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"A Europa é uma parte da solução, já não é uma parte do problema"

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O Comissário Europeu para os Assuntos Económicos também esteve em Davos. Numa entrevista à euronews, Pierre Moscovici fala da recuperação económica na Europa, mas também das negociações do ‘brexit’, reafirmando a posição de Bruxelas, o Reino Unido não poderá ter um pé fora e o outro dentro da União Europeia.

euronews: O FMI apresentou as suas previsões na segunda-feira. São muito positivas em termos de crescimento e perspetivas para o futuro a nível global. Mas concentremo-nos na Europa. Qual é a situação e qual é a previsão para o crescimento?Pierre Moscovici, Comissário Europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros:

“Só irei apresentar as nossas previsões dentro de duas semanas, mas não tenho nenhuma razão para pensar que serão muito diferentes das do FMI. Isso significa que a economia europeia está a melhorar muito, que temos um crescimento forte depois de já termos tido um forte crescimento em 2017, o melhor dos últimos 10 anos. E, cada trimestre foi melhor do que o anterior.

Já previmos que 2018 e 2019 vão ser bons anos. A isso acrescentamos as finanças públicas, que estão agora saudáveis, não completamente em ordem, mas saudáveis. E vamos provavelmente ver os derradeiros dois países – França e Espanha – saírem do procedimento por défice excessivo

A média do défice na zona euro está nos 0,9%, estamos longe dos famosos 3%. Estamos a criar muitos empregos e o desemprego na União Europeia está em queda, ainda é muito alto, mas está em queda, apesar de lenta.

A confiança dos atores económicos está muito melhor do que nos últimos 10, 15 ou mesmo 20 anos.

Não vou dizer que a Europa está de volta porque a Europa sempre foi um ator importante na economia mundial. A Europa é uma solução, uma parte da solução. Já não é uma parte do problema. Saímos da crise económica, mas ainda temos de consolidar a economia.”

Qual é a principal razão, o grande fator a contribuir para este crescimento? Ou é apenas uma recuperação natural da crise?

“Em primeiro lugar, estamos num mundo que está a crescer. E somos parte desse mundo, portanto colhemos benefícios do crescimento mundial, que será, segundo o FMI, à volta de 3,9% e todas as economias desenvolvidas avançam agora na mesma direção.

Em segundo lugar, temos corrigido os estragos provocados pela crise. Ainda há um legado, nomeadamente na dívida pública, mas fizemos um grande esforço para consolidar as finanças públicas. Criámos instrumentos para enfrentarmos uma eventual crise. Criámos a união bancária. Desenvolvemos muitos esforços para adaptar as nossas estruturas. Reformámos as nossas economias e ainda não concluímos tudo o que queremos fazer.”

Como é que este forte crescimento e estas previsões positivas se traduzem na competitividade da Europa?

“Ainda temos fragilidades e temos de ter consciência disso. Essas fragilidades já não têm tanto que ver com o mercado de trabalho. Muitas reformas foram realizadas, também no custo do trabalho. E também temos agora economias que são bastante inovadoras. Diria que a nossa maior fraqueza, a nossa fraqueza estrutural é a falta de investimento. Precisamos de investir mais. É por isso que todos os nossos esforços devem ser dirigidos para reforçar o investimento. Se quisermos continuar a ser uma economia líder no mundo no futuro – daqui a 10 anos – temos de investir mais, temos de investir tanto como a China, tanto como os Estados Unidos e isso é claramente o que a Comissão está a tentar impulsionar. Porque investimento é futuro. Se não investirmos, não temos futuro.”

Em que medida o ‘brexit’ é uma preocupação para a União Europeia neste processo de crescimento, de retoma? