Durante anos afastado da cena internacional após o assassínio do jornalista e dissidente saudita Jamal Khashoggi, “MBS” voltou nos últimos anos a ser tratado como parceiro estratégico. Na mesa estão vários temas, mas não os direitos humanos, aparentemente.
O presidente francês Emmanuel Macron recebe este domingo o príncipe herdeiro e dirigente de facto da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, para uma visita de dois dias, com um programa que vai do desporto eletrónico à guerra no Médio Oriente.
Vários acordos nas áreas da saúde, dos transportes e da energia serão assinados esta segunda-feira, segundo dia da visita, segundo uma fonte da Presidência francesa, sinal da solidez das relações entre Paris e Riade. Os dois responsáveis devem abordar os “grandes temas económicos e estratégicos que estruturam a parceria franco-saudita”, nomeadamente na energia, aeronáutica e defesa, indicou ainda a Presidência.
De acordo com o comunicado do Eliseu, esta visita “traduz a vitalidade do diálogo entre o Reino da Arábia Saudita e França e permitirá reforçar a parceria estratégica que liga os dois países. Para tal, o Presidente da República e o príncipe herdeiro vão reunir-se pela primeira vez no Conselho de parceria estratégica franco-saudita”.
A visita começa, porém, num registo diferente na noite de domingo: Emmanuel Macron recebe o homem forte da Arábia Saudita – conhecido pelas iniciais MBS – na cerimónia de encerramento do Campeonato do Mundo de desporto eletrónico, que decorre em Paris.
Ainda segundo a Presidência, “organizado pela primeira vez fora da Arábia Saudita desde a sua criação, a realização deste campeonato de dimensão mundial em Paris mostra a atratividade renovada de França para acolher grandes eventos desportivos internacionais” e “ilustra também a ambição comum de França e da Arábia Saudita de fazer do desporto e da cultura vetores da sua aproximação”.
O evento, que reúne a elite do desporto eletrónico – dos videojogos ao xadrez – e conta com o apoio ativo de MBS, realiza-se pela primeira vez fora da Arábia Saudita.
A mesma fonte da Presidência francesa escusou-se a dizer se os acordos poderão abranger o vasto projeto de parque temático “Dragon Ball”, apoiado por um fundo saudita e previsto para o Val-d’Oise, na região parisiense.
A Arábia Saudita prepara-se também para acolher uma série de grandes eventos mundiais, entre eles a Exposição Universal de 2030 e, sobretudo, o Campeonato do Mundo de futebol de 2034.
Arábia Saudita: direitos humanos em cima da mesa?
A Arábia Saudita, aliada próxima dos Estados Unidos e com relações historicamente tensas com o Irão, acompanha de perto a evolução da situação na República Islâmica na sequência do conflito americano-israelita.
Na segunda-feira à tarde, MBS e Emmanuel Macron vão presidir à primeira reunião do Conselho de parceria estratégica franco-saudita. Os dois dirigentes “vão trocar pontos de vista sobre as principais questões regionais, num contexto que exige uma coordenação estreita entre a França e os seus parceiros do Golfo em favor da estabilidade e da paz no Próximo e Médio Oriente”, segundo ainda a fórmula usada pelo Eliseu.
Resta saber se a questão dos direitos humanos terá lugar de destaque na ordem de trabalhos, cerca de oito anos após o assassínio e esquartejamento do jornalista dissidente saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2018.
Uma investigação das Nações Unidas qualificou a morte de Jamal Khashoggi como “execução extrajudicial da qual a Arábia Saudita é responsável”. Os serviços de informação norte-americanos concluíram que MBS “aprovou” a operação que levou ao assassínio de Khashoggi. Riade nega estas acusações, atribuindo-as a agentes que teriam agido por iniciativa própria.
Em dezembro de 2021, Emmanuel Macron tornou-se um dos primeiros líderes ocidentais a encontrar-se com MBS na Arábia Saudita após o assassínio de Khashoggi. Em julho de 2022, foi bin Salman quem veio a Paris – receção que suscitou fortes críticas à esquerda, relatava na altura o Le Parisien: _“_No menu do jantar entre Emmanuel Macron e ‘MBS’, o corpo esquartejado do jornalista [Jamal] Khashoggi? (…) Não! Petróleo e armas!”, denunciou então o ecologista Yannick Jadot. Julien Bayou, na altura secretário nacional do partido Europe Ecologie-Les Verts, considerou, por seu lado, que “França não é um capacho para ditadores em busca de reabilitação na cena internacional”.
Desde então, o príncipe herdeiro saudita realizou várias visitas a França: a Arábia Saudita é demasiado importante, do ponto de vista económico e regional, para que o país possa deixar a relação degradar-se por muito tempo.
Por fim, o fator petrolífero – Riade é o maior exportador mundial de crude –, sobretudo num contexto de invasão russa da Ucrânia e de vontade europeia de se libertar dos combustíveis do Kremlin, vem apenas completar esta reabilitação.