Vandalização da estátua da escritora Natália Correia na Graça levou o PS a alertar para difusão "preocupante" de mensagens de ódio. Alexandra Leitão pede maior "empenho" no combate à intolerância. "Não existem extremismos virtuosos", responde Moedas, que acusa a socialista de "visão maniqueísta".
Faltavam poucos dias para a celebração dos 52 anos do 25 de Abril em Portugal quando um ato de vandalismo, em Lisboa, contra a estátua de Natália Correia, ícone da luta pela liberdade, voltou a inflamar o já muito entrincheirado debate político no país.
A escultura, erigida em 2023 na freguesia de São Vicente para marcar o centenário do nascimento da escritora açoriana, foi parcialmente danificada e alvo de pichagens: sobre o rosto, foram desenhadas cruzes suásticas, emblema adotado formalmente pelo Partido Nazi alemão em 1920 e que se tornou o símbolo mais representativo da propaganda de Hitler, assente em reivindicações de supremacia da raça ariana.
A suástica, em especial no Ocidente, remete para as atrocidades do Holocausto, sendo o seu uso para fins de apologia do nazismo proibido por lei em vários países.
Os danos, causados na noite de quinta-feira, 16 de abril, foram denunciados no sábado seguinte pelo presidente da Junta de Freguesia, que, com “profunda indignação”, condenou a “simbologia de ódio” nos termos de um ataque cujo alcance vai além da personalidade visada.
“Vandalizar a memória de Natália Correia é tentar, inutilmente, silenciar os valores da inteligência, da insubmissão e da democracia que ela tão bem personificou”, escreveu André Biveti na rede social Instagram, prometendo resistir a quaisquer tentativas de intimidação. “Natália Correia ensinou-nos a não ter medo; continuaremos a honrar esse legado.”
Também a vereação do Partido Socialista (PS) fez uma condenação enérgica do incidente, através de um voto de repúdio levado a reunião privada do executivo camarário e que viria a ser aprovado por unanimidade.
No texto, consultado pela Euronews, os representantes do PS na Câmara Municipal de Lisboa verberam o uso de “símbolos que evocam um dos períodos mais negros da História contemporânea”, num ato de “cobardia” que “não é apenas um crime de dano contra o património autárquico”, mas igualmente um “ataque aos valores do Estado de Direito Democrático”.
A nota apresenta Natália Correia como “um vulto ímpar da cultura portuguesa” e põe em evidência o trabalho da autora enquanto deputada da Assembleia da República na “defesa intransigente das mulheres”, sobretudo a luta travada em prol da descriminalização do aborto.
“Ergueu a sua voz, firme e sem medo, contra o autoritarismo moralizador que ainda ensombrava o país, e contra o qual devemos estar vigilantes (…)”, assinalam os quatro vereadores socialistas – Alexandra Leitão, Sérgio Cintra, Carla Madeira e Pedro Anastácio – ao mesmo tempo que instam a Câmara a fazer um apelo às autoridades no sentido da “rápida identificação e responsabilização” de quem maculou o busto.
A Junta de Freguesia fez saber que tem recebido mais queixas, incluindo "ataques a casas de vizinhos", e a vereação do PS reforça que não se tratou de "um ato isolado de delinquência", denunciando, com base no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2025, um "padrão preocupante de propagação de símbolos e mensagens de ódio ligadas aos regimes nazis e fascistas".
"As pessoas perdem a vergonha"
A Euronews solicitou à Polícia de Segurança Pública (PSP) um levantamento das ocorrências, em 2026, relacionadas com episódios de vandalismo marcado por incitamento ao ódio no concelho de Lisboa, mas não obteve resposta a tempo deste artigo.
No entanto, o RASI publicado no final de março, que recolheu os dados da criminalidade reportada pelas autoridades policiais à Direção-Geral da Política de Justiça (DGPJ) entre janeiro e dezembro de 2025, dá conta de um aumento dos crimes de ódio em Portugal.
Foram registadas 449 participações, o que configura uma subida de quase 7% face a 2024 (que já era ano recorde com 421 denúncias), com a Área Metropolitana de Lisboa a concentrar 30% das ocorrências.
O relatório faz referência a "uma maior crispação da sociedade portuguesa" provocada pelo"nível de polarização política, racial, religiosa e/ou sexual, acompanhada de fenómenos de desinformação".
