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Aristides de Sousa Mendes: o homem que não temeu "consequências" para salvar milhares do regime nazi

Aristides de Sousa Mendes
Aristides de Sousa Mendes Direitos de autor  Museu Aristides de Sousa Mendes
Direitos de autor Museu Aristides de Sousa Mendes
De Ema Gil Pires
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Celebrou-se no domingo, dia 19 de julho, o 141.º aniversário do nascimento de Aristides de Sousa Mendes, diplomata português que se estima que tenha salvado mais de 30 mil vidas da perseguição nazi, durante a Segunda Guerra Mundial. Em Portugal, existe um museu dedicado à sua vida e ao seu legado.

Foi "alguém que alterou o curso da História no pior evento da história da Humanidade". É assim que Luís Medeiros, técnico do Museu Aristides de Sousa Mendes, recorda à Euronews aquele que descreve como "uma das maiores figuras da História cultural" do país, pelo papel que desempenhou no salvamento de dezenas de milhares de vidas durante o Holocausto.

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Aristides de Sousa Mendes, diplomata português nascido a 19 de julho de 1885, é um nome incontornável quando se aborda o período da Segunda Guerra Mundial, conflito travado entre 1939 e 1945 que resultou na morte de cerca de 40 milhões de civis.

Muitas destas vítimas, aliás, pereceram em campos de concentração e extermínio instituídos pelo regime nazi, movido por ambições expansionistas que se sustentavam, nomeadamente, numa pretensa "supremacia da raça ariana".

Uma ideologia que levou judeus, mas também indivíduos de outras minorias, a serem perseguidos ao longo de anos pelas autoridades do Terceiro Reich. Segundo as Nações Unidas, aproximadamente seis milhões de judeus e meio milhão de indivíduos ciganos e sinti perderam a vida, em toda a Europa, no contexto do Holocausto.

Como aponta Luís Medeiros, um dos funcionários do museu fundado em Portugal, há dois anos, com vista a "preservar a memória, a coragem e o legado de Aristides de Sousa Mendes", o diplomata é ainda hoje lembrado por ter sido "responsável por um dos maiores salvamentos individuais de refugiados do Holocausto", num ato que abrangeu, aproximadamente, 30 mil vidas.

Estima-se que existam "cerca de 750 mil" descendentes do total de pessoas que Aristides de Sousa Mendes ajudou há mais de oito décadas, fruto de uma iniciativa que lhe custou o emprego e afetou as condições de subsistência da sua família.

A história e o legado de Aristides de Sousa Mendes

"No auge do Holocausto, quando as tropas nazis invadiram França no verão de 1940, Aristides era cônsul na cidade de Bordéus, uma cidade localizada no sul de França", conta Luís Medeiros à Euronews, sobre um território que, "durante algum tempo, ainda continuou livre após a invasão" do referido exército.

Bordéus foi, por esse motivo, "uma cidade onde se concentraram milhares de pessoas que estavam em fuga", vindas de diferentes pontos da Europa, tentando "escapar ao regime" ditatorial liderado por Adolf Hitler. E que se tornou, consequentemente, "palco de uma tragédia massificada" e de um "desespero coletivo, que Aristides também testemunha".

Perante "o que estava a acontecer nas ruas da cidade", o diplomata português acaba por decidir fazer "aquilo que a sua consciência lhe ditava". E isso passou, refere o técnico do Museu Aristides de Sousa Mendes, por "ir contra a ordem superior de Salazar", chefe do governo ditatorial português que, nesse tempo, optou por uma postura de neutralidade durante o conflito, mantendo as relações comerciais com ambas as partes envolvidas.

É que, por essa altura, o então Presidente do Conselho "já tinha emitido a famosa Circular n.º 14, que proibia todos os postos consulares da emissão de vistos sem a autorização expressa do Ministério". Mas o cônsul desrespeitou a diretiva de António de Oliveira Salazar. Decidiu "fazer o que era correto e permitir a essas pessoas os tais vistos de trânsito para atravessarem a fronteira franco-espanhola e espanhola-portuguesa, para chegarem à liberdade".

Algo que só foi possível, aponta ainda Luís Medeiros, com a "ajuda de outras pessoas, porque [Aristides] não trabalhava sozinho". A apoiar esta sua iniciativa, o diplomata "tinha os funcionários consulares", bem como "os seus filhos". Mas, perante todos os factos documentados, é possível elevá-lo ao estatuto de "autor de consciência moral deste salvamento".

Uma decisão com consequências "graves"

No entanto, a iniciativa do cônsul não foi bem acolhida pelas mais altas entidades portuguesas. "As consequências foram as mais graves. Aristides foi alvo de um processo disciplinar quando as autoridades portuguesas e, neste caso, o [regime do] Estado Novo, descobriram a sua ação. Ao ir contra ordens superiores, é alvo de um processo que o destitui das suas funções de imediato", sublinha Luís Medeiros.

