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Europa enfrenta ameaça crescente de guerra maciça com drones

Drone na guerra entre Rússia e Ucrânia
Drone na guerra entre a Rússia e a Ucrânia Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved.
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De Leticia Batista Cabanas & Elisabeth Heinz
Publicado a Últimas notícias
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França anunciou um investimento de 8,5 mil milhões de euros para aumentar em 400% os stocks de drones e mísseis até 2030, somando-se aos 10 mil milhões da Alemanha em drones militares e à recente revolução dos drones da Polónia.

As guerras modernas consomem drones a um ritmo muito superior ao do armamento tradicional. A Ucrânia emprega cerca de 9 000 drones por dia, o que equivale a aproximadamente 270 000 aparelhos por mês. Estimativas indicam que o Irão consegue produzir cerca de 400 drones Shahed por dia para uma capacidade mensal que pode chegar às 12 000 unidades.

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Esta rotatividade está a empurrar a União Europeia para uma produção industrial em grande escala, já que as reservas existentes de drones e a fabricação manual não conseguem acompanhar as perdas no campo de batalha.

A incapacidade do bloco de aumentar a produção está a criar uma dependência estratégica de fornecedores externos, como os Estados Unidos ou a China, deixando as suas fronteiras vulneráveis a formas de guerra descartáveis e “baratas” que o ritmo industrial atual não consegue sustentar.

Para contrariar esta vulnerabilidade, a UE lançou a Iniciativa Europeia de Defesa contra Drones 2026 (EDDI, na sigla em inglês), que pretende criar até 2027 um escudo em várias camadas, de 360 graus, composto por sistemas interoperáveis de defesa anti-drone.

A EDDI é complementada pela Aliança de Drones com a Ucrânia, que aproveita a experiência testada em combate para coproduzir milhões de veículos aéreos não tripulados (UAV).

Importância estratégica máxima

Os drones passaram de ferramentas de nicho a instrumentos centrais de guerra graças a três vantagens: baixo custo, vigilância permanente e capacidade de ataque de precisão.

Na invasão russa da Ucrânia, ambos os lados dependem de drones para reconhecimento e designação de alvos. Quadricópteros comerciais, que podem custar apenas algumas centenas de euros, detetam posições inimigas e guiam a artilharia em tempo real. Isso reduz o intervalo entre deteção e destruição de horas para minutos. Sistemas maiores, como o Bayraktar TB2, da Turquia, foram usados para destruir comboios de abastecimento e sistemas de defesa aérea no início do conflito, definindo um novo padrão internacional de guerra.

“Os drones evoluem tecnologicamente a cada três a seis meses. Por isso, também é difícil comprar milhões de drones que estarão obsoletos daqui a 12 meses”, afirmou Nikolaus Lang, diretor global do BCG Henderson Institute.

Os drones são baratos de produzir, mas caros de neutralizar. Nas guerras tradicionais, destruir um alvo exigia aeronaves ou mísseis dispendiosos, até que a Ucrânia mostrou que, hoje, um simples drone “suicida” pode destruir equipamento avaliado em milhões.

A Rússia utilizou numerosos drones iranianos Shahed, cada um relativamente barato, para atacar infraestruturas ucranianas. Mas defendê-las exige mísseis de defesa aérea ou aviões de combate muito caros, o que cria um desequilíbrio estratégico em que o defensor gasta muito mais do que o atacante.

“A Europa precisa de soluções mais baratas e rápidas”, afirmou Jamie Shea, antigo responsável da NATO, investigador sénior na organização Friends of Europe e conselheiro principal no Centro de Política Europeia, em Bruxelas. “A UE usa meios muito caros para neutralizar drones. Viu-se no Irão, onde mísseis de 3 milhões de dólares são usados para abater drones que custam apenas alguns milhares”, acrescentou.

Investimento europeu em drones na última década

Analistas militares do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais descrevem os drones como uma das mudanças económicas mais disruptivas na guerra das últimas décadas.

Os drones também democratizam o poder aéreo. Em conflitos anteriores, só os exércitos tecnologicamente mais avançados dominavam o espaço aéreo, mas isso mudou durante a guerra de Nagorno-Karabakh, quando as forças azeris utilizaram drones para destruir sistematicamente tanques e peças de artilharia arménios.

Na Faixa de Gaza, tanto forças estatais como atores não estatais recorrem a drones comerciais modificados para vigilância e ataques. Mesmo grupos relativamente pequenos ou mal equipados conseguem agora realizar operações aéreas, o que baixa a fasquia para o uso eficaz da força militar.

