A convocatória, pensada inicialmente como um gesto de unidade em torno dos ceutenses, acabou por decorrer sobretudo como protesto contra o governo central, reivindicando a soberania espanhola sobre este território
Mais de 10 mil habitantes de Ceuta concentraram-se este domingo para protestar contra a gestão do Estado após a travessia a nado de mais de 70 mil migrantes na semana passada, segundo os organizadores do protesto.
Embora os números oficiais da Polícia Nacional apontem para cerca de 5 mil manifestantes, metade, fontes policiais ouvidas durante a manifestação por “El Faro de Ceuta” validaram os dados avançados pelos organizadores.
Apesar do apelo à unidade das quatro comunidades religiosas da cidade, isto é, cristã, muçulmana, judaica e hindu (sendo um representante deste último clero, Ramesh Chandiraman, o leitor do manifesto conjunto), e do pedido de Juan Vivas, presidente do PP da Cidade Autónoma, para que a população participasse na manifestação independentemente da sua condição, os slogans e símbolos exibidos tiveram um tom claramente de protesto contra o Governo central.
“Não vamos desistir, vamos resistir e, juntos e unidos, havemos de seguir em frente. Mas é evidente que sozinhos não vamos conseguir, precisamos da solidariedade do resto de Espanha e que o Estado cumpra as suas obrigações, e é nisso que confiamos”, declarou ontem Vivas.
A concentração teve lugar desta vez na praça da Constituição, onde os participantes entoaram em vários momentos palavras de ordem como “Sánchez, dimisión” (Sánchez, demissão), “Ceuta española” (Ceuta espanhola) e “ilegales expulsión” (ilegais expulsão), empunhando bandeiras de Espanha e de Ceuta, embora com um claro predomínio da primeira.
Para cúmulo, o delegado do governo em Ceuta, Miguel Ángel Pérez Triano, decidiu não marcar presença multiplicando as vozes que denunciam aquilo que consideram um “abandono” por parte do governo central.
“Ceuta é Espanha”, insistiu Chandiraman, presidente da comunidade hindu de Ceuta. “Defendemos a nossa identidade espanhola assente na unidade, na convivência e no respeito mútuo”.
A incorporação de Ceuta na antiga Coroa de Castela data de 1668, após dois séculos de domínio português, na sequência da conquista de João Vaz de Almada, membro do conselho privado de Afonso V de Portugal durante a Reconquista.
Apesar do tom da manifestação, sindicatos oficialistas e próximos do governo, como a UGT Ceuta e a CC.OO., também se juntaram à concentração. No seu comunicado, a UGT afirmou que o executivo de Pedro Sánchez deve fornecer à cidade os recursos necessários para enfrentar situações deste tipo.
Meia hora depois, o ato deslocou-se para as imediações da Delegação do Governo, na praça de los Reyes, onde os manifestantes dirigiram críticas a Pérez Triano. Após pouco mais de uma hora de protestos, a manifestação terminou sem incidentes, ao contrário dos momentos de tensão registados na semana passada entre contramanifestantes e organizadores de outras iniciativas semelhantes.