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Crime choca itália: quatro trabalhadores imigrantes queimados vivos num carro

Calor afeta trabalhadores agrícolas em Itália, 16 de setembro de 2020 (AP Photo/Alessandra Tarantino)
Calor entre trabalhadores agrícolas em Itália, 16 de setembro de 2020 (Foto AP/Alessandra Tarantino) Direitos de autor  AP Photo
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De Cecilia Attanasio Ghezzi
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A matança de Amendolara volta a expor o uso dos trabalhadores mais frágeis e mal pagos. Em Itália, a exploração afeta pelo menos 230 mil trabalhadores agrícolas, um em cada quatro, apesar da lei considerada das mais avançadas da Europa.

A exploração de trabalhadores em Itália volta a estar no centro das atenções devido a um crime chocante: na segunda‑feira, 1 de junho, na Calábria, quatro trabalhadores agrícolas estrangeiros foram trancados num carro e queimados vivos na área de serviço de Amendolara, na estrada estatal 106, conhecida como Jónica. Menos de 24 horas depois, foram detidos dois cidadãos paquistaneses – Safeer Ahmed e Ali Raza, ambos de 31 anos – acusados de homicídio múltiplo, com várias qualificações. Foram comprometidos pelas imagens do sistema de videovigilância do posto de abastecimento onde foi encontrado o automóvel em chamas.

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“Trata‑se de um episódio de gravidade inaudita, tanto pelo número de vítimas — quatro mortos — como pela forma como ocorreu”, comentou em conferência de imprensa o procurador de Castrovillari, Alessandro D'Alessio. Respondendo às perguntas dos jornalistas, acrescentou: “A exploração organizada (chamada "caporalato" em Itália) é uma das pistas, mas não a única”.

As vítimas, explicou depois o procurador, encontravam‑se todas em Itália com autorização de residência válida, sem antecedentes criminais e viviam no país há anos. Tinham chegado à Calábria depois de terem passado pela Sardenha. Os quatro trabalhadores agrícolas mortos são o paquistanês Waseem Khan, de 29 anos, e os afegãos Amin Fazal Khogjani (28), Ullah Ismat Qiemi (19) e Safi Iayjad (27).

Reações ao crime

“O horrível homicídio dos quatro trabalhadores agrícolas na Calábria abalou‑nos a todos. (...) A Itália não recua perante a violência e a barbárie: é fundamental esclarecer plenamente este crime terrível e levar todos os responsáveis à justiça", escreveu no X a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, a propósito do homicídio dos trabalhadores em Amendolara.

No sábado realiza‑se uma manifestação da central sindical CGIL, com partida da área de serviço onde os quatro trabalhadores foram mortos, seguindo depois em cortejo até à praça de Amendolara, na zona de Cosença.

O que contou o único sobrevivente do massacre de Amendolara

Os investigadores conseguiram identificar os homens graças aos documentos encontrados no apartamento onde viviam com outros migrantes, entre os quais Mohammad Taj Alamyar, um afegão de 35 anos, em Itália há cerca de um ano, que é o único sobrevivente. Viu morrer diante dos seus olhos quatro trabalhadores agrícolas como ele, três afegãos e um paquistanês. Coberto de ligaduras, acusa sem hesitar os seus carrascos, numa entrevista à televisão pública Rai: “É máfia, máfia... São mafiosos paquistaneses”.

Num italiano hesitante, o trabalhador agrícola contou que os dois homens detidos, acusados de homicídio voluntário, eram os que exigiam dinheiro pelo transporte, que as vítimas se recusavam a pagar. Ao aperceberem‑se disso, os dois terão primeiro lançado gasolina no habitáculo e depois um isqueiro.

O afegão acrescentou que os cidadãos paquistaneses o ameaçavam a ele e aos outros com facas e pistolas para os obrigar a trabalhar e que não pagavam: “O dinheiro não nos davam; comida sim, casa sim, mas dinheiro não”.

É a única testemunha ocular da tragédia. O relato coincide com o que foi registado pelas câmaras de vigilância no interior da área de serviço. Vivia com os companheiros que viu morrer num apartamento em Villapiana, na província de Cosença. No alojamento, disponibilizado pelos próprios angariadores paquistaneses que residem no mesmo município, viviam dez pessoas.

Desde 20 de abril que, juntamente com os quatro colegas, trabalhava na apanha de morangos numa exploração agrícola em Scansano Ionico. Todas as manhãs eram os dois angariadores paquistaneses que os levavam para o local de trabalho. Nos primeiros dias terão sido pagos em dinheiro vivo, sem contrato. Depois, ao que tudo indica, foi alcançado um acordo: um salário de 45 euros por dia. “No fim, davam‑nos casa mas não pagavam o salário — relata a testemunha —. Exigiam ainda cinco euros por dia pela viagem até ao trabalho.”

O caso de Amendolara é isolado?

O mais recente relatório “Agromafie e caporalato”, publicado em 2022 pelo observatório Placido Rizzotto, da central sindical CGIL, estima que cerca de 230 mil pessoas sejam exploradas nos campos italianos, um quarto de todos os trabalhadores agrícolas. Há anos que o observatório estuda o fenómeno da exploração na agricultura, do caporalato e das infiltrações mafiosas, com um importante trabalho de recolha de denúncias e sinalizações.

Do estudo resulta que o trabalho irregular tem uma incidência elevada sobretudo na Apúlia, Sicília, Campânia, Calábria e Lácio, onde se estima que mais de 40 por cento dos trabalhadores tenha um contrato irregular ou nem sequer tenha contrato. Em muitas regiões do norte a taxa de irregularidade é apenas ligeiramente mais baixa, entre 20 e 30 por cento.

Existe uma lei contra o caporalato?

A Lei 199 contra o caporalato foi aprovada em 2016 pelo governo Renzi e assenta em dois eixos: repressivo e preventivo. O agravamento das penas e a introdução da responsabilidade não só para o angariador, mas também para o empregador produziram alguns resultados, mas a vertente de prevenção ficou estagnada, tanto pela ausência de controlos eficazes como pelo receio dos trabalhadores imigrantes que, para obterem os documentos necessários ao título de residência, aceitam trabalhar como escravos, por vezes sem remuneração, como em Amendolara, e não denunciam.

A lei prevê também a possibilidade de colocar sob administração judicial as empresas investigadas e a sua responsabilidade solidária, como demonstram os casos mais recentes no setor da moda ou na construção do consulado dos EUA em Milão. O número de processos por exploração laboral aumentou consideravelmente, mas a lei continua a ser pouco aplicada, porque tudo depende da atividade de investigação dos serviços de inspeção dos Carabinieri, da Guarda de Finanças, da polícia e da magistratura.

A lei prevê a concessão de autorização de residência ao imigrante que apresente queixa, mas o processo burocrático e os prazos são longos e, entretanto, o migrante fica sem proteção, sem trabalho, sem dinheiro e sem alojamento, ficando assim exposto à vingança violenta e à chantagem por parte dos angariadores.

Considerada de vanguarda em toda a Europa, a lei acabou por permanecer em grande medida inaplicada, tanto que, como evidenciado pelo massacre de Amendolara, o crime organizado italiano chegou mesmo a firmar um pacto de ferro com as máfias estrangeiras dos mesmos países de onde provêm os imigrantes explorados como escravos.

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