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Seguro estreia-se no 25 de Abril: "Perigo para a democracia não chega como nos filmes"

António José Seguro
António José Seguro Direitos de autor  Ana Brígida/AP
Direitos de autor Ana Brígida/AP
De Ricardo Figueira
Publicado a Últimas notícias
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Presidente da República eleito no início deste ano estreia-se em discursos comemorativos do 25 de Abril e escolheu dirigir-se aos mais jovens, alertando para os populismos e desinformação.

Pela primeira vez desde o fim do mandato de Jorge Sampaio em 2006, Portugal voltou a ter um presidente com cravo vermelho na lapela nas comemorações oficiais do 25 de Abril.

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Com um discurso conciliador e dirigido essencialmente às gerações que cresceram em democracia e, em especial, aos mais jovens, António José Seguro celebrou pela primeira vez a Revolução dos Cravos enquanto Presidente da República. O cravo que levava na lapela, à semelhança do presidente da Assembleia da República José Pedro Aguiar-Branco, não passou despercebido, contrastando com os dois antecessores Cavaco Silva (que nunca usou) e Marcelo Rebelo de Sousa (que o costumava usar na mão, mas não na lapela). Cravos vermelhos que André Ventura, líder do maior partido da oposição em termos de deputados, o Chega, e adversário de Seguro nas presidenciais de janeiro e fevereiro, propôs "deitar fora" num discurso aplaudido apenas pela sua bancada.

Seguro fala aos jovens

Nesta estreia em comemorações oficiais da revolução que reistaurou a democracia em Portugal após 48 anos de ditadura (1926-1974), Seguro frisou a necessidade de cultivar o respeito pela democracia numa época marcada por radicalismos, populismos e guerras que grassam em todo o planeta, num discurso em que começou por citar Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner.

Dirigiu-se em especial aos jovens, a quem disse "compreender que a revolução de 1974 lhes pareça demasiado distante e algo que lhes diz pouco", mas frisou a necessidade de compreenderem que "se hoje as mulheres podem votar, ser juízas ou viajar sem precisarem de autorização do marido, devem-no a Abril", assim como "se todos se podem hoje exprimir livremente, devem-no também a Abril".

Alertando para o crescimento dos populismos, do pensamento totalitário e da desinformação tantas vezes espalhada pelas redes sociais, disse que "o perigo para a democracia não aparece como nos filmes, pode aparecer de forma subreptícia, por exemplo, sob a forma de um algoritmo".

O chefe de Estado prometeu ainda lutar contra as desigualdades que persistem, dizendo que "quem vive na precariedade extrema não pode escolher livremente" e que "não compreende como pode ainda haver mulheres a ganhar menos que os homens pelo mesmo trabalho".

O perigo para a democracia não aparece como nos filmes, pode aparecer de forma subreptícia, por exemplo, sob a forma de um algoritmo.
António José Seguro
Presidente da República de Portugal

Aguiar-Branco faz discurso autocrítico

O presidente da Assembleia da República José Pedro Aguiar-Branco (PSD) optou pela autocrítica da classe política portuguesa no seu discurso, dizendo que "a maioria dos portugueses gosta de política, mas muitos não gostam ou desconfiam dos políticos", convidando as elites dirigentes a refletir sobre o seu papel e o modo como interagem com a demais população. "Com mais ou menos revisões constitucionais, mais ou menos palavras inflamadas, 50 anos depois, a esmagadora maioria dos portugueses quer este regime e gosta deste regime", disse.

Levando a autocrítica mais longe, Aguiar-Branco falou de como os políticos tentam responder aos desejos por vezes injustificados e de raíz populista de castigar a própria classe política, fazendo de temas como a remuneração dos políticos "um tabu". O escrutínio excessivo a que a classe passou a ser sujeita levou a um "entrincheiramento" e a uma "política fechada sobre si mesma", frisou, num discurso a que o deputado Pedro Delgado Alves (PS) respondeu virando costas à mesa, numa atitude de desagrado algo insólita.

Revolução de 25 de Abril de 1974, conhecida como "Revolução dos Cravos", fez 52 anos
Revolução de 25 de Abril de 1974, conhecida como "Revolução dos Cravos", fez 52 anos Armando França/AP (arquivo)

Hugo Soares (PSD): "Abril é evolução"

Num discurso em que exaltou a coragem dos capitães de Abril para pôr fim ao sistema ditatorial, o líder da bancada do PSD no Parlamento disse que essa mesma coragem é hoje precisa para fazer frente aos populismos.

Dizendo que "cumprir Abril é tornarmo-nos democratas plenos", lembrou o recentemente falecido Nuno Morais Sarmento, autor do mote para as comemorações dos 30 anos da Revolução em 2004, retirando-lhe o "R" para a transformar em "Evolução".

José Luís Carneiro (PS) elogia diáspora portuguesa

O líder do Partido Socialista lembrou as várias centenas de milhares de portugueses que deixaram o país devido à falta de oportunidades, sobretudo antes da Revolução, e acabaram por formar aquele que, segundo ele, é "um dos ativos mais preciosos do país", a diáspora, num discurso a que não é alheia a anterior experiência como secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.

