As comunidades cristã, muçulmana, hebraica e hindu de Ceuta convocaram este domingo uma concentração para exigir soluções e defender a convivência na cidade.
Ceuta enfrenta este domingo mais um dia marcado pelas consequências da entrada de migrantes oriundos de Marrocos a 30 de julho. A situação dos menores não acompanhados, a pressão sobre os recursos da cidade e o confronto entre Espanha e Itália pelos controlos fronteiriços mantêm aberta uma crise que também tem alimentado uma crescente confrontação política.
O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, reuniu-se este sábado com a ministra da Juventude e Infância, Sira Rego, para abordar em particular a situação dos menores migrantes não acompanhados. O Governo identificou 1.342 menores, embora ainda faltem outros por registar.
Após o encontro, Vivas reiterou (fonte em espanhol) que a posição do seu executivo passa pelo regresso a Marrocos. “A única saída é Marrocos através da fronteira do Tarajal”, afirmou. O presidente de Ceuta descreveu ainda a situação como “absolutamente insustentável” e exigiu ao Governo central mais meios e efetivos de segurança.
O Ministério da Juventude e Infância, por seu lado, tem sublinhado a proteção dos menores e defende que cada caso deve ser analisado individualmente. Rego apoiou o reagrupamento familiar “sempre que seja possível”, mas lembrou que “muitos dos meninos e meninas migrantes não acompanhados não têm famílias, pelo que, nesses casos, as comunidades autónomas deverão exercer a sua tutela e garantir os seus direitos”.
A ministra garantiu ainda que o executivo vai mobilizar “todos os meios” para o processo de acolhimento e assegurará “todo o apoio, económico, técnico e humano a Ceuta”. Uma equipa técnica do ministério deslocou-se também à cidade para apoiar a gestão do acolhimento e a coordenação com as comunidades autónomas.
Segue-se como próximo ponto de fricção a Comissão Setorial de Infância e Adolescência convocada para 13 de agosto, na qual se discutirá a transferência de menores a partir de Ceuta. O Vox anunciou que os seus vice-presidentes com competências nesta matéria em Castela e Leão, Extremadura e Aragão não irão à reunião. A formação reiterou a sua recusa ao reparto com a mensagem “os menores com as suas famílias”.
Espanha: quatro comunidades religiosas de Ceuta saem à rua
Por outro lado, as quatro principais comunidades religiosas de Ceuta - cristã, muçulmana, hebraica e hindu - convocaram para este domingo uma concentração na Praça da Constituição com o lema “Já chega. Ceuta não se rende”.
O objetivo é lançar uma mensagem conjunta de unidade e convivência e reclamar soluções para a situação que a cidade atravessa. Durante o ato está prevista a leitura de um manifesto comum, no qual as quatro comunidades irão expressar, “com uma só voz, o seu compromisso com a defesa de Ceuta”. A UGT e a CCOO de Ceuta também anunciaram a sua participação.
O próprio Vivas pediu à população de Ceuta que participe e sublinhou que a convocatória pretende ficar à margem das diferenças partidárias. “Não é uma concentração de ninguém. Não é uma concentração de nenhum partido político. Não é uma concentração para beneficiar ninguém em particular”, afirmou este sábado. “É uma convocatória para tornar evidente que Ceuta não se rende. Que Ceuta vai seguir em frente”.
O presidente Juan Jesús Vivas tem insistido na necessidade de preservar a unidade da população e, apesar das suas críticas ao executivo central, garantiu que manterá a “lealdade institucional” e o “sentido de Estado”. Vivas considera, no entanto, que depois da crise fronteiriça de 2021 e da atual o Governo “tropeçou duas vezes na mesma pedra”.
Ayuso, Vox e o PP aumentam a pressão sobre o Governo
A crise alimentou também o confronto político pela decisão de Espanha de restabelecer temporariamente os controlos em portos e aeroportos para viajantes provenientes de Itália, depois de Roma se ter recusado a retirar os controlos impostos a passageiros chegados de Espanha após o sucedido em Ceuta.
A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, criticou a decisão na rede X: “Deixámos entrar mais de 70.000 pessoas ilegalmente só por Ceuta e proibimos a entrada aos italianos, país irmão que investe e contribui para Espanha”. Ayuso acrescentou: “É espetacular isto de virar costas ao Ocidente”.
Do lado do PP, o vice-secretário de Economia e Desenvolvimento Sustentável, Alberto Nadal, acusou o executivo de Pedro Sánchez de ter “isolado Espanha na União Europeia” com a sua política migratória e exigiu explicações no Parlamento.
A presidente da Extremadura, María Guardiola, também criticou a resposta do Governo e afirmou que “a Extremadura rejeita esta deriva”. “Isto não passa por confrontar territórios, nem por procurar fraturas para disfarçar os problemas. Trata-se de assumir a situação com humanidade, seriedade e uma voz firme”, assinalou.
O Vox, por seu turno, centrou nas últimas horas as suas mensagens em rejeitar a transferência de menores a partir de Ceuta. Além de anunciar a ausência dos seus vice-presidentes autonómicos na reunião de dia 13, a formação reiterou publicamente a sua posição com o lema “os menores com as suas famílias”.
Itália considera “inaceitável” a resposta espanhola
A tensão entre Madrid e Roma continuou este domingo. O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros e vice-presidente do Governo, Antonio Tajani, classificou como “incompreensível e totalmente inaceitável” a decisão espanhola de responder aos controlos italianos com medidas equivalentes.
“Suspendemos o espaço Schengen, como exigem os Tratados, porque aconteceu algo extraordinário em Ceuta”, afirmou Tajani numa entrevista publicada pelo jornal La Stampa. O chefe da diplomacia italiana defendeu que Roma pretende retirar as medidas quando desaparecer o risco e acusou Pedro Sánchez de ter “dramatizado” a situação.
“Não estamos contra Espanha, mas temos o dever de proteger as nossas fronteiras”, garantiu Tajani. A oposição italiana, pelo contrário, criticou o Governo de Giorgia Meloni por gerar o que considera uma crise diplomática “sem fundamento”.
Espanha e Itália comunicaram à Comissão Europeia que os respetivos controlos têm carácter temporário. O comissário europeu para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, afirmou no sábado que ambos os países lhe confirmaram essa provisionalidade e apontou sinais de que a Itália poderá levantar em breve as suas medidas.