O regresso da Rússia à Bienal de Veneza conduz a uma redução do financiamento da UE e desencadeia um debate sobre o papel da arte numa era de conflito internacional.
A União Europeia vai cortar uma subvenção de 2 milhões de euros à Bienal de Veneza devido à participação da Rússia na 61ª exposição de arte contemporânea, que será inaugurada a 9 de maio**.**
A Comissão Europeia anunciou esta decisão na quinta-feira, acrescentando que a Fundação da Bienal foi notificada do corte de financiamento para os próximos três anos e tem agora 30 dias para justificar a sua decisão de permitir a participação da Rússia pela primeira vez desde que invadiu a Ucrânia em 2022.
O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Renier, recordou que Bruxelas já tinha anunciado anteriormente a sua intenção de tomar essa medida:
"Condenamos veementemente o facto da Fondazione La Biennale ter permitido a reabertura do pavilhão russo", afirmou Renier.
Os organizadores sublinharam:
"A Bienal de Veneza rejeita qualquer forma de exclusão ou de censura da cultura e da arte. A Bienal, tal como a cidade de Veneza, continua a ser um espaço de diálogo, abertura e liberdade artística, com a esperança de acabar com os conflitos e o sofrimento".
Princípios da Bienal
A Bienal de Veneza é a mais antiga, e uma das mais importantes exposições de arte do mundo. É composta por uma exposição principal e por pavilhões nacionais comissariados pelos países participantes. Este ano, 99 nações apresentarão os seus pavilhões, 29 dos quais nos Giardini e os restantes no Arsenale e nos arredores da cidade.
A Bienal já rejeitou, anteriormente, pedidos de exclusão de países individuais, incluindo do Irão e de Israel.
A decisão da União Europeia de cortar a sua subvenção plurianual à Bienal de Veneza foi uma das intervenções mais significativas de Bruxelas na esfera cultural nos últimos anos. Para a UE, a medida faz parte de uma linha política mais ampla em relação a Moscovo. Já para a Bienal, é uma questão de cumprir as suas próprias regras e obrigações legais.
Porque é que o regresso da Rússia se tornou um ponto de discórdia
A Rússia não participa na Bienal desde 2019. Em 2022, os artistas designados retiraram-se em protesto contra a guerra na Ucrânia. Em 2024, a Rússia não apresentou uma exposição, cedendo temporariamente o seu pavilhão à Bolívia.
No entanto, o pavilhão nos Jardins Giardini é propriedade russa desde 1914. De acordo com os estatutos da Bienal, qualquer país reconhecido pela República Italiana tem o direito de se candidatar a participar. Os proprietários dos pavilhões nacionais apenas têm de notificar a organização da sua intenção.
É este aspeto jurídico que se tornou fundamental: a Bienal não tem o poder de proibir a participação de Estados, mesmo que o contexto político seja criticado.
Abordagem da UE: a cultura como parte da responsabilidade política
Para Bruxelas, a participação da Rússia na maior exposição de arte do mundo é vista como uma tentativa de Moscovo de restaurar a legitimidade cultural no contexto da guerra em curso.
Os cortes nas subvenções são um instrumento que a UE está a utilizar para demonstrar a sua posição: as plataformas culturais que recebem financiamento europeu devem ter em conta o contexto político e os valores da União.
Esta medida reflete uma tendência mais ampla: a cultura é cada vez mais vista como um elemento de política externa e de solidariedade internacional.
Implicações para a Bienal e para a política cultural europeia
A decisão da UE pode ter consequências a longo prazo para a Bienal de Veneza, afetando vários níveis das suas atividades. A redução da subvenção afetará inevitavelmente os programas educativos, as iniciativas de investigação e os projetos de infraestruturas, que são tradicionalmente financiados com fundos europeus.
Ao mesmo tempo, a Bienal encontra-se numa posição política difícil: tem de equilibrar a pressão dos Estados e os seus próprios princípios de autonomia, que a organização tem defendido sistematicamente ao longo de décadas.
A participação de 99 países na Bienal de Veneza é um precedente que pode afetar outros espaços culturais na Europa, uma vez que os doadores e as entidades políticas podem começar a fazer exigências semelhantes, associando o financiamento a decisões políticas.
No entanto, a participação de 99 países este ano demonstra que a Bienal mantém o seu estatuto de maior plataforma internacional de arte contemporânea e continua a ser um espaço importante para o diálogo cultural global.
O conflito em torno do pavilhão russo demonstra uma divergência fundamental entre duas abordagens:
- A UE vê a cultura como parte da responsabilidade política e da política de sanções.
- A Bienal adota o modelo clássico de autonomia cultural, segundo o qual a arte deve ser protegida das interferências políticas.
Esta disputa vai para além de um único pavilhão. Levanta a questão de saber se uma organização cultural internacional pode permanecer neutra, face a conflitos globais e onde se situa a fronteira entre liberdade artística e responsabilidade política.