A operação Yemen Dawn, apoiada por 100 aviões da coligação saudita, retomou Dhubab, a norte do estreito; os houthis alegam ataques ao aeroporto de Riade, a uma refinaria e a bases militares, enquanto Paquistão e Turquia aceitam enviar tropas para o reino.
Forças governamentais iemenitas lançaram uma grande ofensiva para recuperar zonas em redor do estreito de Bab el-Mandeb aos houthis, numa altura em que o Paquistão e a Turquia acordaram enviar tropas para a Arábia Saudita e os Houthis atingiram o aeroporto internacional de Riade, instalações petrolíferas e bases militares, num conflito em expansão.
Responsáveis iemenitas indicaram que as forças aliadas ao governo internacionalmente reconhecido retomaram, esta segunda-feira, a estratégica localidade de Dhubab, a norte do estreito, uma via marítima vital que liga o mar Vermelho ao golfo de Áden.
As mesmas forças conquistaram ainda as localidades de Bab e Hadeid, adiantaram os responsáveis sob anonimato. Testemunhas relataram ter visto carros de combate e militares governamentais a entrar nas povoações.
O avanço governamental insere-se numa ampla ofensiva lançada ao início da manhã de segunda-feira, com cobertura aérea da coligação militar saudita.
Por seu lado, o porta-voz militar dos Houthis, general de brigada Yahya Saree, afirmou numa declaração gravada que o grupo utilizou mísseis balísticos e de cruzeiro, bem como drones, em ataques contra o aeroporto internacional Rei Khalid, na capital saudita Riade, e contra uma refinaria na cidade de Rabigh, no mar Vermelho.
Foram igualmente visados o aeroporto de Abha, instalações militares em Khamis Mushait e outros “alvos críticos” nas cidades de Najran e Jizan, acrescentou.
A embaixada dos Estados Unidos em Riade alertou, nas redes sociais, os cidadãos norte-americanos para se manterem vigilantes perante eventuais ataques com drones ou mísseis.
O grupo, oficialmente designado Ansar Allah, afirmou ter conquistado mais território no sudoeste do Iémen, tomando uma localidade chave e infligindo um revés às forças apoiadas pela Arábia Saudita, ao avançar em direção a uma capital provincial estratégica na região.
O porta-voz da coligação liderada pela Arábia Saudita, general Turki al-Malki, referiu que 100 aviões de combate apoiam as forças governamentais. Segundo o responsável, a coligação garantiu “proteção aérea” do estreito de Bab el-Mandeb e destruiu centenas de alvos Houthi.
Iémen: avança operação Yemen Dawn
A escalada entre a Arábia Saudita e os houthis reavivou a guerra no Iémen após quatro anos de cessar-fogo.
No domingo, os houthis tomaram a cidade de Turbah, situada numa estrada principal que liga a capital provincial Taiz ao porto de Aden, que funciona como sede provisória do governo iemenita. Ao longo dos anos, a localidade foi um importante posto das forças governamentais na defesa de Taiz.
Antes disso, o movimento tinha já ocupado várias aldeias e zonas nos arredores de Taiz, abrindo caminho para o cerco à terceira maior cidade do país.
No início de setembro, os houthis lançaram uma ofensiva rápida na costa ocidental do país, no mar Vermelho, conquistando a estratégica cidade de Mokha e várias ilhas do mar Vermelho, ganhos que lhes permitiram controlar a margem iemenita do Bab el-Mandeb, por onde passa 12% do comércio mundial.
O governo apoiado pela Arábia Saudita indicou no domingo estar a mobilizar tropas em todas as zonas sob seu controlo.
Rashad al-Alimi, chefe do Conselho de Liderança Presidencial, afirmou num discurso televisivo que as operações visam “recuperar os territórios remanescentes” controlados pelos Houthis. Apelou à comunidade internacional para que apoie o seu governo.
Horas após a declaração de al-Alimi, o porta-voz militar saudita, al-Malki, prometeu “apoio operacional total” às forças governamentais iemenitas até que os Houthis sejam “eliminados”.
Numa publicação na rede X, esta segunda-feira, al-Alimi afirmou que a operação, batizada “Yemen Dawn”, começou com o objetivo de “restaurar as instituições do Estado, libertar” a capital Sana'a, controlada pelos Houthis, e pôr fim ao “golpe da milícia terrorista Houthi”.
Al-Nazili adiantou que as forças governamentais estão a conduzir uma “ofensiva estratégica” sobre a capital. O gabinete de comunicação dos Houthis relatou múltiplos ataques aéreos nas áreas sob o seu controlo, incluindo Sana'a.
A tomada de Turbah pelo grupo deverá limitar a capacidade das forças governamentais para reforçar e reabastecer as posições na linha da frente em toda a província de Taiz e na respetiva capital, de acordo com o Institute for the Study of War, um centro de estudos sediado em Washington.
Também na segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa do Paquistão e da Turquia acordaram com a Arábia Saudita o envio de forças militares para o reino, ao abrigo do respetivo pacto de defesa.
Um comunicado conjunto divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, após uma reunião de emergência em Riade, não especificou o número de militares, nem quais os países que contribuirão com tropas ou o calendário de destacamento.
Os três países condenaram aquilo que descreveram como tentativas de ataque contra Meca e Medina, bem como a continuação de ataques contra cidades sauditas e infraestruturas civis e económicas. O texto não identificou os responsáveis.
Iémen: agravam-se receios de crise humanitária
A guerra no Iémen começou em 2014, quando os Houthis lançaram uma ofensiva a partir do seu bastião no norte, capturando Sana'a e obrigando o governo a exilar-se na Arábia Saudita. O conflito gerou uma das piores crises humanitárias do mundo, causando a morte de mais de 150 mil pessoas.
A mais recente vaga de violência provocou pelo menos 959 mortos e mais de 4 200 feridos, segundo a Organização Mundial da Saúde. O recrudescimento dos combates obrigou cerca de 174 097 pessoas a abandonar as suas casas no Iémen, de acordo com a agência das Nações Unidas para as migrações. Mais de 3 000 fugiram por mar para o Djibuti, acrescentou a agência.
Na semana passada, o ministério da Saúde do Iémen, integrado no governo internacionalmente reconhecido, alertou para o impacto da guerra nas unidades de saúde e no pessoal médico em toda a província de Taiz.
Em comunicado divulgado na sexta-feira, o ministério indicou que as estruturas de saúde nas áreas costeiras, ocidentais e meridionais da província encerraram ou funcionam de forma muito limitada.
Um porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que este está “profundamente preocupado com a forte escalada dos combates” e condenou “a continuação dos ataques transfronteiriços” dos Houthis contra a Arábia Saudita.
Os Houthis estão ligados ao chamado Eixo da Resistência de Teerão, uma rede informal de grupos armados em vários países da região, incluindo o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza e milícias no Iraque, todos apoiados, treinados e equipados pelos Guardas da Revolução iranianos em diferentes graus.