Carneiro exaltou ainda a "coragem daqueles que ousaram acreditar que a democracia era possível" e lembrou o trigésimo aniversário da criação da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), uma iniciativa de um histórico do partido, o então ministro dos Negócios Estrangeiros Jaime Gama.

André Ventura (Chega): "Vocês (esquerda) serão derrotados"

Sem surpresas, o líder da direita radical optou por um discurso cáustico como em anos anteriores, numa sessão em que ele e os companheiros de bancada apareceram com cravos artificiais pretos e verdes na lapela: "Podem levar todos estes cravos vermelhos daqui", disse, criticando aqueles que "vão cantar a Grândola Vila Morena para o Largo do Carmo com cravos vermelhos e cerveja na mão, sem se importarem com a corrupção". Num discurso pontuado aqui e ali pela habitual retórica anti-imigração, denunciou a "punhalada nas costas" que foi o processo de descolonização, criticou os "elogios àqueles que combateram os portugueses em África" e disse que "celebrar o 25 de Abril tem de ser uma celebração de toda a História" do país. Disse ainda, dirigindo-se a todas as forças à sua esquerda: "Vocês serão vencidos". Efusivamente aplaudido pela bancada do partido, o discurso do líder do Chega foi alvo por vezes de apupos vindos das restantes bancadas.

Mariana Leitão (Iniciativa Liberal): "Revolução começou antes de 1974"

A líder dos liberais lembrou como a Revolução de 1974 foi percursora de uma terceira vaga de democratização da Europa, que culminaria com a democratização do leste europeu na transição da década de 1980 para a de 1990. Disse ainda que a transformação democrática em Portugal começou antes, "quando os empresários entenderam virar-se para a Europa e transformar este no principal mercado de exportação", lamentando como a vontade de transformação democrática acabaria por transformar-se num "lamaçal".

Soldado junto a multidão após a revolução de 25/04/1974
Soldado junto a multidão após a revolução de 25/04/1974 AP Photo

João Almeida (CDS-PP) contra "pensamento oficial"

O deputado do CDS, parceiro de coligação do PSD de Luís Montenegro no atual governo, lembrou que "o 25 de Abril fez-se para que não houvesse um pensamento oficial", sendo que esse espírito inicial foi traído quando "o único pensamento oficial passou a ser o comunista", lembrando a importância do contragolpe de 25 de Novembro de 1975.

Alfredo Maia (PCP) lembra violência da extrema-direita

Numa altura em que os excessos e a violência no período que se seguiu ao 25 de Abril, nomeadamente durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC) são temas que voltaram à ordem do dia, o deputado comunista Alfredo Maia (antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas) lembrou as "dezenas de milhares de pessoas presas e torturadas" pela polícia política durante a ditadura, enumerando e lendo o nome de várias vítimas mortais, lembrando também o período pós-revolução e o papel dos grupos armados de direita durante o PREC, que terão feito "cerca de 600 ataques".

A propósito do Pacote Laboral proposto pelo Governo, diz que este é o culminar de "50 anos de contrarrevolução".

Rui Tavares (Livre) dá "lição de História"

O líder do Livre, valendo-se da condição de historiador, aproveitou a data para lembrar que se comemora este ano o centésimo aniversário da Revolução de 28 de Maio de 1926, que levaria ao fim da I República e à ascensão do Estado Novo, não tendo Portugal voltado a conhecer democracia até 1974 e inaugurando um período que durou até à eleição de Mário Soares em 1986, em que o país não conheceu nenhum Presidente da República civil.

Tavares aproveitou a "lição de história" para criticar o atraso na criação de um Museu do 25 de Abril e na decisão governamental de o querer instituir na Pontinha, uma zona periférica de Lisboa, e não no Terreiro do Paço, como inicialmente planeado.

Fabien Figueiredo (BE) denuncia nostalgia do "antigamente"

"A única paz no tempo do Estado Novo era a dos cemitérios", lembrou o (agora único) deputado Fabien Figueiredo, do Bloco de Esquerda, dizendo que a "nostalgia de um país onde havia ordem é uma ideia falsa" e que "Portugal pode ter muitos problemas, mas nenhum deles é a liberdade".

Inês Sousa Real (PAN) alerta para violência de género

A líder e deputada única do partido Pessoas, Animais e Natureza (PAN) celebrou o 25 de Abril de 1974 como "o fim de um país onde o trabalho infantil era estrutural e a violência de género era parte do sistema", lembrando que há ainda muito caminho a fazer na eliminação da violência contra as mulheres.

Filipe Sousa (JPP) apela a "construir pontes"

O líder e deputado único do Juntos Pelo Povo, partido com expressão apenas na Região Autónoma da Madeira, alertou para o "discurso de ódio que procura dividir o que Abril uniu" e para a "necessidade de construir pontes onde outros insistem em erguer muros".

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