Os deputados do partido de André Ventura apareceram na cerimónia do 25 de Abril no Parlamento com cravos verdes e pretos na lapela. O que justificam como homenagem à diáspora portuguesa acabou sendo motivo de risota na Internet, devido a um episódio com Oscar Wilde no século XIX.
O debate sobre o uso, ou não, do cravo vermelho nas cerimónias evocativas do 25 de Abril em Portugal é antigo. Se o cravo é visto como um símbolo universal do golpe que pôs fim a 48 anos de ditadura em 1974, nem todos adotaram o seu uso. À esquerda, praticamente todos o usam. Já a direita parece dividida e uma parte dos políticos dessa área prefere não ostentar o cravo vermelho, por várias razões: por um lado, a conotação que a cor vermelha sempre teve com o comunismo. Por outro, o distanciamento dos excessos que marcaram o período revolucionário. Exemplo disso são os dois antecessores do atual presidente António José Seguro - Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, ambos oriundos do Partido Social-Democrata (PSD). Cavaco nunca usou o cravo nas cerimónias, enquanto Marcelo costumava usá-lo na mão, mas não na lapela.
Nas cerimónias de sábado, o Chega abriu um novo capítulo no debate, com toda a bancada parlamentar a aparecer com cravos de pano verdes e pretos. O partido de direita radical apresentou a novidade como uma homenagem à diáspora portuguesa, tendo estes adereços sido fabricados por uma mulher emigrante em França.
Aquilo que os deputados do Chega e o líder André Ventura apresentaram como arrojo acabou, no entanto, por dar lugar à risota nas redes sociais, quando vários utilizadores notaram a história do cravo verde como símbolo LGBT introduzido por Oscar Wilde na última década do século XIX, o que não deixa de ser caricato, tendo em conta o historial da retórica do partido nesta área.
Como Wilde lançou a moda do cravo verde
A história está contada num artigo assinado pela escritora Tara Isabella Burton num artigo publicado em junho de 2023 no site Literary Hub. Citando as memórias do pintor Cecil Robertson, Oscar Wilde terá começado a usar este adereço em 1892, replicando uma personagem criada para a então mais recente peça O Leque de Lady Windermere. A personagem, um dandy, terá sido criada à imagem do próprio Wilde. Usado inicialmente para publicitar a peça, o cravo verde acabaria por tornar-se parte da indumentária habitual do dramaturgo britânico.
Nesse ano, a popularidade de Wilde acabaria por transformar o cravo verde num acessório muito usado e comentado no jet-set londrino. Escreve Burton: "Em Londres, em 1892, toda a gente — ou, pelo menos, toda a gente que era alguém — falava de uma coisa: cravos verdes. Ninguém sabia ao certo o que significava usar um cravo verde, nem por que razão se tinha tornado, de repente, uma declaração de moda tão deliciosamente escandalosa e deslumbrantement. Tudo o que se sabia era que, um dia, num teatro de Londres, alguém importante (as histórias divergiam quanto a quem era exatamente) usou um cravo verde, ou talvez azul".
Duas semanas após a estreia da peça, a moda parece ter pegado, sobretudo junto de um grupo de homens que rodeava Wilde: "Em poucos dias, os cravos estavam por todo o lado. Apenas duas semanas depois, um jornal que cobria a estreia de outra peça, desta vez de Théodore de Banville, relatou um fenómeno bizarro: Wilde na plateia, rodeado por um «grupo de jovens cavalheiros, todos usando o cravo tingido de cores vivas que substituiu o lírio e o girassol», duas flores que anteriormente tinham sido associadas a Wilde e, de forma mais geral, a jovens elegantes, extravagantes e sexualmente ambíguos", prossegue a autora do artigo.
O cravo ter-se-á tornado assim um código entre homossexuais da elite intelectual londrina, segundo o artigo. Wilde, cuja homossexualidade era amplamente conhecida numa época em que esta era reprimida por lei e ninguém a assumia abertamente, acabaria preso por "indecência" em 1895, privado de dinheiro e exilado em Paris, onde morreria pouco depois. Burton acrescenta que, por essa altura, o cravo verde tinha-se tornado um acessório usado e reconhecido pelos gays de Paris.
Em sua homenagem, foi publicado de forma anónima um livro chamado The Green Carnation (O Cravo Verde), cuja autoria soube-se depois ser do crítico musical londrino Robert Hichens, retratando a relação de Wilde com Lord Alfred “Bosie” Douglas.
O cravo e o 25 de Abril
A associação do cravo vermelho com o 25 de Abril não tem nada a ver com Oscar Wilde, nem sequer com cores políticas. A história nasce quando Celeste Caeiro, então com 40 anos, chega ao restaurante onde trabalhava na manhã do dia 25 de abril de 1974. A sala estava toda enfeitada com flores, destinadas a serem oferecidas às clientes por ocasião do aniversário do restaurante. No entanto, devido à revolução, o estabelecimento não abriu nesse dia e Celeste regressa a casa com um molho de cravos vermelhos na mão. É então que um soldado lhe pede um cigarro. Como não fuma, Celeste oferece um cravo e o soldado coloca-o na ponta da espingarda. Outro soldado pede também um cravo e repete o gesto. O resto é História.
Celeste Caeiro morreu aos 91 anos em 2024.