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A guerra cibernética e os receios do expansionismo russo

A guerra cibernética e os receios do expansionismo russo
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Para o melhor e para o pior, a Rússia continua a fazer manchetes. Como antigo inimigo camuflado dos Estados Unidos – interferindo, potencialmente, em várias eleições presidenciais ocidentais. A suspeita de interferência cibernética transforma-se num receio do expansionismo russo.

Quer estes receios tenham fundamento ou não, o facto é que vários países aumentaram a despesa militar, reinstauraram o serviço militar obrigatório e treinam regularmente com as forças da Nato… E a falha de Trump em subscrever a promessa de defesa mútua da Nato na cimeira da organização, na semana passada, não ajuda a acalmar a ansiedade.

Veja-se o caso da Polónia, um dos quatro países da UE que cumpre confortavelmente o objetivo da Nato: de 2% do PIB para a defesa. Juntamente com a Estónia, a Lituânia e a Letónia, a Polónia viu recentemente a implantação de tropas da NATO no seu território. Mas o país deu um passo em frente, desde a anexação da Crimeira pela Rússia, a Polónia multiplica as unidades militares para combater potenciais ameaças da Rússia, e também está a formar um novo exército de voluntários, que deverá ter 53 mil efetivos até 2023.

À primeira vista, a Suécia parece estar bastante longe da Rússia para se preocupar… Não fosse pelo enclave de Kaliningrado em frente ao Mar Báltico, onde a Rússia instalou mísseis com capacidade nuclear. Enquanto os dois países descartam a possibilidade de uma intervenção russa, a Suécia, no entanto, voltou a instalar o serviço militar obrigatório, aumentou a despesa militar e fortaleceu os laços com a NATO. A Suécia, no entanto, voltou a instalar o serviço militar obrigatório, aumentou a despesa militar e fortaleceu os laços com a NATO.

Conversámos com Sven Biscop, especialista em Política de Defesa Europeia:

Euronews – Sophie Claudet

Os receios de expansionismo russo são justificados na sua opinião?

Especialista em Política de Defesa Europeia – Sven Biscop

Creio que não devemos exagerar esse assunto. Só os 28 membros da UE têm 1 milhão e meio de pessoas em uniforme. É o dobro do tamanho das Forças Armadas da Rússia. Não é um número de tropas preparadas para o combate, mas os 750 mil russos também não estão todos preparados, por isso acho que não estamos ameaçados militarmente.

Sophie Claudet

Quanto à guerra cibernética? Sabemos que a Rússia foi acusada por, alegadamente, interferir nas eleições, por exemplo. Acredita que os países da NATO se devem preparar melhor para lutar contra esta ameaça cibernética?

Sven Biscop

É algo que todos os estados da Europa têm que abordar, simplesmente, convencendo as pessoas que não há nada na narrativa russa que possa ser mais atraente do que o que já existe no seu próprio país ou enquanto membros da União Europeia. A partir daí as histórias que os russos tentam espalhar na internet, as notícias falsas, etc… Tudo isso será descartado, porque não será uma alternativa viável para o que as pessoas já possuem enquanto membros da UE.

Sophie Claudet

Acredita que a Rússia tem os meios, a tecnologia para atacar e piratear os sistemas militares europeus, por exemplo?

Sven Biscop

Tratam-se de tecnologias muito baratas e muito difundidas e esse é um dos problemas. A lista de potenciais alvos é ilimitada. É uma infraestrutura crítica e a maior parte está em mãos privadas, por isso é muito fácil criar incómodos. Por outro lado, também devemos perguntar quais são os interesses e as intenções da Rússia. Não é porque alguém tem a capacidade de fazer algo que realmente o vai fazer.

Sophie Claudet

Quais são as intenções da Rússia, na sua opinião?

Sven Biscop

Tenho a sensação que o objetivo principal da Rússia é restaurar a sua esfera de influência nos antigos países da União Soviética. Não tem uma agenda contra a União Europeia. Apenas quer enfraquecer a União Europeia e a NATO para que possa ter margem de manobra em países como a Ucrânia. Então, não vejo uma ameaça direta à UE, mas, claro, se houver divisões na Europa ou na NATO, os russos, como são oportunistas, provavelmente não hesitariam em preencher o vazio.

Sophie Claudet

Vimos na semana passada que Trump não conseguiu endossar a promessa de defesa mútua da NATO.

Sven Biscop

Isto ultrapassa Trump por dois motivos:

Existe uma nova elite agora nos Estados Unidos, que não é necessariamente de origem europeia e que não olha para a Europa em primeiro lugar. Muitos políticos norte-americanos olham primeiro para a China e Ásia.

Em segundo lugar, já não estamos na guerra fria, onde os interesses europeus e americanos coincidiram quase automaticamente. Estamos num mundo com vários polos, existem diferentes poderes que concordam em certos pontos e discordam noutros e, portanto, os nossos interesses não são necessariamente os mesmos dos americanos. Basta olhar para a forma como os EUA olham para a China; de uma forma muito diferente da Europa. Isso não significa que não podemos manter uma aliança forte, mas significa que temos de ser mais flexíveis e que os europeus precisam definir quais os seus interesses e prioridades e agir de acordo com eles – sozinhos se necessário.

Sophie Claudet

Isso significa que a defesa europeia vai finalmente ganhar forma – e como?

Sven Biscop

Deve finalmente ganhar forma, porque temos vindo a falar disso há vinte anos. Se acontecer agora será o resultado de uma aliança franco-alemã na defesa. A França e a Alemanha juntas podem ativar estruturas permanentes de cooperação, o mecanismo do tratado de Lisboa que permite que um grupo central de Estados membros integre os seus esforços de defesa, dê um grande impulso e crie as condições que permitem à Europa lidar com uma crise de forma autónoma, em caso de necessidade.