O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chegou este sábado a Ituri para apoiar a resposta a uma rara estirpe de ébola. Perante mais de mil casos suspeitos e 246 mortes, Tedros sublinhou a importância crucial do trabalho com as comunidades.
O responsável máximo da saúde da ONU, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chegou no sábado à província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo, o epicentro mais atingido por um surto grave de um tipo raro de Ébola.
A visita acontece numa altura em que o vírus se propaga mais depressa do que a capacidade de resposta, apesar de unidades de saúde mais organizadas e da chegada de nova ajuda.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde deverá visitar um centro de tratamento e reunir-se com as autoridades locais, profissionais de saúde e famílias afetadas em Bunia, a capital provincial.
“A melhor forma de responder a esta situação é garantir todo o apoio necessário para combater a doença no seu epicentro e continuar a prestar toda a ajuda de que haja necessidade”, disse Tedros aos jornalistas. Acrescentou que a comunidade internacional está a ajudar o governo da RDC a lidar com a crise, mas “ao mesmo tempo, é importante o envolvimento das comunidades. Estamos aqui para falar com a população, ver como está a decorrer a resposta e, se houver desafios, ajudar”.
Dimensão do surto
A febre hemorrágica altamente contagiosa já está presente em três províncias do leste da RDC e no vizinho Uganda. A verdadeira extensão do surto na RDC, que se pensa estar a circular antes de ter sido detetado, deverá ser muito mais ampla, advertiu a OMS. Vasto e instável, o país da África Central tem capacidade limitada para realizar testes laboratoriais e confirmar casos.
Dados recentes mostram um balanço crescente: pelo menos 1 077 casos suspeitos, incluindo 246 mortes, segundo os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças. O Ministério da Saúde ugandês confirmou na sexta-feira nove infeções e uma morte.
A OMS anunciou que um doente recuperou na quarta-feira, deixou o hospital e recebeu alta para a comunidade após dois testes negativos. Anais Legand, da OMS, disse a jornalistas em Genebra que se trata do “primeiro” caso entre os doentes confirmados como portadores do vírus do Ébola neste surto.
O Ébola, transmitido através de contacto próximo e de fluidos corporais, matou mais de 15 000 pessoas em África nos últimos 50 anos. O surto mais mortal na RDC causou quase 2 300 mortes em 3 500 casos entre 2018 e 2020.
Conflito e fecho de fronteiras
Os serviços do Estado são largamente inexistentes na província de Ituri, onde o acesso é dificultado pela insegurança provocada pela presença de militantes das ADF, afiliadas ao grupo Estado Islâmico, e por uma coligação de milícias étnicas que mata civis com regularidade.
As vizinhas províncias do Norte e Sul Kivu também registaram casos de Ébola e são palco de violência quase contínua há três décadas. Grandes áreas da região estão sob controlo do grupo armado M23, apoiado pelo Ruanda, que combate as forças governamentais e reportou dois casos em cidades-chave sob o seu controlo, incluindo Goma e Bukavu.
Milhões de pessoas fugiram dos combates e vivem em campos de deslocados com fracas condições de higiene. Quase um milhão destes deslocados encontra-se na província de Ituri, onde a possibilidade de a epidemia se espalhar pelos campos causa alarme.
“Se o Ébola chegar, vamos ser dizimados, porque estamos aqui apertados como sardinhas”, disse Dorcas Mapenzi no campo de Kingonze, nos arredores de Bunia.
Em resposta à crise, Uganda e o Ruanda fecharam as fronteiras, tendo Uganda decretado uma quarentena de 21 dias para quem chega da RDC. Além disso, a administração Trump proibiu, na semana passada, a entrada de pessoas sem passaporte dos EUA que tenham visitado recentemente o Congo, o Uganda ou o Sudão do Sul.