Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Chega usa símbolo LGBT no 25 de Abril? Redes sociais não perdoam

André Ventura e Oscar Wilde
André Ventura e Oscar Wilde Direitos de autor  Montagem AP/Wikimedia Commons
Direitos de autor Montagem AP/Wikimedia Commons
De Ricardo Figueira
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Os deputados do partido de André Ventura apareceram na cerimónia do 25 de Abril no Parlamento com cravos verdes e pretos na lapela. O que justificam como homenagem à diáspora portuguesa acabou sendo motivo de risota na Internet, devido a um episódio com Oscar Wilde no século XIX.

O debate sobre o uso, ou não, do cravo vermelho nas cerimónias evocativas do 25 de Abril em Portugal é antigo. Se o cravo é visto como um símbolo universal do golpe que pôs fim a 48 anos de ditadura em 1974, nem todos adotaram o seu uso. À esquerda, praticamente todos o usam. Já a direita parece dividida e uma parte dos políticos dessa área prefere não ostentar o cravo vermelho, por várias razões: por um lado, a conotação que a cor vermelha sempre teve com o comunismo. Por outro, o distanciamento dos excessos que marcaram o período revolucionário. Exemplo disso são os dois antecessores do atual presidente António José Seguro - Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, ambos oriundos do Partido Social-Democrata (PSD). Cavaco nunca usou o cravo nas cerimónias, enquanto Marcelo costumava usá-lo na mão, mas não na lapela.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Nas cerimónias de sábado, o Chega abriu um novo capítulo no debate, com toda a bancada parlamentar a aparecer com cravos de pano verdes e pretos. O partido de direita radical apresentou a novidade como uma homenagem à diáspora portuguesa, tendo estes adereços sido fabricados por uma mulher emigrante em França.

Aquilo que os deputados do Chega e o líder André Ventura apresentaram como arrojo acabou, no entanto, por dar lugar à risota nas redes sociais, quando vários utilizadores notaram a história do cravo verde como símbolo LGBT introduzido por Oscar Wilde na última década do século XIX, o que não deixa de ser caricato, tendo em conta o historial da retórica do partido nesta área.

Como Wilde lançou a moda do cravo verde

A história está contada num artigo assinado pela escritora Tara Isabella Burton em junho de 2023 no site Literary Hub. Citando as memórias do pintor Cecil Robertson, Oscar Wilde terá começado a usar este adereço em 1892, replicando uma personagem criada para a então mais recente peça O Leque de Lady Windermere. A personagem, um dandy, terá sido criada à imagem do próprio Wilde. Usado inicialmente para publicitar a peça, o cravo verde acabaria por tornar-se parte da indumentária habitual do dramaturgo britânico.

Oscar Wilde com a flor ao peito
Oscar Wilde com a flor ao peito Wikimedia Commons

Nesse ano, a popularidade de Wilde acabaria por transformar o cravo verde num acessório muito usado e comentado no jet-set londrino. Escreve Burton: "Em Londres, em 1892, toda a gente — ou, pelo menos, toda a gente que era alguém — falava de uma coisa: cravos verdes. Ninguém sabia ao certo o que significava usar um cravo verde, nem por que razão se tinha tornado, de repente, uma declaração de moda tão deliciosamente escandalosa e deslumbrantement. Tudo o que se sabia era que, um dia, num teatro de Londres, alguém importante (as histórias divergiam quanto a quem era exatamente) usou um cravo verde, ou talvez azul".

Duas semanas após a estreia da peça, a moda parece ter pegado, sobretudo junto de um grupo de homens que rodeava Wilde: "Em poucos dias, os cravos estavam por todo o lado. Apenas duas semanas depois, um jornal que cobria a estreia de outra peça, desta vez de Théodore de Banville, relatou um fenómeno bizarro: Wilde na plateia, rodeado por um «grupo de jovens cavalheiros, todos usando o cravo tingido de cores vivas que substituiu o lírio e o girassol», duas flores que anteriormente tinham sido associadas a Wilde e, de forma mais geral, a jovens elegantes, extravagantes e sexualmente ambíguos", prossegue a autora do artigo.

O cravo ter-se-á tornado assim um código entre homossexuais da elite intelectual londrina, segundo o artigo. Wilde, cuja homossexualidade era amplamente conhecida numa época em que esta era reprimida por lei e ninguém a assumia abertamente, acabaria preso por "indecência" em 1895, privado de dinheiro e exilado em Paris, onde morreria pouco depois. Burton acrescenta que, por essa altura, o cravo verde tinha-se tornado um acessório usado e reconhecido pelos gays de Paris.

Em sua homenagem, foi publicado de forma anónima um livro chamado The Green Carnation (O Cravo Verde), cuja autoria soube-se depois ser do crítico musical londrino Robert Hichens, retratando a relação de Wilde com Lord Alfred “Bosie” Douglas.

O cravo e o 25 de Abril

A associação do cravo vermelho com o 25 de Abril não tem nada a ver com Oscar Wilde, nem sequer com cores políticas. A história nasce quando Celeste Caeiro, então com 40 anos, chega ao restaurante onde trabalhava na manhã do dia 25 de abril de 1974. A sala estava toda enfeitada com flores, destinadas a serem oferecidas às clientes por ocasião do aniversário do restaurante. No entanto, devido à revolução, o estabelecimento não abriu nesse dia e Celeste regressa a casa com um molho de cravos vermelhos na mão. É então que um soldado lhe pede um cigarro. Como não fuma, Celeste oferece um cravo e o soldado coloca-o na ponta da espingarda. Outro soldado pede também um cravo e repete o gesto. O resto é História.

Celeste Caeiro morreu aos 91 anos em 2024.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Seguro estreia-se no 25 de Abril: "Perigo para a democracia não chega como nos filmes"

Eurodeputados alertam para uma "descrença das capacidades" do 25 de Abril

O 25 de Abril de Sérgio Godinho: de Vancouver para um Portugal em festa