Uma equipa de peritos da UE em migração está em Ceuta para uma avaliação direta da situação, enquanto relatórios alertam para um possível novo afluxo de migrantes a 15 de agosto. Bruxelas diz que mantém o foco na proteção constante da fronteira externa da UE.
A Comissão Europeia enviou uma equipa de peritos em migrações para o enclave espanhol de Ceuta, duas semanas depois de cerca de 80 000 migrantes terem entrado no território a partir de Marrocos, desencadeando uma crise humanitária e política sem precedentes, e numa altura em que surgem relatos de que novas tentativas de entrada em larga escala poderão ser iminentes.
Um porta‑voz da Comissão afirmou esta quinta-feira que a missão tem como objetivo “compreender, no terreno, as necessidades em primeira mão” e perceber como é que a UE pode reforçar o apoio às autoridades espanholas.
O executivo recusou, no entanto, dizer se a visita também inclui preparativos para um eventual novo afluxo, numa altura em que circulam nas redes sociais marroquinas relatos de um “forward call” que exorta os migrantes a voltarem a fazer a travessia na noite de 14 para 15 de agosto.
“Para nós, não se trata de uma data específica. Trata‑se de reforçar as nossas fronteiras e garantir devoluções todos os dias do ano”, disse outro porta‑voz da Comissão Europeia.
Estima‑se que até 80 000 migrantes tenham entrado em Ceuta – enclave espanhol onde vivem apenas 83 000 pessoas – atravessando a nado a partir do vizinho Marrocos nos dois últimos dias de julho, com relatos de que cerca de 100 pessoas perderam a vida.
O governo espanhol afirma que cerca de 70 000 foram entretanto devolvidos a Marrocos e elogia a cooperação produtiva com o governo de Rabat nas devoluções.
O incidente desencadeou também uma crise inédita para Madrid e expôs profundas clivagens entre países europeus.
Alguns governos, nomeadamente o executivo liderado por Giorgia Meloni em Itália, viram na crise de Ceuta uma oportunidade para contestar as políticas migratórias mais brandas e tolerantes do primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, que, segundo os críticos, fragilizavam os esforços da UE para projetar solidariedade e unidade.
A escalada de represálias entre Roma e Madrid continua, com os dois países a aplicarem agora controlos fronteiriços excecionais entre si. O governo italiano afirmou que continuará a suspender temporariamente o regime de livre circulação de Schengen com Espanha pelo menos até 15 de agosto, invocando a expetativa de que Ceuta seja atingida por “uma nova vaga de migração”.
União Europeia reforça cooperação com plataformas online: medidas dão frutos
O Ministério do Interior marroquino afirmou na quarta‑feira que está a trabalhar para impedir uma eventual nova vaga e que reforçou a segurança ao longo das fronteiras com Ceuta e Melilla, o segundo dos territórios espanhóis situados na costa norte de Marrocos.
A Guarda Civil espanhola já instalou, no molhe sul de Melilla, uma barreira marítima semelhante à utilizada na fronteira marítima com Marrocos ao largo de Ceuta.
As medidas de precaução surgem na sequência de vários relatos de que uma campanha coordenada na internet está a difundir um apelo a uma nova travessia em massa na noite de sexta‑feira.
A Golden Owl, empresa de inteligência digital ligada à Universidade de Alicante, analisou as plataformas de redes sociais e identificou uma operação organizada na internet por detrás dos apelos a novas travessias. A Guarda Civil espanhola elaborou também um relatório de seis páginas em que analisa essa possibilidade.
Acredita‑se que a maior vigilância das plataformas sociais tenha, até certo ponto, abafado o apelo, com a Golden Owl a afirmar que “a data de 15 de agosto praticamente desapareceu do Facebook, devido à atuação da Meta”.
O TikTok e a Meta ativaram um protocolo de crise para criar um mecanismo de cooperação com verificadores de factos, após os apelos da responsável pela área tecnológica da UE, Henna Virkkunen, a um reforço da monitorização e da colaboração.
A Comissão Europeia confirmou que se voltaria a reunir com representantes das plataformas de redes sociais na tarde de quinta‑feira, acrescentando que está a trabalhar com essas plataformas “diariamente” para tornar o trabalho mais fluido.
“A inclusão dos verificadores de factos vai, na nossa perspetiva, tornar este trabalho ainda mais direcionado, mais simples e mais coordenado no contexto desta crise concreta”, explicou o porta‑voz. “E o que nos é transmitido é que esta cooperação se tem revelado muito eficaz e que, com base nela, as plataformas estão a agir.”
A Comissão realizou ainda, mais cedo na quinta‑feira, uma reunião separada que permitiu “uma troca de informação e uma discussão sobre a dimensão online da atual crise em Ceuta”, com a participação de representantes espanhóis.