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TikTok e os finfluencers: quão fiáveis são os conselhos financeiros para jovens investidores

ARQUIVO - Jovens usam os telemóveis para ver redes sociais em Sydney, 8 de novembro de 2024.
ARQUIVO – Jovens utilizam os telemóveis para ver redes sociais em Sydney, 8 de novembro de 2024. Direitos de autor  AP Photo
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De Tamsin Paternoster
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Cada vez mais jovens recorrem às redes sociais para obter informação e conselhos financeiros, num mar de dicas duvidosas. Que sinais de alerta apontam os especialistas?

“As ações do setor da defesa transformam 95% das pessoas em milionários”, afirma um homem aos seus seguidores num vídeo no TikTok, antes de indicar algumas empresas do setor da defesa.

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É apenas um de vários vídeos que oferecem conselhos de investimento: alguns mostram criadores de conteúdos, outros recorrem a personas geradas por IA para sugerir ações e dar conselhos financeiros a utilizadores das redes sociais na Europa.

Mas até que ponto é que estes conselhos são dignos de confiança?

Uma nova análise a 150 vídeos populares de finanças no TikTok, realizada pelo site de comparação de corretores BrokerListings.com, sugere que os espectadores devem ser cautelosos.

Os vídeos analisados tinham pelo menos 100 mil visualizações cada e abordavam temas que iam das ações e das criptomoedas ao endividamento e às finanças pessoais.

A plataforma concluiu que mais de 70% dos criadores dos vídeos não apresentavam um percurso claro em serviços financeiros nem qualificações adequadas para prestar aconselhamento fiável ao público.

Além disso, mais de 60% dos vídeos não explicavam de forma adequada os potenciais riscos ou desvantagens dos produtos financeiros ou das situações que abordavam.

As conclusões surgem numa altura em que os reguladores enfrentam cada vez mais o impacto das redes sociais sobre os jovens investidores.

Ulf Linke, especialista em proteção dos consumidores na autoridade de supervisão financeira alemã BaFin, disse ao The Cube, a equipa de verificação de factos da Euronews, que o organismo observa “uma tendência clara” para a partilha de dicas de investimento nas redes sociais, em especial entre os mais jovens.

Um inquérito da BaFin, realizado em 2024, concluiu que mais de metade dos investidores das gerações Millennial e Z consideram as redes sociais uma fonte fiável de informação financeira, enquanto 60% as veem como uma boa alternativa ao aconselhamento financeiro profissional.

Em abril, o Parlamento Europeu apoiou a definição de normas mínimas para os chamados “finfluencers”, influenciadores que dão conselhos financeiros nas redes sociais, citando em particular riscos como publicidade encoberta, declarações enganosas, burlas e conteúdos financeiros gerados por IA.

Segundo os eurodeputados, as redes sociais tornaram-se uma fonte “primária” de informação financeira para muitos jovens.

A Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) emitiu também este ano orientações para finfluencers, alertando que as regras sobre recomendações de investimento podem aplicar-se aos conteúdos financeiros publicados nas redes sociais.

Ao abrigo destas regras, quem recomenda um investimento pode ter de explicar claramente quem é, separar factos de opiniões e revelar se pode beneficiar financeiramente daquilo que está a promover.

Mesmo a simples expressão pública de uma opinião sobre se uma ação ou uma criptomoeda vai subir ou descer pode, em certas circunstâncias, constituir uma recomendação de investimento.

“Declarações de exoneração de responsabilidade como ‘isto não é um conselho de investimento’ não o protegem nestes casos”, alerta a ESMA.

Porque pode ser arriscado seguir conselhos financeiros no TikTok?

O formato dos vídeos nas redes sociais é uma das principais razões pelas quais estes se tornam uma fonte precária de informação sobre finanças ou gestão do orçamento, afirmam os investigadores, já que a sua curta duração pode deixar de fora muito contexto importante.

Segundo James Barra, responsável de conteúdos e investigação na BrokerListings, a natureza dos vídeos curtos em plataformas como o TikTok e o Instagram não se presta necessariamente ao tipo de explicações mais longas e equilibradas que muitos produtos financeiros exigem.

Um vídeo curto que promova um “biscate” paralelamente ao trabalho principal ou um esquema para enriquecer depressa pode ser mais cativante, disse, do que uma explicação mais longa que pondere tanto os potenciais ganhos como os riscos.

Os conselhos podem também chegar a pessoas com níveis de conhecimento e experiência financeira muito diferentes.

Um determinado investimento, por exemplo, pode representar apenas uma pequena parte da carteira de um investidor experiente, mas ser muito mais arriscado para um jovem que aplique ali uma fatia grande das poupanças.

“E esse tipo de nuance… não cabe necessariamente nestes vídeos curtos no TikTok”, disse Barra ao The Cube.

A BrokerListings concluiu também que os conteúdos mais preocupantes não provinham necessariamente dos maiores influenciadores de finanças do TikTok.

