Um ano depois do descarrilamento do Elevador da Glória, o apuramento das causas da tragédia ainda não está concluído. Enquanto as indemnizações às vítimas e famílias permanecem por fechar, Carris prepara um novo ascensor, mais moderno e seguro.
Era um dos símbolos mais conhecidos de Lisboa. Mas a 3 de setembro de 2025 o Elevador da Glória descarrilou, numa tragédia que matou 16 pessoas e deixou outras 24 feridas. Entre as vítimas estavam portugueses e cidadãos de várias nacionalidades.
Um ano depois, a investigação ainda não terminou e o elevador continua parado, enquanto a Carris prepara uma solução para o futuro deste equipamento histórico da cidade.
O novo ascensor da Glória terá uma configuração semelhante à do anterior, mas será mais moderno e seguro. A empresa diz querer preservar a identidade do lugar e a relação histórica com a cidade, mas admite que já não será possível simplesmente reconstruir o sistema que existia antes da tragédia.
"Uma réplica exata não permitiria responder plenamente aos atuais requisitos de segurança, acessibilidade, conforto, operação e manutenção", ainda que "o objetivo seja o de preservar os elementos essenciais da identidade da Glória, sem reproduzir literalmente as soluções técnicas e construtivas do passado", diz a Carris.
O concurso público internacional para a conceção do projeto deverá ser lançado até ao final de março de 2027 para que em 2029 possa ser inaugurado.
Pouco se sabe sobre o desenho final da solução que será adotada para o futuro Elevador da Glória e mesmo a imagem apresentada ainda é apenas uma representação conceptual. O desenho técnico definitivo vai ser trabalhado nos próximos cinco meses.
A Carris também não se compromete com valores de investimento. Garante apenas que será um concurso transparente e que este se realizará em duas etapas paralelas: a construção de duas novas cabines e a construção integral da nova infraestrutura na Calçada da Glória.
Quase um ano depois da tragédia, há outras questões que continuam sem resposta. A seguradora da Carris, a Fidelidade, diz ter assumido cerca de 2,3 milhões de euros em custos relacionados com o acidente, "incluindo além dos acordos indemnizatórios já alcançados, serviços funerários, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, intervenções cirúrgicas, reabilitação, transportes, salários perdidos, entre outros".
Das 16 famílias das vítimas mortais apenas 4 receberam indemnizações. Sete processos continuam em negociação.
Um caso segue pela via judicial "após não ter sido possível, até ao momento, alcançar acordo quanto à proposta apresentada", revelou a seguradora. Há ainda três processos em que "ainda não foi possível apresentar uma proposta indemnizatória definitiva", devido, essencialmente, à "necessidade de obtenção de documentação indispensável e das especificidades legais dos países envolvidos", explicou.
Já quanto aos 24 feridos, "a avaliação indemnizatória definitiva apenas poderá ser realizada quando exista estabilização clínica que permita determinar, de forma adequada, a extensão das eventuais sequelas e dos danos sofridos".
A Câmara de Lisboa e a Carris defendem ter feito tudo o que estava ao seu alcance no apoio às vítimas e às famílias, incluindo apoio médico, psicológico e social.
"O tema do drama das vítimas e das famílias é um tema fortíssimo e é um tema que nós temos que o viver, que o respeitar e que o honrar", disse Gonçalo Reis aos jornalistas após a apresentação da solução para o futuro ascensor da Glória.
Certo é que a Carris, detida pela Câmara de Lisboa, não abriu qualquer processo disciplinar relacionado com o acidente. "Encontrando-se ainda em curso as investigações destinadas ao rigoroso apuramento das causas do acidente, a Carris considera que qualquer avaliação de eventuais responsabilidades deverá ser feita com base nas respectivas conclusões", referiu a empresa de transporte público numa resposta ao jornal Público.
Em declarações ao diário, a Carris admitiu, contudo, vir a fazê-lo mais tarde, "após esse apuramento, e caso sejam identificadas responsabilidades".
Segundo também o Público, o Ministério Público também tem vindo a informar os lesados de que podem reclamar indemnizações no âmbito do próprio processo criminal, evitando terem de intentar ações judiciais nos tribunais civis.
Isto se não tiverem, entretanto, já recebido uma compensação paga pela companhia de seguros e declararem que a mesma abarca todos os danos existentes. Noutros casos, mesmo tendo chegado a acordo com a Carris e a seguradora, os lesados podem avançar com o pedido de indemnização no processo-crime, por exemplo, quando há danos não incluídos no acordo, tais como danos morais, ou se o limite do seguro não foi suficiente para suportar todos os danos.
O Expresso noticiou, na passada sexta-feira, que um casal alemão com um filho, que ficaram feridos no acidente, a mulher e o homem com gravidade, tinha avançado com uma ação nos tribunais portugueses.
Adrian e Gülbahar Schmid criticam a seguradora e as autoridades portuguesas, que dizem nunca os terem procurado para dar uma explicação ou fazer um pedido de desculpas. "Ninguém de Portugal demonstrou interesse por nós até hoje. Ninguém entrou em contacto connosco, a não ser a Embaixada da Alemanha em Lisboa. E da parte da seguradora portuguesa Fidelidade também não houve qualquer pagamento ou apoio", assegura o casal alemão.
