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Cientistas criam primeiros vírus desenhados por IA contra super-bactérias resistentes

Investigadores trabalham com amostras de E. coli durante um teste de biologia molecular em Brno, República Checa.
ARQUIVO: Investigadores analisam amostras de E. coli durante um teste de biologia molecular em Brno, República Checa Direitos de autor  AP Photo/Petr David Josek
Direitos de autor AP Photo/Petr David Josek
De Marta Iraola Iribarren
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Investigadores nos Estados Unidos usam inteligência artificial para criar vírus, abrindo caminho a novos fármacos e levantando receios de biossegurança

Cientistas estão a recorrer a uma nova forma de inteligência artificial generativa para conceber vírus especializados capazes de detetar e matar bactérias nocivas. Esta descoberta pode abrir caminho a uma nova geração de antibióticos desenhados para derrotar “superbactérias” resistentes aos medicamentos.

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Recorrendo ao modelo de IA Evo 2, capaz de criar novo ADN, cientistas (fonte em inglês) da Universidade de Stanford criaram uma série de vírus conhecidos como bacteriófagos, microrganismos capazes de matar bactérias.

Em testes de laboratório, uma mistura de 16 vírus “excecionalmente bons” concebidos pelo Evo 2 conseguiu eliminar rapidamente bactérias E. coli que já eram imunes a fagos naturais.

A E. coli é um grupo de bactérias que pode causar infeções intestinais e que está cada vez mais resistente aos antibióticos disponíveis.

A resistência aos antibióticos está a aumentar em todo o mundo, impulsionada sobretudo pelo uso incorreto e excessivo destes fármacos, que leva as bactérias a desenvolver formas de lhes sobreviver, tornando os medicamentos atuais inúteis.

“Se as bactérias se tornarem resistentes a um único fago, o medicamento deixa de funcionar”, explicou Brian Hie, engenheiro químico em Stanford e coautor do estudo.

“Mas, se houver vários fagos geneticamente distintos numa mistura, será mais difícil para as bactérias desenvolverem resistência a todo o ‘cocktail’.”

Os investigadores referiram que esta tecnologia poderá, no futuro, ser usada para atingir outras bactérias nocivas, como as que causam tuberculose ou infeções hospitalares comuns, como o MRSA.

Modelo disponível para todos

Os investigadores disponibilizaram o modelo de IA Evo 2 de forma aberta e gratuita para qualquer pessoa o poder descarregar e utilizar, o que levantou preocupações de segurança.

Os autores do estudo reconheceram que tornar a ferramenta de código aberto suscitou debates sobre segurança e que uma das principais preocupações é a possibilidade de “agentes mal-intencionados” utilizarem versões modificadas da ferramenta para conceber agentes biológicos nocivos.

“Como os autores salientam, isto levanta sérias preocupações, tanto ao nível da regulamentação como da segurança, para dizer o mínimo”, afirmou Simon Clarke, professor associado de microbiologia celular na Universidade de Reading, no Reino Unido, que não participou no estudo.

“Embora trabalhos deste tipo sejam normalmente fortemente regulamentados, é encorajador ver que estes cientistas mostraram contenção adicional ao definir limites importantes, mas não há garantia de que todos os outros investigadores que tentem fazer algo semelhante serão tão cuidadosos”, acrescentou.

Sustentou ainda que os agentes patogénicos que ocorrem naturalmente representam, para já, um risco maior do que os concebidos por IA, uma vez que continuam a ser mais fáceis de obter e de produzir do que criar novos agentes a partir do zero.

Segundo os autores, uma vantagem da biologia desenhada por IA em relação à evolução natural é a possibilidade de incorporar verificações de segurança diretamente no processo.

Futuro dos modelos de IA biológica

O modelo Evo 2 foi treinado com milhões de genomas naturais de todo o mundo, o que lhe permitiu aprender a “gramática” complexa e as regras que tornam funcional uma sequência de ADN.

Tal como outros modelos de IA para biologia, este conjunto de dados inclui informação biológica, como sequências genéticas e características de agentes patogénicos.

Atualmente, não existe um enquadramento universal que regulamente estes conjuntos de dados e, embora alguns programadores excluam voluntariamente dados de alto risco, os investigadores defendem que deveriam aplicar‑se regras claras e consistentes a todos.

Em fevereiro de 2025, a equipa do Evo 2 anunciou que tinha excluído dos seus conjuntos de dados os agentes patogénicos que infetam humanos e outros organismos complexos, devido a riscos éticos e de segurança, e para “prevenir a utilização do Evo no desenvolvimento de armas biológicas”.

No início deste ano, mais de 100 investigadores em todo o mundo assinaram uma carta aberta (fonte em inglês) em que defendem que, embora o acesso aberto a dados científicos tenha acelerado a descoberta, um subconjunto restrito de novos dados biológicos representa riscos para a biossegurança se for utilizado de forma indevida.

“Os riscos associados à governação de dados biológicos são elevados, uma vez que modelos de IA podem ajudar a criar ameaças biológicas graves”, escreveram os autores.

Os investigadores disseram que encontrar o equilíbrio certo entre abertura e as restrições de segurança necessárias aos dados de alto risco será essencial à medida que os sistemas de IA se tornarem mais poderosos e mais amplamente disponíveis.

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