Países da UE receberam cerca de um milhão de pedidos de asilo apresentados por afegãos entre 2013 e 2024, segundo a agência de dados do bloco.
A Europa não tem alternativa senão falar com o governo talibã sobre o regresso ao Afeganistão de requerentes de asilo cujos pedidos foram recusados, afirmou na quinta-feira o responsável europeu pela migração, ao defender uma reunião prevista em Bruxelas que, segundo críticos, iria trair os valores do bloco.
A Comissão Europeia convidou responsáveis talibãs para discussões no quadro de um esforço para reprimir a migração irregular e aumentar as deportações, apesar de não reconhecer formalmente a administração talibã.
"Não é opção não falar com estas pessoas para melhorar a situação", afirmou Magnus Brunner, comissário da UE para a Migração, aos jornalistas.
Os responsáveis Taliban ainda não obtiveram vistos para visitar a Bélgica e não foi marcada data para a reunião, mas o encontro já está a provocar polémica em Bruxelas.
Os governos europeus encerraram as suas embaixadas em Cabul quando as autoridades Taliban regressaram ao poder, em 2021, e impuseram a sua interpretação restrita da lei islâmica.
As mulheres têm de sair de casa quase totalmente cobertas e estão proibidas de entrar numa série de espaços públicos, incluindo parques e ginásios, enquanto a educação das raparigas termina aos 12 anos.
Organizações de defesa dos direitos humanos questionam a legalidade e a ética de devolver migrantes a um país mergulhado numa grave crise humanitária, com milhões de pessoas a enfrentar a fome e dificuldades económicas, segundo as Nações Unidas.
Mas Brunner afirmou que as conversações não equivalem ao reconhecimento do "regime Taliban" e que é do interesse da Europa avançar com elas, apontando o interesse manifestado por muitos Estados-membros.
"É importante falar com eles, pelo menos para melhorar a situação para os europeus, mas também para os requerentes de asilo", disse Brunner.
O governo belga disse à agência noticiosa AFP que a Comissão lhe tinha transmitido os nomes dos responsáveis Taliban que deverão integrar a delegação, o que permite aos serviços de segurança iniciarem as verificações, mas que ainda não recebeu quaisquer pedidos de visto.
Os governos europeus têm adotado uma linha mais dura em matéria de migração, à medida que a opinião pública se torna mais crítica, alimentando ganhos eleitorais da extrema-direita em todo o continente.
Com a chegada de migrantes em baixa, o foco em Bruxelas passou para a melhoria do sistema de repatriamentos.
Os países da UE receberam cerca de um milhão de pedidos de asilo apresentados por afegãos entre 2013 e 2024, segundo a agência de dados do bloco. Aproximadamente metade foi aprovada nesse período.
Cerca de 20 dos 27 Estados-membros da UE manifestaram, numa carta enviada no ano passado, interesse em devolver ao Afeganistão alguns migrantes sem direito de permanência, em particular os que têm condenações criminais.
Alguns países já avançaram, com a Alemanha a deportar mais de uma centena de afegãos condenados por crimes desde 2024.