Em criança, Marcos Rodríguez Pantoja viveu mais de uma década isolado em ambiente selvagem, rodeado de animais, o que lhe valeu o títutlo de "rapaz lobo". Acabou por morrer aos 80 anos em Rante, pequena localidade da província espanhola de Ourense, a que chamou a casa nos últimos anos.
Marcos Rodríguez Pantoja, o famoso "menino lobo" espanhol, faleceu no sábado, 15 de agosto, aos 80 anos de idade. Rodríguez foi um dos poucos casos documentados a nível mundial de uma criança que cresceu longe de seres humanos.
Nascido em 1946, num país que então procurava recuperar de uma guerra civil e de uma guerra mundial, Rodríguez cresceu primeiro na aldeia andaluza de Añora.
A vida de Rodríguez foi marcada por pobreza, fome e e maus tratos. O pai mal conseguia sustentar a família, enquanto a madrasta o tratava com brutalidade. Aos seis anos, foi vendido pelo próprio pai a um pastor de cabras, que o deixou num vale isolado, onde devia guardar o gado juntamente com um velho pastor. Esse pastor ensinou-lhe como sobreviver na montanha e aproveitar os recursos disponíveis.
Marcos acabou por ficar entregue a si próprio após a morte do pastor, transformando a natureza selvagem na sua casa e os animais que o rodeavam na sua família.
Durante 12 anos, Rodríguez viveu sem qualquer contacto humano e desenvolveu formas próprias de comunicação. Dominava os sons dos animais – do canto das aves ao bramido dos veados – e estava convencido de que conseguia comunicar sem esforço com raposas, lobos e até cobras. Ao longo de todos esses anos preferiu manter-se longe da civilização, fugindo sempre que ouvia vozes humanas na serra.
Rodríguez ganhou a confiança de uma alcateia de lobos ao alimentar as crias e uivar sempre que pressentia perigo.
Entre novembro de 1975 e abril de 1976, o antropólogo Gabriel Janer Manila, realizou, no âmbito de um estudo de ciências sociais, várias entrevistas com Rodríguez para a Faculdade de Filosofia da Universidade de Palma de Maiorca, acabando por se tornar amigo de Marcos. O professor considerou que Rodríguez sobreviveu graças à inteligência e à imaginação, descrevendo, na sua tese de doutoramento, as diferentes fases do processo de adaptação à visa selvagem, como a integração na comunidade, a linguagem e comunicação com os animais. .
“Chorei e eles saltaram para cima de mim… depois mostraram-me o caminho até à sua toca, o covil dos lobos”, relatou Rodríguez ao antropólogo, descrevendo como ganhou a confiança dos lobos e surgiu, mais tarde, uma espécie de simbiose com estes animais.
“Quando queria pescar, ia ao rio e pescava; quando queria um coelho, apanhava-o; quando queria um veado, chamava os meus pais, os lobos, lançava um uivo, escondia-me no rio e os lobos faziam descer os animais até junto de mim”, recordou.
Janer publicou mais tarde o estudo em Espanha, com o título He jugado con lobos.
Em 2010, uma equipa do programa Informe Semanal, da TVE, entrevistou Rodríguez na sua terra natal, Añora. Nessa altura, regressava à localidade pela primeira vez em 60 anos. Em frente às câmaras recordou que não teve problemas em viver uma vida sem as comodidades da civilização. “Sentia-me muito bem. Não sabia o que era o dinheiro, mas tinha sempre comida suficiente.”
Quando, em 1965, foi encontrado pela Guardia Civil, aos 19 anos, teve de voltar a habituar-se a viver em sociedade: um processo de adaptação difícil e prolongado. Dizia que o verdadeiro sofrimento só começou quando foi descoberto e obrigado a integrar-se na sociedade.
Ingenuidade infantil
Segundo quem o conheceu, mantinha um lado infantil, era “ingénuo” perante a sociedade e não falava um espanhol totalmente fluente.
Marcos Rodríguez Pantoja viveu em Jaén com um padre, mais tarde em Madrid com freiras, cumpriu serviço militar e acabou por se estabelecer em Maiorca, onde trabalhou em hotéis e restaurantes.
O "menino lobo" decidiu partilhar a sua história com o objetivo de “proteger a natureza e promover uma melhor compreensão dela, porque nos afastámos demasiado”.
A sua vida foi também adaptada ao cinema através do filme Among Wolfs (Entre Lobos em português), realizado em 2010.
Marcos estava estabelecido em Rante, município de San Cibrao das Viñas, na província espanhola de Ourense, desde 2001.
“O Marcos chegou a Rante com uma história que era conhecida em todo o mundo. Deixa uma história que também passou a ser nossa”, escreveu o município nas redes sociais.