Num processo negocial muito semelhante ao da primeira legislatura de Pedro Sánchez, os socialistas tentam resolver o impasse e recompor alianças com os antigos parceiros à esquerda (Podemos) e à direita (Junts), enquanto a pressão popular se mantém em Madrid e noutras regiões do país.
Cerca de 300 tendas de campanha resistiram à segunda noite na madrilena Puerta del Sol, enquanto o Sindicato de Inquilinas, catalisador dos protestos massivos em Madrid e noutras cidades espanholas após o despejo da idosa Maricarmen, atualmente internada, apela a que se permaneça nas ruas se o real decreto-lei que o governo está a negociar com os seus parceiros no Congresso não satisfizer as reivindicações.
Os porta-vozes do sindicato pelo direito à habitação reclamam a prorrogação automática dos contratos de arrendamento, que o Estado assegure alternativas habitacionais em caso de despejo e uma maior proteção dos inquilinos perante os senhorios quando estes infringem a lei.
Para já, desconhece-se que medidas concretas o PSOE está a negociar à sua esquerda com o Podemos e à direita com o Junts, cujos votos, embora opostos, são imprescindíveis para aprovar o diploma.
“O que precisamos já não são, depois de nove anos de governo, mensagens de humanidade nem de compreensão”, afirmou este domingo Valeria Racu, coporta-voz do sindicato, exigindo que não se altere o real decreto-lei que tem vindo a ser preparado há meses, mas que o PSOE não levara a debate no Congresso devido às dificuldades em pôr de acordo os antigos parceiros de investidura. “Ou isso acontece na terça-feira [dia da votação parlamentar] ou este governo não faz sentido”.
O rascunho do decreto publicado em junho já previa a prorrogação dos contratos de arrendamento – embora não indefinida – para os contratos que terminem antes de 2028; uma maior regulação dos arrendamentos de curta duração e por quartos, o aumento da tributação dos alojamentos turísticos para 21%, mais medidas contra despejos e incentivos fiscais para senhorios.
O desafio do executivo passa por satisfazer Podemos e Junts com um conjunto de medidas muito díspares do ponto de vista ideológico. Irene Montero, cabeça de lista da primeira formação para as eleições gerais do próximo ano, qualificou as propostas de chantagem no sábado passado. “Achamos que o governo está a negociar com o Junts para impor à força um acordo a toda a gente que hoje está aqui a defender o direito à habitação e não o vamos aceitar”.
Os protestos contra a atual crise da habitação vão estender-se nos próximos dias para lá de Madrid. O Sindicat de Llogateres da Catalunha, um dos focos centrais da luta pelo direito à habitação, convocou para esta segunda-feira, em Barcelona, uma manifestação em frente ao local de um ato em que participará Pedro Sánchez. Também são esperados protestos nas Astúrias, em Múrcia, Sevilha e Saragoça, entre outras cidades do país.
Artistas como Marwan, Samantha Hudson, Biznaga ou Aitana Sánchez Gijón juntaram-se ao protesto iniciado no sábado à tarde, após a segunda concentração da semana em Madrid. Quinze anos depois do movimento 15-M, que também começou em Sol para contestar o bipartidarismo, as políticas de austeridade e a corrupção, a acampada pelo direito à habitação devolve aos espanhóis uma imagem ainda muito recente da história contemporânea do país e, como aconteceu da última vez, o possível início de um novo ciclo político.
Maricarmen, de 87 anos, com uma deficiência de 50%, foi transformada em símbolo dos protestos após um despejo que vinha a ser preparado desde o final da década passada pelo fundo Urbagestión.
A mulher enviou uma nova mensagem a partir do hospital onde foi realojada após a expulsão de sua casa. “Gostaria de estar aí convosco, a acompanhar o vosso acampamento mas não tenho essa sorte”, afirmou num vídeo publicado pelo sindicato.