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Fundadora do movimento das Mulheres Conservadoras: "Havia um vazio que precisava de ser preenchido"

Movimento "Mulheres Conservadoras PT"
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De Ana Filipa Palma
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Fundadora do novo movimento recusa título de "antifeminismo", afirmando que muitas mulheres “deixaram de se rever no feminismo contemporâneo”. A Euronews falou com especialistas em Ciência Política para perceber o fenómeno, que inclui deputadas do Chega e influenciadoras entre as embaixadoras.

“Há mulheres que seguem tendências. Outras seguem princípios.” Foi com este mote que um grupo de mulheres criou recentemente o movimento “Mulheres Conservadoras Portugal”, um novo movimento político e social próximo da direita conservadora. Entre as suas embaixadoras estão deputadas do Chega e influencers portuguesas e brasileiras.

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Apesar de pouco se saber sobre o grupo e de a sua oficialização estar prevista para novembro, as “Mulheres Conservadoras” já dão muito que falar nas redes sociais, em tertúlias televisivas ou em colunas de opinião de jornais.

Um dos rostos que deu a cara pelo movimento, tendo sido oradora no pré-lançamento do grupo, no dia 11 de julho, no Palácio Valenças, em Sintra, foi a influenciadora Rute Sousa.

Alguns dos seus comentários, nomeadamente num programa de debate na SIC Notícias, no âmbito da criação do movimento, têm adensado a controvérsia. A especialista em comunicação mostrou-se contra o aborto "em qualquer circunstância", mesmo quando uma mulher é violada.

Mas, afinal, quem são estas “Mulheres Conservadoras”?

O grupo apresenta-se como um novo movimento político e social com valores conservadores. Rebeca Batista, fundadora, indica que este "nasceu de conversas entre mulheres que já se conheciam e que foram percebendo, aos poucos, que havia um vazio que precisava de ser preenchido".

"Muitas deixaram de se rever no feminismo contemporâneo", explicou à Euronews.

"O que questionamos é a deriva mais recente, em que uma lógica de direitos universais foi sendo substituída por uma leitura identitária e conflito permanente entre grupos. Isso torna-se concreto quando direitos conquistados pelas mulheres com base no sexo, no desporto, nos espaços reservados, no sistema prisional, e que colidem com direitos reivindicados com base na 'identidade de género'".

Entre algumas das figuras envolvidas destacam-se as deputadas do Chega Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro; Lorena Gato, criadora de conteúdos online que se autodescreve como “embaixadora do Reino de Deus vivendo contra a cultura do mundo”; a já referida Rute Sousa, produtora de conteúdos e defensora do Estado de Israel, que foi uma das influencers digitais que viajou para Israel há poucas semanas, a convite do país. E a fundadora Rebeca Batista, dirigente de uma fundação evangélica.

Entre as oradoras, na apresentação, estiveram também figuras da direita nacional e internacional, como a chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP, Catarina Nicolau Campos, e a deputada brasileira bolsonarista Priscila Costa.

Em entrevista à Euronews, a professora de Ciência Política do ISCSP e socióloga Paula Espírito Santo considera que o movimento conservador feminino pretende “repescar ou encontrar valores tradicionais de uma família com um protótipo normativo que está muito fora da ideia do feminismo, em que a afirmação da mulher faz-se para além da família e faz-se também pelos próprios valores daquilo que é a identidade e das competências e daquilo que é a liberdade de escolha”.

Em abril de 2026, as investigadoras Sílvia Roque, Rita Santos e Júlia Garraio publicaram um estudo sobre o papel das mulheres na articulação e disseminação do discurso antifeminista na extrema-direita portuguesa.

Em declarações à Euronews, as investigadoras estabeleceram paralelos entre o novo movimento e a antiga estrutura “Mulheres do Chega”, criada em 2020. Sílvia Roque considera que o atual projeto procura ultrapassar o enquadramento partidário e assumir-se como uma estrutura “transpartidária” e “profissionalizada” com embaixadoras e “ligações transnacionais explícitas ao ecossistema bolsonarista/evangélico brasileiro”.

Para a professora de Ciência Política do ISCSP, Paula Espírito Santo, o movimento vem formalizar-se “do ponto de vista organizativo” e fortalecer algumas ideologias da extrema-direita.

“Eu acho que é um movimento de afirmação, sobretudo simbólico. Estes movimentos não têm propriamente uma força efetiva do ponto de vista formal ou político, mas acabam por ser um respaldo às pretensões da religião, do catolicismo, do cristianismo, da corrente evangélica, da ideia de preservação da vida e, no fundo, daquilo que defende o Chega”, explica.

André Ventura, do partido populista Chega, chega para um debate televisivo com o seu adversário António José Seguro. 27 de janeiro de 2026.
André Ventura, do partido populista Chega, chega para um debate televisivo com o seu adversário António José Seguro. 27 de janeiro de 2026. Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved

A relação com a extrema-direita

Paula Espírito Santo considera que o movimento surge como mais uma “âncora para o Chega” - um dos partidos na oposição no parlamento, a par com o PS - com o objetivo de chegar a outros públicos, como a comunidade evangélica, e conquistar eleitorado.

