Na continuação da atual controvérsia diplomática, Zelenskyy criticou publicamente Israel na terça-feira pelo facto de o país estar a considerar a compra de cereais ucranianos roubados pela Rússia em territórios temporariamente ocupados no sul da Ucrânia.
O escândalo diplomático entre a Ucrânia e Israel por causa do carregamento de cereais ucranianos alegadamente roubados que estão a ser vendidos pela Rússia agravou-se na terça-feira, com o presidente Volodymyr Zelenskyy a criticar o que considerou ser um negócio ilegítimo.
"Em qualquer país normal, a compra de bens roubados é um ato que implica responsabilidade legal", afirmou Volodymyr Zelenskyy numa publicação no X, no dia seguinte a uma acesa troca de impressões pública entre os ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e de Israel.
"Outro navio que transportava esses cereais chegou a um porto em Israel e prepara-se para descarregar. Isto não é - e não pode ser - um negócio legítimo", disse Zelenskyy no X.
O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Sa'ar, afirmou na segunda-feira que "ainda não foram apresentadas provas que fundamentem as alegações", insistindo que Kiev "nem sequer apresentou um pedido de assistência jurídica antes de recorrer aos meios de comunicação social e às redes sociais".
Zelenskyy respondeu, afirmando que "a Ucrânia tomou todas as medidas necessárias através dos canais diplomáticos para evitar este tipo de incidentes".
O navio em questão é o Panormitis, de bandeira panamiana, que chegou às águas perto de Haifa a 25 de abril, segundo os serviços de monitorização do tráfego marítimo.
O Panormitis está alegadamente a transportar mais de 6.200 toneladas de trigo e 19.000 toneladas de cevada.
Kiev apela a Israel para que não o deixe atracar e não descarregue a carga roubada.
Na terça-feira de manhã, Kiev convocou o embaixador israelita Michael Brodsky para lhe pedir que actue em relação ao Panormitis.
Casos anteriores de cereais roubados que chegaram a Israel
Uma investigação levada a cabo pela agência noticiosa israelita Haaretz revelou que pelo menos quatro carregamentos de cereais ucranianos roubados foram descarregados em Israel este ano.
Kiev insiste que Israel pode facilmente verificar e identificar tanto o navio como a origem dos carregamentos.
"As autoridades israelitas não podem ignorar os navios que chegam aos portos do país e a carga que transportam", disse Zelenskyy na terça-feira.
"A Rússia está sistematicamente a apoderar-se de cereais em terras ucranianas temporariamente ocupadas e a organizar a sua exportação através de indivíduos ligados aos ocupantes. Estes esquemas violam as leis do próprio Estado de Israel".
De acordo com jornalistas ucranianos de investigação, os graneleiros russos estão a ser carregados com cereais provenientes dos territórios ucranianos ocupados, transferidos para navios da frota sombra, antes de partirem dos portos russos com a carga.
De acordo com as estimativas de Kiev, pelo menos 15 milhões de toneladas de cereais ucranianos foram roubados pela Rússia desde o início da invasão em grande escala em 2022.
Disputa pública continua
O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, começou por usar o X na segunda-feira à noite, apelando a Israel para que rejeitasse os cereais ucranianos roubados a bordo do Panormitis , perto de Haifa.
O seu homólogo israelita, Sa'ar, não tardou a responder, pedindo a Kiev que se abstivesse de manter relações diplomáticas nas redes sociais.
Mas para os funcionários ucranianos, o espaço público pode parecer um meio de comunicação mais eficaz, depois de os canais diplomáticos se terem revelado ineficazes em incidentes anteriores.
Há algumas semanas, o navio graneleiro russo Abinsk entregou a Israel cerca de 44 000 toneladas de trigo ucraniano roubado, o que provocou uma reação diplomática forte por parte de Kiev.
Na altura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano declarou que tinha informado antecipadamente os funcionários israelitas sobre o Abinsk no início do mês e, no entanto, os cereais foram descarregados.
Segundo Kiev, os funcionários ucranianos informaram Israel em 23 de março que a carga do Abinsk continha cereais provenientes dos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia.
A Ucrânia afirma que "foram recebidas garantias quanto a uma resposta adequada".
No entanto, o Abinsk foi autorizado a descarregar no porto de Haifa de 12 a 14 de abril.
"Vemos que mais um navio deste tipo não foi parado", disse Zelenskyy na terça-feira.