Que memória e lições ficam do 25 de Abril? Na véspera das celebrações da revolução dos cravos, a Euronews conversou com seis eurodeputados de todos os espetros políticos.
Com os olhos no passado e no futuro, os eurodeputados reconhecem a importância do 25 de abril num contexto nacional e europeu, apesar de alertarem para uma gradual perda do significado desta data à medida que as gerações evoluem.
As atribuições são variadas, mas ao longo do espetro político parece existir um consenso: o representante do Chega no Parlamento Europeu reconhece uma "importância histórica" enquanto o representante do PCP considera um "momento absolutamente marcante".
Ainda assim, os eurodeputados acreditam que se está a passar por uma fase de "descrença das capacidades do 25 de Abril" e de uma "perda de consciência" da data, especialmente entre as novas gerações.
"Talvez estejamos todos a viver uma fase em que à nossa volta se instalou alguma descrença sobre a capacidade do 25 de Abril de cumprir os seus grandes objetivos, que eram a democracia materializada, mais do que a democracia apenas de valores," afirma Marta Temido, eurodeputada do grupo Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu.
"Em geral, talvez tenha havido uma perda de consciência das novas gerações que não viveram esse período e de como é viver sem as liberdades que nós damos por garantidas," acrescenta Ana Vasconcelos, eurodeputada do grupo Renew Europe/Iniciativa Liberal. "Talvez por aí haja uma consciência de que estas liberdades não se podem dar por garantidas ao vermos o que se passa nos Estados Unidos e outros países, como por exemplo, a Hungria, que acaba de reverter o poder que tem estado nas mãos de Órban e que tem tido impulsos bastante autoritários."
Para António Tânger Corrêa, eurodeputado do grupo Patriotas pela Europa/Chega, a explicação passa pela passagem natural do tempo: "as gerações que estão, neste momento, ativas no país não são gerações que tivessem vivido o 25 de Abril, portanto sabem do 25 de Abril por razões históricas, por razões sociais, por razões políticas, mas não viveram o 25 de Abril, o que obviamente é uma situação que vai tender a esbater-se com o correr do tempo."
Contudo, Paulo Cunha, eurodeputado do Partido Popular Europeu/PSD, alerta que o 25 de abril "nasceu para ser uma revolução permanente, constante, uma convocação quotidiana".
Já João Oliveira, deputado do PCP e eurodeputado pelo Grupo da Esquerda no Parlamento Europeu, olha para o futuro da data nas mãos da nova geração com um lado mais positivo.
"Eu diria que para as novas gerações há um desafio muito diferente, que é o de transportar para a realidade própria que vivem as novas gerações elementos, referências e valores que são importantes e continuam a ser importantes e, particularmente, dar a ideia de que nem tudo aquilo que conhecem foi sempre assim."
Pobreza: a "chaga" da Revolução dos Cravos
Apesar dos últimos 52 anos terem tido um "saldo francamente positivo", segundo Paulo Cunha, eurodeputado do Partido Popular Europeu, há lutas inacabadas que a Revolução começou.
A erradicação da pobreza é trazida para cima da mesa pelas eurodeputadas do PS e do Bloco de Esquerda.
"O que faria do 25 de Abril um 25 de Abril perfeito era o fim da pobreza. E nós sabemos que há em Portugal ainda demasiadas pessoas, haverá sempre demasiadas ainda que haja só um, a viver em situação de pobreza. E isso é uma chaga que tornará o 25 de Abril sempre imperfeito enquanto persistir," afirma Marta Temido.
Em 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas estavam em risco de pobreza ou exclusão social em Portugal, segundo o relatório da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal).
"É preciso que as pessoas saibam que estamos a construir, com a democracia e na União Europeia, um futuro em que os filhos podem viver melhor do que os pais e não esta promessa de retrocesso que tem sido feita. É preciso que a política esteja no lugar certo, que em vez de fazer todos os favores a um sistema económico que está a criar mais pobreza, mais desigualdades, mais frustração, impor as regras que nos permitem a todos a justa aspiração e a justa conquista de uma vida melhor," reinvidicou Catarina Martins, eurodeputada do grupo da Esquerda no Parlamento Europeu.