo na Bienal de Veneza, ativistas do movimento FEMEN, fundado na Ucrânia, e apoiantes da banda punk russa Pussy Riot. A polícia italiana não deixou os manifestantes entrarem no pavilhão, cuja atividade, no entanto, foi interrompida por algum tempo.
Uma das organizadoras da ação de protesto, membro das Pussy Riot, feminista e defensora dos direitos dos reclusos, e que conhece as prisões russas por experiência própria, Nadezhda Tolokonnikova, falou com a Euronews a partir de Veneza.
"Queremos trazer a arte dos artistas presos por motivos políticos"
Euronews: O nome da vossa ação de quarta-feira pode ser traduzido como "Tempestade em Veneza" ou "Assalto a Veneza". O vosso objetivo era mais causar agitação na opinião pública ou perturbar o funcionamento da Bienal e do pavilhão russo?
Nadezhda Tolokonnikova: Viemos com um pedido simples. Queremos falar com o presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco. E este é o escritório da Bienal de Veneza, onde Pietrangelo se reúne, onde se reúne o seu conselho de administração. Tentámos contactá-lo por todos os meios disponíveis. Mas, infelizmente, não obtivemos qualquer resposta. E como Pietrangelo disse muitas vezes que esta Bienal é sobre diálogo, que é contra a censura, decidimos que iríamos tentar a nossa sorte novamente. Mas, apesar de termos sido bloqueados, existem muitos opositores à participação oficial da Rússia na Bienal de Veneza. Mas as ruas estão bloqueadas. Aqui estão os chamados "cosmonautas", como os chamamos, da polícia de choque. E não nos deixam entrar.
Euronews: E a ação de ontem correu bem? Acabaram por ser ouvidos?
Nadezhda Tolokonnikova: A verdadeira vitória será quando a Rússia for oficialmente excluída da Bienal de Veneza e nos derem a oportunidade, enquanto grupo, de atuar como curadores do pavilhão da Rússia. Consideramos que, hoje em dia, a verdadeira face da Rússia são as pessoas que se encontram detidas ilegalmente nas prisões.
Euronews: Vocês propuseram fazer isso na Bienal de 2028, para os artistas que se encontram detidos.
Nadezhda Tolokonnikova: Nós, as Pussy Riot, não gostamos muito de simplesmente boicotar, sem propor quaisquer mecanismos para resolver o problema. A proposta é muito simples: queremos trazer a arte criada por artistas presos por motivos políticos, que se encontram hoje nas prisões russas por se terem manifestado a favor da Ucrânia e contra o regime de Putin. É muito simples. Temos essas obras, temos as biografias desses artistas, temos contacto com os seus familiares, advogados e grupos de apoio. E podemos organizar tudo isto em dois dias. Só precisamos de um pavilhão, precisamos de um diálogo real, e não de uma porta fechada.
Euronews: E quantos são atualmente esses artistas presos na Rússia?
Nadezhda Tolokonnikova: Podemos enviar-lhe o balanço que elaborámos. Neste momento, o balanço conta com mais de 50 pessoas, mas é um trabalho em curso. São várias centenas.
Euronews: Desde que, no início de março, se soube que a Rússia se preparava para regressar à Bienal, pela primeira vez após a invasão em grande escala da Ucrânia, a exposição de arte contemporânea de Veneza tornou-se um tema constante nas notícias. Podemos mencionar as ameaças da Comissão Europeia de lhe retirar o financiamento, o distanciamento do ministro da Cultura e do primeiro-ministro de Itália, bem como a demissão do júri internacional.
"A Rússia na Bienal - uma festa sobre ossos"
Nadezhda Tolokonnikova: Estou grata a todas as pessoas que dão a sua opinião sobre a Bienal de Veneza e sobre a participação da Rússia. Mas, por enquanto, quero dizer que a Rússia está a ganhar. Eles estão agora a dar uma festa sobre ossos. Estão a beber vodka, a distribuir champanhe de graça. Ontem roubaram-nos as balaclavas. E filmaram-nos a dançar ao som das suas balalaicas e a beber vodka com as nossas balaclavas.
Euronews: Ontem decorreu a vossa primeira ação com ativistas do FEMEN. Como surgiu esta ideia?