Europa fica para trás

No caso da Europa, a urgência resulta de ameaças externas e fragilidades internas. Os incidentes com drones nas proximidades de infraestruturas críticas quadruplicaram entre 2024 e 2025. Em setembro, Copenhaga e Oslo encerraram aeroportos depois de “vários grandes drones” provocarem 109 cancelamentos e 51 desvios de voos. Um mês depois, o aeroporto de Munique fechou duas vezes em 24 horas pelo mesmo motivo.

A preocupação estratégica é que a UE ainda não está organizada para um campo de batalha – ou ambiente de segurança – saturado de drones. Incidentes recentes obrigaram a respostas dispendiosas: em setembro de 2025, por exemplo, cerca de 20 drones russos entraram no espaço aéreo polaco, levando a NATO a destacar caças F-35 para neutralizar a ameaça, numa operação que terá custado pelo menos 1,2 milhões de euros.

Para evitar situações deste tipo, Shea defendeu que a UE deve desenvolver tecnologia avançada de sensores, incluindo um sistema de deteção de 360 graus capaz de abater drones hostis.

Aumentar a produção

A UE satisfaz menos de 30% das suas próprias necessidades de drones militares. Em comparação, a China e a Ucrânia produzem milhões de unidades por ano, enquanto os Estados Unidos estão a aumentar a produção para centenas de milhares.

Para responder a este défice, a Comissão lançou um impulso industrial para reformular de raiz o desenho, a produção e a utilização de drones. O objetivo é a escala: ciclos de produção mais rápidos, volumes mais elevados e custos mais baixos, porque a guerra moderna com drones assenta menos na sofisticação e mais numa produção em massa rápida e adaptável.

Os tradicionais processos europeus de aquisição de defesa são lentos, demorando frequentemente anos entre o conceito e a entrada em serviço. Esta nova abordagem procura encurtar prazos através de designs modulares, testes acelerados e atualizações contínuas, permitindo adaptar rapidamente os drones. Por isso, a Comissão apresentou o AGILE (financiamento acelerado), o Esquema de Inovação em Defesa da UE e o programa BraveTech EU.

Distribuição percentual estimada dos investimentos da UE em drones

A produção de baixo custo é outro pilar, com iniciativas centradas na acessibilidade, na escalabilidade e no fabrico de dupla utilização civil e militar. A UE está a envolver indústrias civis (como a automóvel e a eletrónica) e PME, mais ágeis do que os grandes contratantes e melhor posicionadas para a prototipagem rápida e a inovação. Instrumentos de financiamento apoiarão esforços em todos os Estados-membros.

A Europa aumentou de forma significativa o investimento em investigação e desenvolvimento na área da defesa, mas continua a não ser suficiente, segundo Lang. “Os Estados Unidos investiram mais de 900 mil milhões de dólares; a Europa, no total, apenas 450 mil milhões”, apontou.

A UE contará também com a Aliança de Drones com a Ucrânia, uma parceria militar multinacional criada em 2024 para garantir o abastecimento de UAV ucranianos através de entregas constantes de drones adaptados às necessidades das frentes de combate.

A Aliança permitiu à UE criar uma rede de fábricas de drones de conceção ucraniana em território europeu. Assim, as empresas europeias podem contornar a burocracia tradicional e testar novos protótipos na linha da frente em semanas, em vez de anos.

A Aliança é reforçada por milhares de milhões de euros provenientes de ativos russos congelados, especificamente destinados a aumentar a produção de sistemas autónomos de baixo custo. Esta colaboração pretende fornecer mais de dois milhões de drones por ano até 2030.

Estas iniciativas deverão reduzir a dependência de fornecedores não europeus, a par dos esforços para garantir cadeias de abastecimento de componentes críticos para drones (como semicondutores, sensores e sistemas de comunicação) dentro das fronteiras da UE e entre parceiros de confiança.

Uma ferramenta chave será o rótulo previsto de “drone de confiança da UE”, que irá certificar sistemas que cumpram padrões de segurança e fiabilidade. É concebido para orientar decisões de aquisição, incentivar o recurso a tecnologias produzidas na Europa e, em última análise, criar um ecossistema de drones mais autónomo e resiliente.

Política da UE cruza-se com drones militares

As violações do espaço aéreo da NATO pela Rússia (37 vezes desde 2022) e a guerra no Irão levaram a UE a começar a redefinir a sua estratégia de defesa, passando de uma abordagem centrada na regulação civil dos drones para medidas de segurança e iniciativas de financiamento.