Numa carta aberta, escrita em inglês, citada pela RTP, vítimas e familiares criticam o silêncio das autoridades e lamentam a falta de contacto das autoridades com todos os envolvidos na tragédia.
"Para a maioria de nós, este ano não foi apenas sobre o luto. Foi sobre esperar por informações que nunca chegam e sentir que ninguém está realmente a falar connosco", afirmam na missiva de três páginas a que a estação pública teve acesso.
Este grupo afetado pela tragédia diz continuar à espera de respostas, apoio e responsabilização e critica a ausência de comunicação ao longo dos últimos 12 meses.
Os subscritores da carta reconhecem que "a investigação ainda está a decorrer e que as respostas concretas levam tempo". "Não estamos a pedir que ninguém se apresse ou tire conclusões antes de os factos serem conhecidos", sublinham.
A crítica é particularmente dirigida à comunicação com as famílias que vivem fora de Portugal. Segundo a carta, o convite para a inauguração do memorial dedicado às vítimas que acontece esta quinta-feira, foi a única comunicação direta que alguns tiveram no último ano da parte da Câmara Municipal de Lisboa.
Os familiares apresentam ainda um conjunto de pedidos, desde uma comunicação regular, clareza sobre quem recaem as responsabilidades do acidente, respostas sobre a manutenção e as inspeções no equipamento, informações precisas sobre o apoio disponível para as famílias, transparência quanto ao auxílio financeiro anunciado para as vítimas, um processo mais ágil para acionar seguros, até ao acesso mais célere aos documentos de que precisam.
No documento, é referido também que muitos dos familiares foram obrigados a contratar advogados só para "obter respostas básicas, lidar com a burocracia e tentar ser ouvidos pelas instituições portuguesas". "Isto não deveria ser necessário um ano após perdermos que amávamos", escrevem os signatários.
Já o relatório que devia ajudar a esclarecer as causas do acidente, inicialmente esperado para setembro, só deverá ser publicado até "final do primeiro trimestre de 2027", devido à complexidade das peritagens técnicas.
O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) contratou três entidades especializadas, para avaliar as "características, condição e comportamento do cabo e da sua fixação ao veículo" e "do freio dos veículos e modelação dinâmica do sistema", e as "condições de aderência dos freios aos carris ‘Z’ e dos freios às rodas".
"O facto de os ascensores da Glória e do Lavra, iguais com exceção do seu traçado, serem únicos no mundo, não existindo outros veículos similares, bem como a escassa documentação técnica disponível sobre os veículos, tem exigido um estudo aprofundado das suas características através de engenharia reversa", salientou o organismo numa nota, citada pela Lusa.
Relativamente ao cabo e às suas fixações, "foram e estão a ser feitos diversos ensaios físicos e químicos, determinando a condição, características metalográficas e metalúrgicas dos materiais, bem como a comparação do comportamento do cabo instalado aquando do acidente com os tipos de cabo efetivamente previstos nas especificações originais" da Carris.
"No que respeita aos sistemas de freio das cabinas, foram e estão ainda a ser realizados diversos testes funcionais e medição de parâmetros no veículo" parcialmente destruído no acidente e no que teve danos menores, "com vista a determinar a capacidade de frenagem em função das diversas variáveis possíveis quanto a afinações, coeficientes de aderência e outros parâmetros", revela a mesma nota citada pela agência.
Um relatório preliminar, publicado em 20 de outubro de 2025, apontou falhas e omissões na manutenção do ascensor da Glória e a falta de formação dos funcionários e de supervisão dos trabalhos efetuados pela empresa prestadora do serviço.
A oposição na Câmara de Lisboa tem criticado a falta de informação e respostas da autarquia sobre o descarrilamento, exigindo um esclarecimento cabal do que aconteceu naquele dia.
Entretanto, o Ministério Público constituiu pelo menos três arguidos no processo que apura responsabilidades criminais no acidente: o antigo diretor de manutenção do modo elétrico da Carris, o responsável da empresa externa que assegurava a manutenção dos elevadores históricos, e a própria empresa.
De acordo com o Público, o Ministério Público deverá avançar com a acusação até ao final deste ano, imputando a várias pessoas o crime de violação das regras de segurança, agravado pelas mortes.
O acidente teve ainda consequências para os restantes ascensores históricos de Lisboa. Os ascensores da Bica e do Lavra e o Elevador de Santa Justa, encerrados há cerca de um ano na sequência do descarrilamento do elevador da Glória, continuam sob avaliação técnica.
Em declarações aos jornalistas após a apresentação da solução para o futuro ascensor da Glória, o presidente da Carris, Rui Lopo, disse que os ascensores da Bica e do Lavra e o elevador de Santa Junta estão sob "avaliação técnica rigorosa, de grande detalhe, de grande cuidado", sem previsão de quando voltarão a funcionar, adiantando que no elevador de Santa Justa "a avaliação está mais avançada do que no Lavra, mas ainda vai demorar".
"A segurança não é negociável e, portanto, estas coisas não podem ter precipitações e tem que ser tudo visto com grande cuidado", declarou o responsável.
A avaliação técnica concluirá se os equipamentos podem funcionar tal como estão ou se é preciso introduzir alterações ou se carecem de "uma solução completamente nova", apontou o presidente da Carris.
O Funicular da Graça, cujo funcionamento também foi suspenso para ser inspecionado, foi o único a ser reaberto, em abril, sete meses após o acidente na Calçada da Glória.