Além disso, é-lhe também retirado "gradualmente o seu salário", fazendo com que "aquilo que era a vida de uma família com um estatuto socioeconómico acima da norma para a época" se transformasse numa situação de "completo declínio económico".

De facto, "não só Aristides sofreu com esse castigo", lembra o técnico do museu fundado em sua homenagem. "Toda a família Sousa Mendes é colocada numa espécie de lista negra da PIDE", a polícia política do regime ditatorial instituído em Portugal, "e, portanto, é completamente posta de parte e ostracizada, não conseguindo sequer arranjar trabalho. Eram 'pessoas não gratas' para o regime salazarista."

Fotografia de Aristides com a família, atualmente exposta na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato
Fotografia de Aristides com a família, atualmente exposta na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato Museu Aristides de Sousa Mendes

"Durante 14 anos Aristides ainda vive neste declínio", acabando mesmo "por falecer na miséria, por não ter meios de suportar nem uma casa, nem uma família com 15 filhos". E mesmo depois do seu óbito, prossegue Luís Medeiros, foi necessário todo um "processo de requalificação do nome de Aristides, que demorou muitos anos em Portugal", até que a importância dos seus feitos fosse devidamente reconhecida.

Percurso esse que culminou "em 2021, quando efetivamente lhe são concedidas as maiores honras da nação", tendo-se concretizado a sua transferência para o Panteão Nacional, enquanto um dos "ilustres que ajudam a construir a nossa identidade enquanto povo" ou, por outras palavras, um dos "portugueses maiores".

E, apesar de todo o caminho que tem sido feito ao longo das décadas, no sentido de uma maior consideração pelas ações deste diplomata português, o museu que o homenageia considera que existe ainda "uma falha enorme no que toca ao currículo de História no sistema de ensino" nacional.

"Achamos inconcebível que, quando alunos do 9.º e 12.º ano abordam a Segunda Guerra Mundial e falam desse evento [...], não se fale do nome de um português que foi tão relevante para o bem durante um período tão negro da História. Portanto, estamos em conversações [com o Ministério da Educação e com a própria Direção-Geral da Educação] para que se torne obrigatório lecionar o nome de Aristides, e tudo aquilo que fez, nesse currículo", assegura Luís Medeiros.

"Schindler tem a dimensão que tem porque teve um argumento de Hollywood"

O nome de Aristides de Sousa Mendes é, muitas vezes, equiparado ao de Oskar Schindler: cidadão alemão que ficou conhecido por ter salvado várias centenas de judeus dos campos de concentração nazis durante a Segunda Guerra Mundial, ao empregá-los na fábrica de esmalte industrial que dirigia em Cracóvia, na Polónia. O industrial terá ainda subornado e coagido oficiais das SS, braço armado da ditadura totalitária, de modo a garantir a segurança dos seus funcionários.

No entanto, assegura Luís Medeiros à Euronews, Schindler só "tem a dimensão que tem porque teve um argumento de Hollywood", adquirindo, consequentemente, uma visibilidade "internacional". De facto, "Aristides não teve esse argumento de Hollywood ainda, mas a dimensão do seu salvamento foi muito maior do que a de Schindler", no que diz respeito ao "número" de vidas que conseguiu que fossem poupadas.

É que se Schindler ficou conhecido por ter livrado cerca de 1.200 judeus da deportação para complexos como o de Auschwitz-Birkenau, um local onde mais de um milhão de pessoas perderam a vida, as estimativas apontam para que Aristides de Sousa Mendes tenha conseguido livrar mais de 30 mil vidas da perseguição nazi, em 1940.

Consequentemente, os dados apontam para que "essas pessoas salvas se tenham multiplicado", com o número dos seus descendentes a poder ascender a "cerca de 750 mil", sublinha Luís Medeiros, com base em cálculos aproximados.

Mas além deste cônsul, outros nomes portugueses merecem ser recordados por, tal como ele, não terem receado eventuais consequências pessoais e profissionais, contribuindo, dessa forma, para a manutenção de muitas vidas humanas. É o caso de Carlos Sampaio Garrido e Alberto Teixeira Branquinho, igualmente diplomatas, do padre Joaquim Carreira, mas também de José Brito Mendes, um cidadão luso-francês.

Estes foram, de facto, "outros portugueses com funções no estrangeiro" que "fizeram a diferença, durante esse período, no salvamento ou na proteção de refugiados da Segunda Guerra", embora as suas ações não tenham alcançado "a dimensão" das de Aristides, recorda Luís Medeiros.

Um museu que pretende lembrar "o exemplo" do cônsul

Com o intuito de não deixar cair a história e o legado de Aristides de Sousa Mendes no esquecimento, o município português de Carregal do Sal abriu as portas, há dois anos, ao museu que recebeu o nome do diplomata e está instalado na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, "que foi de Aristides durante 45 anos".