Nadezhda Tolokonnikova: Há muito que somos amigas da Inna Shevchenko [líder da organização FEMEN] e apoiamos os movimentos umas das outras. Nós, nas Pussy Riot, ficámos muito inspiradas pelo movimento FEMEN, elas são absolutamente fantásticas: mulheres ambiciosas, corajosas e destemidas. E foi fantástico, incrível, realizar uma ação com elas. Confesso abertamente o meu amor pela Inna Shevchenko!
Euronews: Durante a ação conjunta com Inna Shevchenko, vocês cantaram a canção "Não te submetas" [tradução livre]. A quem se destina este apelo?
Nadezhda Tolokonnikova: O apelo é dirigido a todos. Parece-me que nos habituámos a que o espaço de possibilidades seja limitado, e muitos dos nossos governos querem que acreditemos nessa mentira. Mas temos força dentro de nós. Enquanto estivermos unidos, seremos invencíveis. E a canção é precisamente sobre isso.
"Um desfile de absurdos em vez de arte"
Euronews: Na véspera da vossa ação, na terça-feira, a comissária europeia para a Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia enviou uma segunda carta aos organizadores da Bienal. Têm 30 dias para apresentar argumentos que justifiquem a decisão de, afinal, terem aberto o pavilhão da Rússia. Caso contrário, Bruxelas irá retirar-lhes dois milhões em financiamento. Na sua opinião, o comité organizador, onde se encontra neste momento, conseguirá encontrar esses argumentos?
Nadezhda Tolokonnikova: Penso que sim. Ouçam, esta é uma luta muito complexa. Todos os especialistas da Bienal de Veneza nos têm dito até agora que esta é uma tarefa impossível. Mas a nossa missão é tornar o impossível possível. Temos, de facto, muitos aliados neste movimento contra a participação oficial da Rússia: o Parlamento Europeu, o Conselho da Europa e outros irão juntar-se a nós. Por isso, penso que, se não for este ano, em 2028 conseguiremos trazer a arte dos presos políticos para o pavilhão da Rússia, em vez daquele desfile de absurdos que se passa atualmente no pavilhão da Rússia.
Euronews: No comunicado de imprensa, afirma que o presidente da Bienal apoiou "um esquema sofisticado do FSB [Serviço Federal de Segurança da Federação Russa], liderado por Anastasia Karneeva (recorde-se que ela é filha do vice-diretor-geral da corporação 'Rostec', que está sujeito a sanções internacionais) a encontrar uma brecha" que permitiu à Rússia participar na Bienal deste ano.
Nadezhda Tolokonnikova: Tenho um grande pedido a fazer-vos, aos jornalistas, porque nós somos artistas, não somos jornalistas de investigação. Gostaria que algum meio de comunicação de investigação realizasse um trabalho verdadeiramente sério, analisando quais as ligações existentes entre o presidente Buttafuoco e as autoridades russas, bem como a curadora Anastasia Karneeva. Baseio-me no trabalho jornalístico que tem sido realizado. Há algumas semanas, foi publicado um artigo sobre a troca de mensagens entre Buttafuoco e Anastasia Karneeva, que começou há um ano. Buttafuoco diz abertamente: "Vou ajudá-la a contornar as sanções europeias". Ele inventou uma brecha no âmbito da qual eles apresentariam as suas canções e danças de 5 a 8 de maio. Assim, segundo a lei, isso não é um evento aberto ao público. Está aberto apenas a grupos específicos do mundo das artes e a jornalistas. No dia 9 de maio, todo este evento será fechado ao público, mas o que estão a filmar agora será exibido no interior do pavilhão. Tecnicamente, estará fechado, mas as pessoas poderão ver tudo através das janelas.
Euronews: Ou seja, na sua opinião, não se trata de uma vitória total?
Nadezhda Tolokonnikova: Eles estão a usar uma lacuna legal para manter o pavilhão aberto. Ou seja, as pessoas vão ver tudo o que se passa lá dentro, vão poder ver as obras de arte através das janelas do pavilhão. Nesse sentido, estará aberto.
Soubemos mais tarde que o presidente do comité organizador da Bienal de Veneza aceitou uma mensagem escrita dos manifestantes. Aqui está ela.