Uma das piores tragédias com armas dos últimos anos na Polónia: em Cracóvia morreram seis pessoas e 16 ficaram feridas. No apartamento do autor, de 24 anos, acharam os corpos dos pais e da irmã. O país vive luto nacional.
Morreram seis pessoas e 16 ficaram feridas, entre elas uma cidadã portuguesa de 74 anos que se encontrava na Polónia de visita à sua neta, estudante Erasmus no país.
De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a cidadã portuguesa está hospitalizada. A cidadã foi submetida a uma intervenção cirúrgica e a informação que temos é que já não corre perigo de vida, embora tenha sido admitida em estado grave", disse o secretário de Estado das Comunidades, Emidio Sousa. "O nosso embaixador está a caminho do hospital e da cidade de Cracóvia para prestar assistência consular", acrescentou o governante.
Entre as vítimas mortais do ataque contam-se quatro mulheres e dois homens. Quatro das seis pessoas que perderam a vida foram identificadas, uma delas é cidadã da Grã-Bretanha.
Na noite de sábado, o primeiro-ministro Donald Tusk informava que no apartamento do atacante se encontravam provavelmente pessoas mortas. Acrescentou que se tratava de duas mulheres e de um homem, muito provavelmente os familiares mais próximos do autor do ataque.
A polícia confirmou mais tarde que os corpos encontrados na casa do atacante eram do pai, de 53 anos, da mãe, de 52, e da irmã, de 20. As vítimas apresentam ferimentos de bala e terão morrido, muito provavelmente, na sequência de disparos.
Disparou indiscriminadamente
O ataque ocorreu no sábado por volta das 15h00. Um homem mascarado, com uniforme militar, entrou de carro na praça Rynek Główny, em Cracóvia, e abriu fogo sobre pessoas apanhadas ao acaso.
É um dos locais mais populares da cidade que, sobretudo aos fins de semana, atrai multidões de turistas da Polónia e de todo o mundo.
A partir do carro em movimento, o homem disparou também contra um eléctrico da linha 1. No veículo, foi partida a janela da cabina do condutor, mas nenhum passageiro nem o próprio condutor ficaram feridos.
As pessoas, em pânico, fugiam e procuravam abrigo em portões próximos, igrejas, cafés e restaurantes. Depois de trocar tiros com a polícia, o atacante ficou ferido, foi detido e transportado para o hospital.
Segundo o ministro do Interior e da Administração, Marcin Kierwiński, os agentes da polícia reagiram apenas três minutos depois de receberem o alerta, disparando então na direção do atirador. Quase ao mesmo tempo, chegaram ao local equipas dos bombeiros e do serviço de emergência médica. O ministro considerou que a atuação rápida de todos os serviços pode ter limitado a dimensão do incidente e evitado consequências ainda mais graves.
Na intervenção participaram cerca de 30 equipas policiais.
O carro do suspeito foi inspecionado para detetar eventuais materiais explosivos. Os moradores dos edifícios vizinhos foram evacuados enquanto decorria esta operação.
Devido às diligências processuais em curso, a zona da praça Rynek Główny e as ruas adjacentes foram encerradas.
Autor do ataque
O autor do tiroteio é um cidadão polaco de 24 anos, residente em Ostrowiec Świętokrzyski.
O homem não tinha antecedentes criminais nem constava das bases de dados da polícia. Detinha licença de porte de arma e, segundo a polícia, terá disparado provavelmente com uma das armas para as quais tinha autorização.
Marcin Kierwiński afirmou que tudo aponta para que o atacante “tinha opiniões muito, muito radicais” e estava “fascinado por ideologias da extrema-direita”. Acrescentou que a polícia não tem quaisquer fundamentos para concluir que houve mais autores desta chacina.
Por seu lado, o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, Władysław Kosiniak-Kamysz, desmentiu informações segundo as quais o atacante seria soldado das Forças Armadas polacas. Sublinhou que “este homem não foi nem é militar das Forças Armadas polacas e nunca teve nada a ver com o exército”.
Heroísmo dos polícias
O ministro do Interior e da Administração salientou que os agentes intervieram sem qualquer hesitação, colocando conscientemente em risco a própria vida. Segundo o governante, a sua reação firme e corajosa permitiu a rápida detenção do atacante.
O responsável pela pasta do Interior deu também informações sobre os polícias feridos. Um dos agentes foi atingido a tiro. O estado do segundo é considerado muito grave, o homem sofreu três ferimentos de bala.
“Os polícias portaram-se hoje de forma heroica. Cumpriram exemplarmente o seu dever para com os cidadãos e a Pátria. Um deles luta pela vida. Outro está ferido. Apelo a todos para que respeitem o seu sacrifício. Para que respeitem as pessoas de uniforme”, escreveu na rede X.
O primeiro-ministro Donald Tusk divulgou os nomes dos polícias heróis que detiveram o atacante e cujo estado é grave: o agente principal Jakub Kulik e o agente principal Artur Morański.
“Toda a Polónia está a torcer por vocês”, destacou o chefe do governo.
Armas utilizadas
Segundo a polícia, o autor do tiroteio em Cracóvia tinha consigo uma carabina semiautomática de construção semelhante à AR-15. Nas fotografias do local do ataque vê-se também uma mira ótica. O homem possuía ainda uma pistola.
A polícia apreendeu, no seu carro, um grande número de outras armas e munições.
A AR-15 foi desenvolvida nos Estados Unidos na década de 1950. A sua conceção serviu de base ao fuzil militar M16, que durante décadas foi uma das principais carabinas das forças armadas norte-americanas. Uma evolução deste modelo é, entre outras, a carabina M4, ainda hoje em uso.
Este tipo de arma está também amplamente disponível no mercado civil dos Estados Unidos.
O fuzil tem uma cadência de tiro teórica de 700 a 900 disparos por minuto.Pode utilizar carregadores com 20 ou 30 munições. O alcance eficaz desta arma é de cerca de 500 metros.
Reação internacional
A tragédia suscitou reações tanto de representantes de governos europeus como de líderes de vários países. Nas suas declarações, manifestaram sobretudo solidariedade com as vítimas, apresentaram condolências e condenaram firmemente todas as formas de violência.
Apresentaram condolências à Polónia, entre outros, os líderes da Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Ucrânia e dos Estados bálticos, bem como representantes da União Europeia e dos EUA.
Luto nacional
Desde a meia-noite de domingo, decorre um luto nacional de dois dias decretado após o tiroteio em Cracóvia. Durante o período de luto nacional, as bandeiras do Estado são hasteadas a meia haste.
Os portais de notícias polacos colocaram laços de luto junto aos logótipos e passaram a utilizar cores mais discretas; as estações de rádio e televisão ajustaram as grelhas de programação. São cancelados eventos de entretenimento.
O luto prolonga-se até segunda-feira.