Este "sentimento" conduz a "comportamentos de confrontação" materializados em "ações de protesto não autorizadas e por vezes disruptivas, com contornos de violência verbal ou física", que, segundo se lê no documento, perturbam o funcionamento da democracia e colocam em risco a segurança da população e dos bens.
"Entre 2015 e 2025, os crimes de ódio cresceram uns estonteantes 2236%", alerta Alexandra Leitão, em entrevista à Euronews.
"As pessoas tendem a mimetizar o contexto social que também mimetiza o contexto político", prossegue a vereadora socialista, que associa o crescimento do partido Chega ao clima de maior tensão na sociedade portuguesa.
"Há um discurso violento que não era muito comum em Portugal até há seis anos e as pessoas perdem um bocado a vergonha. Normaliza-se um certo tipo de discurso e, consequentemente, um certo tipo de atuação que, antes, estava mais escondida", afirma.
Sem mencionar diretamente qualquer partido, o RASI faz eco desta radicalização política, ao indicar que a agenda da extrema-direita explora "temas fraturantes" com propósitos eleitorais, em especial a partir de uma retórica anti-imigração, o que banaliza o "discurso público da discriminação, do ódio e das ideias antidemocráticas", e favorece "comportamentos racistas ou xenófobos".
Radicalização dos jovens e misoginia
No RASI, entregue ao parlamento, são expressas preocupações em relação ao envolvimento de menores e jovens adultos nestes fenómenos extremistas. Grupos "com algum grau de estruturação", lê-se no documento, recrutam na Internet estas faixas mais vulneráveis da população para doutriná-las, levando-as a "uma distorção da realidade" que as faz aderir a "teorias da conspiração ou retóricas antissistema".
Estes movimentos nacionalistas, com "uma forte presença online", são alimentados por "líderes carismáticos" que, de acordo com o RASI, "atuam como verdadeiros influencers" junto de jovens do sexo masculino, em particular.
Alexandra Leitão estabelece um paralelismo com os movimentos criados, a nível internacional, por Charlie Kirk e Andrew Tate. Em Portugal, frisa a socialista, abunda também um "discurso profundamente misógino" nas comunidades online radicalizadas e dominadas por rapazes/homens, que, acrescenta, "não são de minorias".
"É uma misoginia que não passa só pelo famoso 'O lugar das mulheres é na cozinha', mas que vai mesmo ao ponto de incentivar a violência contra as mulheres", adverte.
A ex-ministra do PS lembra, neste contexto, a presença de influenciadores digitais, a convite maioritariamente de associações de estudantes, em dezenas de escolas em Portugal, nos dois últimos anos letivos, para palestras com conteúdos de teor sexual e misógino.
Esta situação, revelada pelo jornal Público no início de março, levou a Inspeção-Geral da Educação e Ciência a abrir um inquérito a dois diretores escolares citados na reportagem. O ministro da tutela, Fernando Alexandre, também interveio, anunciando a constituição de um grupo de trabalho para definir orientações que ajudem a determinar as entidades e personalidades externas que podem entrar no recinto escolar.
O ministro salientou que a responsabilidade pelo controlo dos acessos recai sobre quem dirige os estabelecimentos e que não se justificava qualquer mexida na lei porque esta já estipula esse procedimento. Alexandra Leitão entende que faltou firmeza na tomada de posição do Ministério da Educação e volta a fazer avisos sobre os perigos das narrativas de hostilidade contra as mulheres.
"Não sou a favor de nenhum tipo de policiamento de linguagem, mas há uma fronteira entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio, e essa fronteira está firmemente traçada na lei quando tem tipos penais que criminalizam o discurso de ódio", nota. "Liberdade de expressão também não é poder dizer que as mulheres são inferiores? Não, a liberdade de expressão não serve para isso", declara Alexandra Leitão.
No ano passado, o então diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, atual ministro da Administração Interna, assumiu uma posição assertiva perante comportamentos misóginos. Em junho, fizera um alerta público a propósito de jogos online que têm como objetivo violar, abater e perseguir mulheres, sendo que, meses mais tarde, em outubro, deu conta da escalada dos crimes de ódio, em especial os que são dirigidos contra pessoas do sexo feminino.