“No fundo, é a diversificação da palavra política com eventuais efeitos eleitorais, se pensarmos que isto pode agradar também a outros grupos conservadores no plano religioso”, defendeu.

Rita Santos, uma das autoras do estudo e investigadora na Universidade de Coimbra, considera que, mesmo que o grupo não tenha sido criado dentro de um partido, “uma organização deste género pode ser estrategicamente muito vantajosa para a extrema-direita”, porque permite “apresentar determinadas posições” não como sendo do partido, “mas como preocupações de mulheres comuns, mães, esposas”.

Esta ideia vai ao encontro de outro fenómeno relevante e abordado pelas três investigadoras no seu estudo: a dimensão da voz feminina em determinados contextos, como no discurso antifeminista. Ou seja, uma mulher acaba por, junto de outras mulheres, ter maior legitimidade do que um homem para proferir um discurso antifeminista.

“Se uma mulher que diz ‘o feminismo não me representa’ contribui implicitamente para a normalização do antifeminismo, um grupo ou organização especificamente feminina multiplica esse efeito, permitindo que a extrema-direita comece a aparecer como um espaço que dá às mulheres a oportunidade de falar em nome próprio”, explica Rita Santos, especialista nas áreas de Feminismo, Relações Internacionais e Estudos de Segurança.

A fundadora do movimento, Rebeca Batista, recusa "qualquer relação institucional ou privilegiada com o Chega", apesar de, atualmente, existir "uma presença mais visível de mulheres ligadas ao Chega".

"O Chega assume hoje uma matriz conservadora mais evidente, o CDS tem essa tradição, mas dimensão parlamentar menor, e o PSD é historicamente abrangente", explicou, reforçando que o movimento conta "com mulheres do Chega, do PSD e do CDS, e estamos abertas a mulheres de outros partidos ou sem filiação nenhuma".

“Ser conservadora não significa automaticamente ser antifeminista”

Nas redes sociais, tem sido muito debatida a configuração deste movimento dentro do “conservadorismo”, com algumas vozes a questionar a categorização do grupo.

Questionada se são um movimento antifeminista, Rebeca Batista explica que o "antifeminismo é um movimento político reacionário que se limita à produção de contra-narrativas", indicando que "não é, nem de longe, isso que queremos".

"Reconhecemos, antes de mais nada, que existe um sofrimento que é específico da condição feminina. Reconhecemos que ser mulher torna-nos mais vulneráveis, mais dependentes da comunidade e dos homens e que, portanto, precisamos buscar também na política a garantia de um espaço que possa integrar esse modo específico de ser", explicou a fundadora do movimento.

Já as investigadoras dizem que o antifeminismo é uma das bandeiras das “Mulheres Conservadoras Portugal”; contudo, deixam claro que “ser conservadora não significa automaticamente ser antifeminista”.

Segundo Rita Santos, as participantes do grupo apresentam “definições diferentes, contraditórias e mesmo não coincidentes com o conservadorismo”.

“Uma mulher pode valorizar a família tradicional, a maternidade ou a religião e, simultaneamente, defender a igualdade jurídica, política e económica entre mulheres e homens”, esclarece a investigadora à Euronews.

O mesmo acontece com a oposição ao aborto. Uma mulher pode ser contra, mas essa ser a sua escolha individual, e defender que essa oposição não seja “uma imposição para as outras mulheres”, explica. É isto que, por si só, pode mostrar se uma pessoa é antifeminista.

A investigadora esclarece ainda que o que “transforma uma conservadora em ‘antifeminista’” é “negar que exista desigualdade estrutural/institucional de género”, bem como “enquadrar o feminismo como ideologia adversária a combater e ameaça à família, nação e ordem social e moral”.

Para as investigadoras, não há dúvidas de que o “Mulheres Conservadoras Portugal” “é um grupo claramente antifeminista”, algo que é facilmente percebido nos seus discursos, principalmente nos das três deputadas do Chega analisados pelas investigadoras no âmbito do seu estudo.

Ligação com a Igreja Evangélica

Apesar de não existir uma ligação oficial e institucional do partido Chega à Igreja Evangélica, em 2020 surgiram alegações de que o partido era apoiado por “lóbis evangélicos”.

Já em relação a este movimento de mulheres, a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) veio, entretanto, distanciar-se: "Não podemos aceitar em silêncio que um grupo inteiro de pessoas de paz seja denegrido, por associação, com base em generalizações não fundamentadas sobre um fenómeno político que lhe é, na sua esmagadora maioria, alheio", é possíve ler num comunicado, publicado no site da organização, que reiterou ser "apartidária".

"Não nos associamos a movimentos políticos, não os apoiamos nem os condenamos enquanto organização, e não recomendamos aos crentes evangélicos qualquer voto ou filiação partidária".

