"Desejamos servir a missão que define o coração da Igreja Católica, universal pela própria vocação", afirmou o cardeal Mauro Gambetti.
O Vaticano vai passar a disponibilizar traduções em direto das missas em 60 línguas, apoiadas por inteligência artificial (IA), numa altura em que a Igreja Católica começa a adotar esta tecnologia e, ao mesmo tempo, a dar ouvidos aos alertas que a rodeiam.
O serviço vai permitir aos fiéis acompanhar as celebrações nos seus smartphones e deverá arrancar já na próxima semana, nas principais cerimónias na Basílica de São Pedro, que assinalam o quarto centenário da dedicação da igreja, celebrado entre 1626 e 2026.
“Há séculos que a Basílica de São Pedro acolhe fiéis de todas as nações e línguas”, afirmou o cardeal Mauro Gambetti, arcipreste da Basílica de São Pedro e vigário-geral da Cidade do Vaticano, em comunicado.
“Ao disponibilizar uma ferramenta que ajuda muitos a compreender as palavras da liturgia, queremos servir a missão que define o centro da Igreja Católica, universal pela própria vocação”, acrescentou.
A tradução com recurso a IA será feita através de um código QR que os participantes podem ler à entrada do Vaticano. A partir daí, terão traduções em tempo real, em áudio e em texto, nos respetivos navegadores, sem necessidade de descarregar qualquer aplicação.
O sistema de tradução recorre à Lara, uma IA desenvolvida pela empresa de soluções linguísticas Translated, em colaboração com a Carnegie-AI LLC e com o professor Alexander Waibel, pioneiro na tradução de fala com recurso a inteligência artificial.
Questionado sobre se a ferramenta de tradução com IA pode ter “alucinações” ou cometer erros, o diretor-executivo e cofundador da Translated afirmou que todas as traduções têm falhas, mas que “a Lara deu um passo significativo na sua redução”.
“A Lara foi concebida privilegiando a precisão e não a vontade de agradar. Isso limita de forma significativa as alucinações. A Lara também recorre a mais contexto do que as tecnologias anteriores, o que lhe permite desfazer ambiguidades de forma muito mais eficaz”, disse à Euronews Next.
Waibel é conselheiro científico do projeto e considera que a tecnologia representa uma demonstração importante do potencial da IA para promover a compreensão entre pessoas.
“Hoje vemos concretizar-se a possibilidade de derrubar barreiras linguísticas em tempo real, num dos contextos mais significativos que se pode imaginar”, sublinhou.
Embora o Vaticano pareça estar a aceitar a IA, o papa Leão XIV afirmou, em maio, que a inteligência artificial coloca desafios à defesa da “dignidade humana, da justiça e do trabalho”.