"Há aí uma visão machista de tratar as mulheres como um ser menor", referiu Luís Neves, citado pela Lusa, depois de a PJ ter detido um homem que ofereceu 100 mil euros a quem matasse uma jornalista brasileira residente em Portugal. O agora governante falou em "crimes politicamente motivados" e prometeu, nessa ocasião, um "combate feroz" a todas as formas de violência com base não só no género, mas também na nacionalidade, raça ou credo.
À Euronews, Alexandra Leitão aplaude a escolha de Luís Montenegro para liderar o Ministério da Administração Interna e admite, na qualidade de vereadora em Lisboa, avançar com "mais iniciativas", até junto do governo, depois de esgotado o diálogo com a Câmara, se houver uma "continuação" de condutas extremistas na capital.
Na intervenção de outubro do ano passado, Luís Neves trouxe igualmente à colação o facto de os jovens estarem a ser recrutados para cometer estes crimes com caráter discriminatório. Uma situação inconcebível numa sociedade ocidental, em que tem de prevalecer o respeito pelo ser humano, realçou.
O RASI relata que, em 2025, aconteceu a primeira condenação em Portugal de um rapaz com menos de 16 anos por atos que constituiriam "uma infração terrorista" e "um crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, com base ideológica de extrema-direita", caso estivesse em causa alguém com "maioridade penal".
Mensagem política no vandalismo
O ataque ao busto de Natália Correia não pode ser visto à luz de mais um qualquer episódio de vandalismo, insiste Alexandra Leitão, tendo em conta que a poetisa, dramaturga, ensaísta, jornalista, tradutora e editora sempre se opôs sem amarras ao pensamento e ao espírito do Portugal em ditadura.
Fosse nos jornais, na rádio, na televisão, no Parlamento ou no seu famoso bar "Botequim", que reunia os intelectuais, a mulher que casou quatro vezes desafiou os costumes da época e corporizou a emancipação social e política que muitos procuravam, chegando a ser processada e condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de obras que, para o Estado Novo, ofendiam a moral pública.
Na mesma semana de abril em que se vandalizou o busto de Natália Correia, teve lugar uma outra ação contra o património no espaço urbano lisboeta. Na freguesia de Santa Maria Maior, foi partido o nariz da estátua de Carlos Mendonça, um comerciante que se tornou uma das principais figuras das Marchas da cidade.
Sem minimizar este ataque, Alexandra Leitão deixa claro que as duas situações de vandalismo não podem ser colocadas no mesmo plano: numa há um impulso circunstancial, enquanto noutra é visível uma tentativa de criar um efeito social de intimidação.
O "vandalismo casual, etílico" é "imensamente censurável", ressalva, mas é preciso distingui-lo dos atos em que há uma motivação ideológica.
"Não é que o marchante seja mais ou menos importante do que a Natália Correia, o ponto não é esse, que fique bem claro. É porque [o caso de Natália Correia] está associado a um tipo de simbologia que tem um sentido muito real. Quem desenha suásticas não está a desenhar corações ou símbolos fálicos", explica.
"Não senti que houvesse esse alerta decorrente da natureza específica daquele tipo de vandalismo. Houve uma desvalorização da parte simbólica do acontecimento", observa.
Além da destruição material, a socialista, que encabeçou a coligação PS-Livre-Bloco de Esquerda-PAN nas últimas eleições autárquicas na capital, menciona o caso de violência, a 10 de junho do ano passado, contra Adérito Lopes, ator do teatro "A Barraca", agredido por um grupo de extrema-direita, em Lisboa, quando se encaminhava para um espetáculo de homenagem a Camões.
Recentemente, na madrugada de 25 de abril, um refugiado iraquiano, a viver em Portugal desde 2019, foi insultado e agredido por um grupo de jovens na Alameda D. Afonso Henriques, quando voltava das celebrações da Revolução dos Cravos no Largo do Carmo, tendo sido transportado para o hospital com ferimentos graves e suturado com vários pontos.
Alexandra Leitão gostaria de ver um "maior empenho" da autarquia na condenação destas práticas de violência e estranha que nada de concreto tenha sido feito pelo presidente da Câmara no seguimento da aprovação do voto de repúdio do PS.
Os extremos
Contactado pela Euronews, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa rejeita as críticas da oposição socialista e defende "tolerância zero para ataques ao património", independentemente da "natureza desses atos de vandalismo".