Apesar da proximidade apontada com o Chega, o movimento de “Mulheres Conservadoras” aproximou-se do evangelismo, até porque Rebeca Batista é líder nacional da Foursquare Youth Portugal, estrutura ligada à Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular, uma corrente do cristianismo evangélico.

Júlia Garraio, outra das investigadoras do estudo “Mobilização feminina e enquadramentos discursivos antifeministas na extrema-direita portuguesa”, considera que as igrejas evangélicas “têm assumido um papel cada vez mais relevante na expressão política do conservadorismo e do antifeminismo, em detrimento da influência, por exemplo, da Igreja Católica que, apesar de ter criado o conceito ‘ideologia de género’, acabou por perder o controlo desta agenda”, referiu à Euronews.

Para a investigadora da Universidade de Coimbra, contudo, não se devem aglomerar “os evangélicos” e considera que aqui estão em causa apenas “algumas redes e lideranças evangélicas conservadoras, sobretudo aquelas que transformam questões como aborto, educação sexual, género e família em temas de mobilização política”, esclarece.

Redes sociais e influencers são chave do movimento

As redes sociais têm desempenhado um papel muito forte e crucial na propagação de vários conteúdos, principalmente porque conseguem passar fronteiras.

“Uma influenciadora brasileira pode ter uma audiência portuguesa sem precisar de qualquer organização formal em Portugal. Conceitos, slogans, vídeos e enquadramentos políticos circulam quase instantaneamente”, relembra Sílvia Roque, destacando, por isso, o papel fundamental deste espaço para “a participação das mulheres na disseminação do extremismo, do supremacismo branco e da oposição ao feminismo”.

As redes sociais são o meio por onde passa a mensagem, mas aqui temos sempre de olhar para o mensageiro e é neste contexto que surgem as influencers.

“As influencers são talvez uma das figuras mais interessantes deste processo porque estão na fronteira entre política e quotidiano”, esclarece Sílvia.

Estas figuras acabam por chegar a outros públicos porque nem sempre são políticos e não têm nem a imagem nem o discurso dos mesmos, que muitas vezes afastam as pessoas da política. “Falam de maternidade, casamento, educação dos filhos, religião, beleza, relações ou estilos de vida, e é através desses temas aparentemente privados que determinadas conceções políticas sobre género e sociedade podem ser normalizadas”, acrescenta.

As investigadoras referem estudos realizados sobre mulheres influenciadoras, nos quais é analisada a presença nas redes sociais. “A forma como promovem um estilo de vida dito feminino e incentivam as mulheres a tornarem-se donas de casa tem sido crucial para radicalizar as suas seguidoras, combater o feminismo e fomentar o nacionalismo branco, concluindo que as mulheres da extrema-direita tornam o extremismo mais próximo, familiar e identificável”, afirma Júlia Garraio.

Mulheres Conservadoras quererão constituir-se como partido?

Apesar de não se constituir como um partido, o movimento pode desempenhar um papel de influência importante na vida pública e política portuguesa.

"Ser apartidário não é ser apolítico. Sabemos que a simples manifestação de uma opinião, qualquer que seja ela, já é, afinal, uma forma de fazer política", explica Rebeca Batista. "Queremos contribuir para o debate e apresentar propostas concretas, sobretudo na proteção das mulheres, na maternidade e em políticas pró-vida".

Para a fundadora, o tema da Educação é também uma preocupação do movimento, nomeadamente as reservas apresentadas sobre "certas discussões sobre 'identidade de género'".

"Defendemos conteúdos adequados à idade e um papel central das famílias nas matérias de maior sensibilidade ética. Temos reservas quanto à introdução precoce de certas discussões sobre 'identidade de género' junto de crianças muito pequenas: aos cinco ou seis anos, a prioridade da escola é dar ferramentas para aprender e crescer, respeitando o papel dos pais na educação".

Após a oficialização do grupo, será o próximo passo a criação de um partido político?

“Um partido próprio parece pouco provável e pouco racional, pois perderia justamente a vantagem que procuram construir, que é ser um grupo transpartidário e poder alimentar simultaneamente CH, PSD e CDS-PP sem competir eleitoralmente com nenhum deles”, assegura a investigadora Sílvia Roque.

Júlia Garraio acrescenta que a vantagem de permanecer como um movimento é precisamente criar “uma infraestrutura de mobilização” através de “eventos, redes sociais, formação que pode ser ativada eleitoralmente sem estar amarrada às contas ou à disciplina de um partido”.

Além disso, Rita Santos recorda que “uma mulher pode não querer filiar-se no Chega ou sequer identificar-se como de extrema-direita, mas mobilizar-se enquanto mãe, católica ou evangélica, defensora da família, contra o aborto ou contra aquilo que estes movimentos chamam ‘ideologia de género’”. É uma identidade potencialmente mais abrangente e socialmente mais aceitável”, conclui.

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