As emissões provenientes de turfeiras secas são um problema grave na região central da Irlanda. O projeto Peatlands for Prosperity está a ser pioneiro na paludicultura, transformando terras produtoras de carbono numa fonte sustentável de oportunidades económicas.
A região central da Irlanda é uma região definida por contradições. Geograficamente, é o coração da ilha: uma paisagem diversificada de lagos, rios e vastas turfeiras. Demograficamente, é uma das regiões mais jovens e de crescimento mais rápido do país, com quase 50% da sua população com menos de 35 anos. No entanto, do ponto de vista económico, enfrenta uma crise profunda. Durante gerações, a economia local baseou-se na extração de turfa para combustível — uma prática que produz uma quantidade significativa de emissões de CO₂.
Agora, um projeto europeu pioneiro, Peatlands for Prosperity, está a tentar ajudar a região a transitar de um passado fortemente dependente do carbono para um futuro sustentável. O desafio não é apenas ambiental; trata-se de uma luta para assegurar uma linha de sobrevivência económica para uma população rural que não pode dar-se ao luxo de ficar para trás.
As turfeiras cobrem mais de um quinto da superfície terrestre da Irlanda. Durante séculos, estas terras foram drenadas para facilitar a extração de turfa e a agricultura convencional. Douglas McMillan, diretor-geral da Green Restoration Ireland, explica o custo invisível deste legado: "A turfa é praticamente todo carbono. Uma turfeira saudável é composta por 98% de água, pelo que, para realizar qualquer atividade, é necessário drená-la e reduzir a humidade para 80–85%. Mas, naturalmente, ao drená-la, expõe-se essa turfa ao oxigénio, o que origina emissões muito elevadas para a atmosfera. Podem libertar-se até 30 toneladas de CO₂ por hectare por ano."
A solução proposta pelo projeto é a "paludicultura", ou seja, a prática agrícola em solos húmidos. Ao elevar o nível freático para entre 10 e 40 cm da superfície, a oxidação cessa e a terra passa de fonte de carbono a sumidouro de carbono.
A iniciativa Peatlands for Prosperity não é um exercício teórico; está a ser testada no terreno em dois locais distintos no Condado de Offaly, cada um com uma função específica.
O primeiro é o Showroom de Paludicultura, situado na exploração agrícola de Donie Regan, em Shinrone. Funcionando como o centro de investigação e desenvolvimento do projeto, este local centra-se em ensaios de culturas de elevado valor em pequena escala. Aqui, os investigadores estão a testar a viabilidade de bagas — nomeadamente mirtilos, arandos e arónia — bem como de plantas medicinais, como o samouco-do-brabante, e de culturas industriais, como o musgo Sphagnum.
O segundo local é a Landscape Farm de Adrian Egan, em Ballinahown. Trata-se de um laboratório prático concebido para demonstrar a escalabilidade comercial. Uma vez que o Peatlands for Prosperity funciona sobretudo como um recurso vital para os agricultores locais que estão a realizar a transição ecológica. Adrian organiza um workshop mensal para partilhar os resultados dos ensaios e disponibilizar aos participantes os meios necessários para criarem os seus novos negócios. Ou, como ele próprio afirma: "O Peatlands for Prosperity consiste, basicamente, em ensinar às pessoas que existem inúmeras formas de produzir produtos a partir das turfeiras, assegurando simultaneamente a biodiversidade e produzindo algo que pode ser utilizado na economia."
Um dos participantes, Peadar O’Laughlin, já encontrou uma forma de aplicar aquilo que acabou de aprender: "A partir da sessão de hoje, tenho estado a ponderar, por exemplo, o cultivo de juncos, uma cultura que poderia ser utilizada por colmadores. Irei certamente ler a documentação que recebemos hoje e ponderar outras plantas também", afirma.
O orçamento do projeto, no valor de 300 000 €, foi cofinanciado pela UE e pelo Governo irlandês através do Programa do Fundo para uma Transição Justa da UE, um instrumento da Política de Coesão Europeia que, até à data, já apoiou mais de 170 projetos em toda a região alargada do Midlands.
Gerido pela Assembleia Regional do Leste e do Midlands (EMRA), este financiamento não constitui uma diretiva de cima para baixo proveniente de Bruxelas, mas sim uma estratégia "bottom-up" que envolve as autoridades locais de Laois, Longford, Offaly e Westmeath. Como observa Clare Bannon, diretora interina da EMRA: "Existem múltiplos projetos que estão a avançar em paralelo com este. Estamos a tentar lançar as sementes para que a sustentabilidade destas comunidades esteja assegurada no futuro e para que tenham um futuro aqui, na região central da Irlanda."
Agora, o desafio consiste em tornar possível uma transição justa, transformando os desafios climáticos em oportunidades de crescimento e prosperidade.