Carlos Moedas afirma que a autarquia reserva todos os anos dois milhões de euros para a limpeza de grafítis.
"O facto de não condescender com qualquer forma de vandalismo não significa, no entanto, que não estejamos ainda mais atentos àqueles que têm subjacentes ideias discriminatórias ou atentatórias da dignidade humana, que façam a apologia de regimes totalitários ou que promovam a violência", salienta, assegurando um "combate firme", sem especificar como, a quem dissemina estas mensagens no espaço público.
O autarca acusa Alexandra Leitão de, "talvez por proximidade ou influência de movimentos políticos extremistas", ter "uma visão maniqueísta do mundo e da política".
Aludindo ao militante do PS suspeito de, no passado dia 21 de março, arremessar um engenho explosivo em direção a manifestantes antiaborto na Marcha pela Vida, junto à Assembleia da República, situação que "muitos no espaço público desvalorizaram", Moedas sinaliza perigos nos dois extremos do espectro político.
"Incompreensivelmente, [Alexandra Leitão] só vê perigos na extrema-direita, mas eu vejo-os em ambos os lados. Há perigos na extrema-direita, claro, mas também na extrema-esquerda. Não existem extremismos virtuosos ou mais amigos da democracia", enfatiza.
Desde que eclodiu a guerra em Gaza em 2023, Lisboa tem assistido a uma série de incidentes de vandalismo de ódio dirigidos a judeus e locais ligados a Israel.
O ponto em foco é o Centro Cultural Judaico na Rua da Judiaria: em setembro do ano passado, o fundador desta associação denunciou à Lusa uma “explosão de antissemitismo”, dando a conhecer tentativas de arrancar símbolos judaicos e contando que, nas paredes exteriores do edifício, aparecem regularmente autocolantes com inscrições como “Vocês não são bem-vindos a Portugal” e "Assassinos de crianças".
Foram inclusive reportados insultos racistas que continham referências ao massacre dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial: "Volta para a tua terra, o homem do bigodinho tinha razão”.
Na semana passada, o mesmo local foi novamente grafitado com mensagens antissemitas: "Morte aos Israelenses" e "Hamas vencerá". Em comunicado enviado às redações, a embaixada de Israel em Lisboa insurgiu-se contra "discursos de ódio perigosos que constituem uma incitação direta à violência e ao terrorismo no coração da capital portuguesa", pedindo à Câmara, ao governo português e às autoridades policiais que condenem o acontecimento "de forma inequívoca e pública", e que "levem à justiça os responsáveis".
O RASI confirma este quadro, com uma extrema-esquerda "particularmente ativa no contexto da causa palestiniana" por meio de vandalismo antissemita e "campanhas de pressão e intimidação contra entidades que apoiam ou se relacionam económica ou culturalmente com Israel".
No que toca aos grupos de esquerda, há igualmente nota para os ativistas do clima, descritos como tendo "muito pouca expressão" e estando em "patamares afastados do limiar do extremismo".
Ainda assim, neste campo ideológico, o relatório refere outros movimentos que suscitam preocupação, designadamente os anarquistas que têm tentado impulsionar a "causa antifascista", mostrando-se "preparados para o confronto físico com os adversários e as Forças de Segurança" e para uma "praxis de violência insurrecional" que instrumentaliza "protestos de terceiros", como aconteceu na greve geral do final de 2025.
Já a extrema-direita é caracterizada como um risco crescente, traduzido em "grupos online de matriz aceleracionista e neonazi" compostos por utilizadores portugueses que "glorificam a violência". Estes internautas, segundo o RASI, já não se limitam a consumir os conteúdos violentos, mas também os disseminam, "podendo mesmo contribuir para o recrutamento e o planeamento de novos atentados terroristas".
Alexandra Leitão aceita a "simetria no plano abstrato, dos princípios" entre extrema-direita e extrema-esquerda, mas contrapõe a perspetiva de Moedas. "Hoje, em 2026, na Europa, e agora em especial em Portugal, o risco para a democracia e para as liberdades vem da extrema-direita e não da extrema-esquerda. Amanhã pode vir, hoje não".
Embora reconheça que o aumento de casos de incitamento ao ódio é problemático, o líder do executivo municipal lisboeta recorda, por outro lado, que crimes graves como homicídio, violação e violência contra menores estão em crescimento, incluindo em Lisboa.