Um espaço cultural que foi inaugurado propositadamente a 19 de julho de 2024, com vista a coincidir com o 139.º aniversário do nascimento do diplomata.

Casa do Passal, em Cabanas de Viriato
Casa do Passal, em Cabanas de Viriato Museu Aristides de Sousa Mendes

Este conta com "um percurso expositivo de nove salas", ao longo das quais é retratado, em particular, "o lado mais pessoal de Aristides", permitindo recordar que "há um homem por trás do herói". Dessa forma, é descrita "a vida de Aristides antes e depois" do marcante ano de 1940, bem como a de "uma família que acaba por perder tudo por causa dessa decisão, em consciência, que ele tomou", explica Luís Medeiros à Euronews.

Desde a sua inauguração, no verão de 2024, o Museu Aristides de Sousa Mendes recebeu um total de 54 mil pessoas, seis mil das quais eram alunos "de escolas de norte a sul" do país, que fizeram a visita no âmbito dos seus projetos educativos, detalha ainda o técnico do museu.

E precisamente dois anos depois da sua inauguração — e à semelhança do que tinha ocorrido em 2025 —, o Museu Aristides de Sousa Mendes foi palco, no domingo, de uma cerimónia comemorativa, no âmbito da qual o principal "destaque", sublinha Luís Medeiros, passou pela inauguração do Centro de Documentação Doutora Maria Barroso, no último piso da Casa do Passal. Em causa está um espaço que passa a estar "aberto ao público para pesquisadores, investigadores e leitores".

Já o nome escolhido foi uma homenagem à ex-primeira-dama portuguesa Maria Barroso, esposa de Mário Soares, que foi tanto primeiro-ministro como Presidente da República. Segundo recorda Luís Medeiros, Maria Barroso foi uma "figura que, no seu tempo, agarrou esta causa com muito afinco, que chegou a fazer parte dos quadros da Fundação Aristides de Sousa Mendes e que, efetivamente, é incontornável nesta luta de anos para o reconhecimento deste nome".

Maria Barroso chegou a desempenhar as funções de presidente da referida fundação, criada em 2000. Foi também sua iniciativa, entre outras tantas, a condecoração de Sousa Mendes, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, atribuída em 1995 pelo então chefe de Estado, Mário Soares.

Museu pretende também estabelecer "paralelos" com o presente

Porém, acrescenta o técnico do referido espaço cultural, "o percurso expositivo" vai também, ao longo das nove salas do museu, "convergindo para o presente", numa narrativa que pretende estabelecer "paralelos" entre o passado e a contemporaneidade.

"Estabelecemos sempre essa comparação para que percebamos que a História é cíclica, que a Humanidade pouco aprendeu e que temos mesmo de tentar lutar, todos, para evitar que outro cenário idêntico aconteça", menciona, referindo-se ao período negro do Holocausto.

As histórias de algumas das famílias que escaparam ao regime nazi graças a Aristides estão em destaque na Casa do Passal
As histórias de algumas das famílias que escaparam ao regime nazi graças a Aristides estão em destaque na Casa do Passal Museu Aristides de Sousa Mendes

Uma "missão obrigatória" que se pretende cumprir neste museu, pelo facto de, na ótica de Luís Medeiros, ser "importante lembrar este exemplo [de Aristides de Sousa Mendes] no estado atual do mundo". Isto porque, considera ainda, estamos hoje perante "uma sociedade cada vez mais afastada dos valores humanos que nos deviam reger" e a assistir a um contexto "em que não olhamos para o outro como igual a nós próprios, que foi isso que Aristides fez".

Hoje em dia, remata, "olhamos para aqueles que são mais vulneráveis e tentamos, novamente, culpá-los pelos males da sociedade, que é o discurso que ouvimos hoje em dia. Tal como foi esse o discurso que levou à instauração desse regime autoritário que matou 40 milhões de pessoas", continua, fazendo referência à ditadura nazi.

Uma realidade que importa não esquecer, em particular, "numa altura em que o mundo olha para muitos fluxos migratórios, para uma quantidade exacerbada de refugiados, que não resultam apenas de conflitos armados". Mas sim de uma "série de acontecimentos", de natureza diversa, "que fazem com que muitas pessoas se desloquem, à procura de lugares onde estejam em segurança, que era o que os refugiados da Segunda Guerra Mundial procuravam" também, acrescenta Luís Medeiros.

Sublinha ainda que os atos do então cônsul português em Bordéus permitem recordar que "todos podemos fazer a diferença na sociedade", em particular diante daqueles que "procuram apenas um lugar para viver em paz, que é aquilo que nós tomamos como garantido todos os dias".

Aristides foi, por isso, um "exemplo daquilo que é ser humano e de estender a mão a quem precisa", conclui o técnico do museu. Bem como alguém que deixou a sua marca na História pela sua "escolha de consciência", em prol do "bem".

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