Papa Leão XIV visitou, no sábado de manhã, uma área da província de Nápoles, marcada pela poluição e pela criminalidade, apelando a mais educação e vontade de combater a ilegalidade.
Dia histórico para a Campânia e para as comunidades marcadas pelo drama da poluição ambiental. Cerca de 15 mil pessoas concentraram-se na Praça Calipari, em Acerra, para acolher Papa Leão XIV, em visita pastoral para levar a sua consolação e dar voz às vítimas da criminalidade ambiental na chamada "Terra dei Fuochi".
O Pontífice, recebido à chegada pelo secretário de Estado da Presidência do Conselho Alfredo Mantovano, pelo repicar festivo dos sinos e pelas notas da banda de música, quis dedicar os primeiros instantes do dia aos fiéis que ficaram fora da Catedral por falta de espaço, antes de iniciar uma visita carregada de significado ético e espiritual.
Encontro com as vítimas da Terra dei Fuochi
A primeira etapa decorreu no interior do Duomo de Acerra. Ali, o Papa encontrou-se com os familiares de quem perdeu a vida por causa dos venenos e do despejo ilegal de resíduos tóxicos. Leão XIV recordou que já o Papa Francisco tinha manifestado o forte desejo de visitar estes lugares, intenção agora finalmente concretizada à luz da encíclica Laudato si'. Perante um drama que transformou a beleza em sofrimento, o Pontífice proferiu palavras duríssimas contra a ilegalidade.
"Há pouco, na catedral, encontrei alguns familiares das vítimas da poluição que, nas últimas décadas, tornou tristemente conhecida esta área como "Terra dei Fuochi": uma expressão que não faz justiça ao bem que existe e resiste, mas que certamente facilitou uma tomada de consciência alargada sobre a gravidade dos negócios ilícitos e da indiferença que abriu espaço aos crimes", disse.
Dirigindo-se à comunidade eclesial e civil, o Santo Padre voltou a abalar as consciências perante o risco do imobilismo e da resignação, convidando cada um a fazer a sua parte para desmontar o sistema de negócios ilícitos. O Papa insistiu ainda na necessidade de uma profunda mudança cultural e geracional, sublinhando que o verdadeiro renascimento parte de um percurso de partilha e crescimento coletivo.
"Educação dos jovens, claro, mas também dos adultos, das crianças, mas também dos idosos, dos cidadãos e dos seus governantes, dos trabalhadores e dos empregadores, dos fiéis e dos pastores: todos temos ainda muito a aprender", afirmou Leão.
Antes de deixar a Catedral, o Papa apelou a que se repensem os atuais modelos económicos e sociais, exortando os presentes a redescobrir uma escala de valores centrada na solidariedade e no respeito pelo território: "Aprendamos então a ser ricos de outra forma**: mais atentos às relações,** mais empenhados em valorizar o bem comum, mais ligados ao território, mais agradecidos ao acolher e integrar quem vem viver connosco."
Um destaque especial foi dedicado também ao combate às marginalidades sociais, muitas vezes estreitamente ligadas ao estado de degradação das zonas periféricas. "O nome "Terra dei Fuochi" remete para as fogueiras ateadas nos limites das cidades, por vezes por minorias rejeitadas e marginalizadas de irmãos e irmãs por quem poucos têm conhecimento e estima. A marginalização produz sempre insegurança: o caminho, embora difícil, é combater a marginalização, não os marginalizados, é quebrar toda a cadeia, não atingir apenas o último elo. Vocês sabem-no bem!", concluiu Leão.
Na Praça Calipari com os autarcas da esperança
Terminada a passagem pela Catedral, o Pontífice subiu a bordo do papamóvel para chegar à Praça Calipari, segunda e última etapa da visita. À sua espera estavam os presidentes de câmara dos 90 municípios da "Terra dei Fuochi", juntamente com milhares de cidadãos e representantes dos comités cívicos ambientais.
Partindo da célebre visão bíblica dos ossos ressequidos do profeta Ezequiel, o Papa traçou um paralelo entre a devastação ecológica e a promessa de um renascimento coletivo, evocando o esplendor original da região: "Esta terra antigamente era chamada Campania felix, porque era capaz de encantar pela sua fertilidade, pelos seus produtos e pela sua cultura, como um hino à vida. E, no entanto, eis a morte, da terra e dos homens."
Perante este cenário, o Pontífice exortou as instituições locais e os cidadãos a não cederem ao desânimo, elevando uma oração que é, ao mesmo tempo, um manifesto de compromisso cívico.
O desejo final para os responsáveis políticos e as famílias do território foi o de transformar os "fogos" destrutivos das queimadas tóxicas numa nova energia espiritual e social: "Não mais fogo que destrói, mas fogo que reanima e aquece, o fogo do Espírito que acende os corações e as mentes de milhares e milhares de homens e mulheres, de crianças e de idosos e inspira cuidado, consolação, atenção, amor verdadeiro."
Palavras do bispo e do presidente da câmara
A dar voz à dor e à determinação da comunidade local estiveram os representantes da Igreja e das instituições. O bispo de Acerra, monsenhor Antonio Di Donna, revisitou o drama de décadas vivido no território, recordando com amargura como, mesmo recentemente, as forças de segurança descobriram mais um despejo de resíduos tóxicos na zona de Caserta.
Logo de seguida, o presidente da câmara de Acerra, Tito d'Errico, falando em nome de todos os autarcas presentes, quis sublinhar a vontade de redenção de toda uma população, agradecendo às autoridades nacionais e regionais presentes pelo trabalho desenvolvido na estrutura de coordenação para o saneamento ambiental.
"O nosso é um território complexo, com feridas profundas provocadas por malfeitores que serviram o lucro. Sofremos as consequências da poluição, o drama das queimadas, a dor das famílias. Feridas que exigem justiça, verdade e cuidado. Mas esta não é terra de resignação, é terra de resistência cívica e de resgate moral, que tem sede de uma mudança profunda", afirmou D'Errico.