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Os búlgaros que mantêm vivo o vinho francês

Os búlgaros que mantêm vivo o vinho francês
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O Insiders foi até às vinhas de Touraine, no coração de França, em plena altura de vindimas, uma atividade que muitos países europeus conhecem bem. Assim como a realidade complexa dostrabalhadores destacados.

Há já vários anos que Mladen vem da Bulgária, com a mulher e uma filha, para a colheita das uvas. Fazem-no durante três semanas e depois ficam ainda mais algum tempo para ajudarem noutros trabalhos na quinta.

“Na Bulgária, há muito pouco dinheiro. Em França, é bom. É bom, porque temos duas filhas que podem depois ir à escola na Bulgária. Aqui trabalhamos, ganhamos dinheiro. Elas depois podem estudar. Na Bulgária, não há muito dinheiro”, diz-nos Mladen.

Preservar as tradições

A sua família conta-se entre os 12 trabalhadores destacados que Jacky Blot contratou através de uma agência de recrutamento búlgara. Uma medida incontornável, salienta este viticultor, para preservar a tradição da produção manual.

“Temos mil barris aqui na quinta e 300 mil garrafas à espera de serem enchidas. É preciso cortar a uva na hora certa, nem mais tarde, nem mais cedo. A dificuldade está em encontrar trabalhadores suficientes para fazerem as vindimas em cada parcela na altura certa. É uma atividade difícil, é duro. De ano para ano, torna-se mais complicado reunir uma equipa aqui nas redondezas. É preciso ir procurar mais longe”, explica-nos.

Mas contratar trabalhadores destacados representa mais custos do que com trabalhadores franceses.

“Eu pago 18 euros por hora à agência de recrutamento. A um trabalhador francês, com todos os descontos incluídos, pago pouco menos de 13 euros. Ou seja, por dia, é uma diferença de 40 euros que pago a mais aos búlgaros. Como tenho 12, isso faz quase 500 euros diariamente. Mas convém-me porque, em contrapartida, tenho a certeza que o trabalho é bem feito e no prazo certo”, salienta Jacky.

“Uma escravatura moderna chocante”

Nicolas Brunet é também viticultor e também já recorreu a agências de recrutamento búlgaras. Mas deixou de o fazer. Isto porque optou por oferecer contratos permanentes a trabalhadores búlgaros.

Anatoliy é um deles. Já trabalha aqui há 7 anos. “Aqui ganho 1200 euros por mês. É 6 vezes mais do que na Bulgária. É uma grande diferença…”, afirma.

Uma diferença essencial também para o empregador que pretende, antes de mais, fixar trabalhadores que, caso contrário, teria dificuldades em encontrar a nível local, para garantir a continuidade desta empresa familiar. Mas igualmente porque discorda do método de certos intermediários.

“A pessoa que organiza os contratos nas agências recebe uma comissão, a das refeições recebe outra, a que trata do alojamento também. Depois, descontam uma parte do salário para a segurança social na Bulgária ou na Roménia. Mas esse dinheiro raramente chega aonde deve. É uma escravatura moderna chocante. Não quero disso. Quero os meus trabalhadores abrangidos pela lei francesa e que as coisas sejam claras, tanto para mim, como para eles”, realça.

Fomos ao encontro de Angélique Delahaye, presidente da Câmara de Saint Martin le Beau e deputada europeia. Foi uma conhecida sindicalista no setor agrícola. No meio de tudo isto, tem tempo ainda para dirigir uma horticultura para a qual já teve de chamar trabalhadores destacados, uma vez que não conseguiu encontrar mão de obra local.

“Após o alargamento da União Europeia, começaram a vir trabalhadores destacados dos países de Leste, pessoas que vêm habitualmente dos meios rurais, que ainda têm a experiência deste tipo de atividade e que estão mais disponíveis para aceitar estes contratos. O grande problema é a falta de controlo nos Estados-membros. Não é a Comissão, nem o Parlamento que têm de intervir. Cada Estado-membro tem de organizar formas de controlar as diretivas integradas na lei. Se há fraudes em França, tem de haver controlos e tem de haver sanções. É tão simples quanto isto”, considera Delahaye.

Alguns dos trabalhadores sazonais assinam agora contrato diretamente com a horticultura, sem passar por uma agência de recrutamento. Um deles quis falar connosco, mas mantendo o anonimato. No passado, teve problemas com uma agência búlgara: “Houve problemas com o salário, com as horas, com os contratos, com a segurança social. Fui à inspeção do trabalho. Dos 8 meses que deviam ter descontado para a segurança social, só pagaram 3. Durante 5 meses, trabalhei ilegalmente”.

Anatoliy arrenda uma casa na quinta onde trabalha. Também ele já conheceu vários abusos ligados a esta realidade dos trabalhadores destacados. Mas isso ficou para trás. Hoje em dia quer encontrar um trabalho fixo para a sua mulher, que se viu desempregada após inúmeros contratos temporários. O sonho comum é poderem comprar a própria casa.

“O meu filho tinha dois anos e meio quando vim trabalhar pela primeira vez em França. Quando regressei à Bulgária, ele disse-me que queria um outro pai, porque já não me conhecia. Durante quase 8 anos foi assim: eu aqui e ele na Bulgária. O mais importante para mim agora é construir uma casa para a minha família. Uma casa nossa aqui em França. Assim posso construir de novo a minha família”, remata.