Segundo Barra, os grandes influenciadores e as parcerias comerciais atraem uma fiscalização mais apertada por parte dos reguladores e das próprias plataformas, enquanto criadores mais pequenos, com conteúdos orgânicos, podem alcançar audiências significativas, mas ser alvo de menos escrutínio.

O TikTok disse-nos que as suas Regras da Comunidade para bens, serviços e atividades comerciais reguladas definem normas aplicáveis a este tipo de conteúdos. A plataforma afirmou que toma medidas de aplicação, incluindo a remoção de conteúdos, quando conclui que há violação dessas regras.

O TikTok proíbe igualmente fraudes financeiras e afirmou que 99% dos vídeos removidos por violarem as suas políticas sobre fraude e burlas no primeiro trimestre de 2026 foram eliminados de forma proativa, antes de serem denunciados pelos utilizadores.

É tudo pouco fiável?

Apesar das preocupações, nem todo o conteúdo financeiro nas redes sociais é pouco fiável. A BrokerListings afirma que os seus investigadores encontraram também criadores que partilham informação útil sobre temas como elaboração de orçamentos, gestão de dívidas, criação de poupanças de emergência e investimento a longo prazo.

As redes sociais podem ainda constituir uma via alternativa para os jovens aprenderem sobre finanças pessoais.

“Não se aprende isto na escola, não se aprende na universidade”, disse Barra. “Muitas pessoas também não aprendem com os pais.

Existem igualmente canais de educação financeira já estabelecidos que seguem uma abordagem diferente das escolhas rápidas de ações e das promessas de grandes retornos que se encontram noutras partes das redes sociais.

Por exemplo, o canal alemão Finanzfluss (“fluxo financeiro”, em inglês), apresentado pelo antigo analista de banca de investimento Thomas Kehl, construiu uma vasta audiência online em torno da educação financeira, produzindo conteúdos sobre temas como ETF (fundos transacionados em bolsa), noções básicas de investimento, poupança e planeamento da reforma.

Num TikTok recente, o canal aborda o crescimento dos ETF de gestão ativa nos Estados Unidos e na Europa, explicando o produto e a evolução do mercado em vez de direcionar os espectadores para uma ação específica e de lhes prometer retornos.

Como identificar conselhos financeiros pouco fiáveis online?

Ainda assim, os especialistas alertam que os utilizadores devem olhar com atenção para quem está por detrás dos conteúdos financeiros que veem.

De acordo com Linke, criadores credíveis devem identificar-se, fornecer contactos verificáveis, revelar potenciais conflitos de interesses e explicar o percurso profissional que os habilita a falar sobre investimentos.

Se esta informação não estiver disponível, os investidores não devem confiar nas dicas de investimento, acrescentou.

Linke avisou também que os utilizadores devem desconfiar de conselhos que prometem retornos elevados sem explicar os riscos e não ceder à pressão ou ao receio de perder possíveis ganhos.

Outro sinal de alerta, segundo Barra, são conteúdos construídos em torno de demonstrações de riqueza, como carros caros, hotéis de luxo ou outras sugestões de que seguir uma determinada estratégia de investimento pode levar a um estilo de vida semelhante.

A urgência é outro fator a suscitar dúvidas. Barra apontou vídeos que dizem aos espectadores que uma ação está prestes a disparar ou a colapsar, ou que sugerem que existe apenas uma janela de tempo muito curta para comprar uma determinada criptomoeda.

Mais jovens recorrem a vídeos nas redes sociais para obter conselhos de investimento.
Mais jovens recorrem a vídeos nas redes sociais para obter conselhos de investimento. Cleared

Os utilizadores das redes sociais devem também considerar se um criador está a beneficiar financeiramente do que promove, uma vez que alguns recebem comissões quando um utilizador se inscreve numa plataforma de negociação através da sua ligação.

Este tipo de patrocínios ou relações de afiliado não significa que a informação seja pouco fiável, mas as regras europeias exigem que estes conflitos de interesses sejam divulgados.

A ESMA recomenda que os consumidores confirmem a informação encontrada nas redes sociais com outras fontes antes de tomarem decisões financeiras.

Isso pode passar por consultar informação publicada por reguladores financeiros como a ESMA ou por autoridades nacionais como a BaFin alemã, verificar relatórios oficiais de empresas quando um vídeo faz afirmações sobre uma empresa concreta e procurar a cobertura de órgãos de comunicação especializados em informação financeira.

Os investidores podem também recorrer aos registos das autoridades nacionais de supervisão para verificar se uma empresa ou indivíduo que presta serviços financeiros está autorizado a fazê-lo.

Em última análise, a rapidez com que um utilizador pode passar de ver um TikTok a arriscar o seu próprio dinheiro torna esse escrutínio cada vez mais importante.

Barra descreveu como alguém pode ver um vídeo que recomenda várias ações, perguntar a um chatbot de IA se se trata de bons investimentos e, de seguida, abrir uma aplicação de negociação e comprá-las, tudo em poucos minutos.

“Todo este percurso pode ser muito mais rápido do que era antes”, resumiu.

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