Ao mesmo tempo, referencia a "degradação da ordem pública" por via da maior incidência de criminalidade envolvendo **detenção de armas proibidas e desobediência às autoridades. "**Não é recomendável que um presidente de Câmara se preocupe e alerte para estas situações? Quem é que deliberadamente ignora os perigos para a segurança dos lisboetas e dos portugueses?", questiona.
Ainda que espelhe a tendência ascendente destes dois últimos delitos, o RASI atribui a subida da criminalidade geral (+3,1%) a "um investimento na capacidade operacional e na maior eficácia de deteção e prevenção de comportamentos ilícitos". Ou seja, a expansão dessa criminalidade é explicada pelo reforço da fiscalização e dos métodos de registo.
A este propósito, Alexandra Leitão argumenta que Carlos Moedas tem as prioridades trocadas, indicando que a criminalidade violenta e grave baixou (-1,6%) e lembrando o peso da violência doméstica, que, de acordo com o RASI, permanece como uma das tipologias criminais com maior número de participações.
Ideologia na cultura?
A controvérsia em Lisboa chegou aos preparativos para as celebrações do 25 de Abril.
Uma petição designada “Festas de Abril sem Abril”, assinada por cerca de 600 agentes culturais da cidade, denunciou uma tentativa de alterar o nome deste período festivo, de “Festas de Abril” para “Festas da Primavera”.
Os subscritores acusaram a empresa municipal responsável pela programação (EGEAC Lisboa Cultura) de querer esbater a centralidade da Revolução e reduzi-la a uma “festa genérica da primavera”.
À Lusa, a EGEAC confirmou que, numa fase inicial, equacionou a alteração do nome - no início de março, no site da empresa, apareceu mesmo a designação "Festas da Primavera" em vez de "Festas de Abril" - mas que optou por não fazê-lo dado o "reconhecimento já consolidado do nome ‘Festas de Abril'".
"Houve freguesias que fizeram festejos alusivos ao 25 de Abril, como Benfica e Arroios", refere Alexandra Leitão, sublinhando, porém, que a Câmara não levou a cabo celebrações específicas que exaltassem o "significado histórico e político" da data.
A ex-governante manifesta apreensão face a um "contexto preocupante" no que diz respeito à política cultural da cidade. Neste sentido, traz à discussão a intervenção da deputada municipal do Chega, Margarida Bentes Penedo,em janeiro de 2026, na qual esta classificou a programação do Teatro do Bairro Alto como "panfletária" e pediu uma "cultura de direita".
Carlos Moedas rebate em absoluto os remoques acerca dos festejos da liberdade, considerando que lhe foi feita "uma acusação sem sentido e que não resiste aos factos". O autarca afirma ter promovido 30 iniciativas dedicadas ao 25 de Abril e fala de um investimento de 250 mil euros por parte da EGEAC em mais 23 eventos no mesmo âmbito.
"Portanto, se há presidente que atribui significado histórico e político ao 25 de Abril, sou eu", reitera Moedas.
À Euronews, o presidente da Câmara de Lisboa diz que Alexandra Leitão não tem "argumentos" nem "propostas que interessem à cidade", pelo que "opta sempre pelos mesmos chavões e pelo guião da extrema-esquerda, com quem conviveu ao longo da campanha e que os lisboetas rejeitaram de forma categórica".
"Talvez seja sintoma de que ainda não digeriu os resultados eleitorais, de que esteja a perder espaço dentro do seu partido ou mesmo da constatação de que o próprio PS comece a perceber que os portugueses e os lisboetas preferem um PS fiel à sua história de moderação, recusando a linha do anterior secretário-geral e da própria vereadora Alexandra Leitão", atira.
Sobre a maneira como o setor da Cultura é gerido, Moedas clarifica que a administração da EGEAC dispõe de "autonomia de gestão" e que "ninguém da Câmara Municipal de Lisboa interfere na programação cultural".
"Sou insuspeito, não olho a cartões partidários quando escolho pessoas. Já nomeei pessoas de vários partidos, decido em função da competência e da adequação às funções", assinala o chefe do governo camarário, antes de lançar nova alfinetada a Alexandra Leitão.
"Se alguém cedeu a muitas 'derivas' de partidos radicais, não fui eu. Nem fui eu que governei o país ou a cidade com partidos extremistas a influenciarem decisões fundamentais", conclui.