O governo dos Estados Unidos emitiu uma diretiva que ordena à Anthropic que suspenda o acesso aos modelos por parte de cidadãos estrangeiros.
A Anthropic reagiu depois de a administração Trump ter emitido uma diretiva que proíbe cidadãos estrangeiros de utilizarem algumas das suas ferramentas de IA mais poderosas. A empresa afirmou que irá cumprir a ordem, mas que discorda da fundamentação avançada pelo governo.
Num texto publicado no blogue, já na noite de sexta-feira, a empresa afirmou ter recebido, às 17h21 (hora da costa leste dos EUA), uma carta do governo a exigir a suspensão do acesso aos modelos de IA Fable 5 e Mythos 5, invocando motivos de segurança nacional.
A proibição abrange cidadãos estrangeiros dentro e fora dos Estados Unidos e inclui colaboradores da Anthropic que sejam estrangeiros, explicou a empresa.
"O efeito prático desta ordem é termos de desativar de forma abrupta o Fable 5 e o Mythos 5 para todos os nossos clientes, para garantir o cumprimento", lê-se no texto. "O acesso aos restantes modelos da Anthropic não será afetado".
A empresa pediu desculpa pelos transtornos causados aos utilizadores e afirmou estar a trabalhar para repor o acesso assim que possível.
Segundo a Anthropic, as autoridades terão identificado uma possível forma de fazer "jailbreak" ao Fable 5. Um "jailbreak" de IA ocorre quando um hacker explora vulnerabilidades de um modelo, contornando as suas orientações éticas para tentar realizar ações restritas.
A empresa procurou relativizar o problema, afirmando que as vulnerabilidades parecem ser "relativamente simples" e que verificou que modelos disponíveis publicamente são capazes de as detetar.
Acrescentou que, apesar de estar a cumprir a diretiva, discorda de que "uma potencial forma de jailbreak, bastante limitada, deva ser motivo para retirar um modelo comercial disponibilizado a centenas de milhões de pessoas".
A Anthropic sublinhou ainda ter desenvolvido "robustas salvaguardas que reduzem significativamente a probabilidade de o Fable ser usado de forma indevida em tarefas relacionadas com a cibersegurança".
Em reação à notícia, na rede X, Jordan Bardella, eurodeputado e presidente do partido francês de extrema-direita Rassemblement National, considerou que esta decisão é um lembrete claro de que a inteligência artificial constitui "uma questão central de soberania nacional".
"As nações que não desenvolverem rapidamente os seus próprios modelos dependerão cada vez mais das escolhas de outras potências: França deve acelerar o apoio à 'jóia' Mistral AI e a todo o ecossistema de IA", acrescentou.
Não é a primeira vez que a Anthropic e a administração Trump entram em confronto.
Em fevereiro, Trump ordenou às agências federais dos EUA que deixassem imediatamente de utilizar a tecnologia da Anthropic, depois de o CEO, Dario Amodei, e a empresa se terem oposto ao uso das suas soluções para determinadas finalidades de defesa.
"Não precisamos dela, não a queremos e não faremos mais negócios com eles!", escreveu então Trump na rede Truth Social, adiantando que haveria um "período de eliminação gradual" de seis meses.
Mais tarde, a Anthropic anunciou que iria avançar com uma ação judicial contra o governo, depois de este ter classificado a empresa como um "risco para a cadeia de abastecimento".