O Plano de Ação da Comissão para 2026 sobre segurança de drones e contra-drones aborda o uso destes aparelhos em conflitos que visam infraestruturas críticas, fronteiras e espaço aéreo. Foca-se na capacidade de deteção em tempo real da UE e no desenvolvimento de uma resposta de defesa unificada contra operações maliciosas.

O plano reforça, ainda, a cooperação industrial e os mercados de drones dos Estados-membros para reduzir a dependência de fornecedores de fora da UE. Investir nas pequenas empresas de nicho, onde reside a inovação, é essencial. “A Europa precisa de assumir mais risco, ampliar o nosso mercado de capital de risco e simplificar os entraves regulamentares nas compras públicas”, defendeu Shea.

A folha de rota assenta em quatro prioridades: reforçar a resiliência através do aumento industrial, melhorar a deteção de ameaças com uma vigilância mais robusta, responder e defender com uma estratégia coordenada e reforçar o grau de prontidão da defesa europeia.

Produção anual estimada de drones (UE versus Rússia)

Detetar e seguir ameaças exige uma infraestrutura tecnológica avançada, apoiada em inteligência artificial. A Comissão prevê acelerar o desenvolvimento tecnológico recorrendo a redes 5G para melhorar a deteção de ameaças em tempo real.

O plano de ação é sólido porque “identifica o problema e mobiliza recursos”, afirmou Shea. Ainda assim, a UE precisa de aprender com a estratégia de drones da Ucrânia: “A Ucrânia está a fazer 50% do trabalho por nós. Está a desenvolver a inteligência e a oferecer-se para partilhar dados sensíveis. E está também a mostrar à Europa como a inteligência artificial deve ser integrada na tecnologia de combate a drones”.

A EDDI é uma peça central do plano de ação e funciona como escudo para o espaço aéreo do bloco. Através do seu sistema multilayer interoperável, a iniciativa deteta, segue e defende a UE de ameaças híbridas e incursões de drones.

Assente em tecnologias de deteção e sistemas anti-drone suportados por IA, a EDDI apoia a Eastern Flank Watch, também integrada na Folha de Rota para a Prontidão de Defesa 2030 da Comissão. Trata-se de uma iniciativa UE–NATO para proteger a fronteira da União com a Rússia e a Bielorrússia, recorrendo a tecnologias especializadas de combate a drones e reforçando a defesa aérea, a vigilância e a resposta rápida a ameaças, ao mesmo tempo que melhora a cooperação com operações da NATO, como a Eastern Sentry e a Baltic Air Policing.

Segurança e defesa mantêm-se nacionais

Apesar da UE estar a orientar-se para equipamento militar escalável, em rede, apoiado por IA e produzido em massa, a defesa e a segurança continuam a ser competências nacionais, o que significa que os Estados-membros mantêm prioridades e orçamentos de defesa próprios. Práticas de aquisição fragmentadas, diferentes abordagens à proteção de infraestruturas críticas e regras divergentes que regulam os sistemas de drones e contra-drones dificultam a nova estratégia de defesa europeia.

Shea alertou que a Europa deve criar um quadro jurídico comum para que todos os Estados-membros possam desenvolver e testar tecnologia de drones em condições equivalentes.

“Os Estados europeus têm de monitorizar permanentemente o mesmo espaço aéreo, de forma a que alguém em França esteja a ver a mesma imagem do céu que alguém na Polónia ou na Estónia”, sublinhou.

Outro problema são os investimentos nacionais fragmentados em inovação na área dos drones. “Alguns países, como a Dinamarca ou a Alemanha, têm sido muito mais proativos do que outros, nomeadamente na criação de joint ventures com fabricantes ucranianos”, referiu Shea.

Da mesma forma, 80% das aquisições de defesa na UE fazem-se a nível nacional. “Precisamos de muitas mais iniciativas deste tipo para ultrapassar a fragmentação das compras de defesa”, advertiu Lang.

Segundo Shea, a UE deve também eliminar obstáculos burocráticos para permitir a partilha de informação sensível, como dados sobre ameaças de drones e monitorização do espaço aéreo, entre Estados-membros.

“Os drones estão a tornar-se mais rápidos e a partilha de informação é fundamental, mas a UE tem de garantir protocolos de segurança fiáveis para incentivar os países a partilhar dados”.

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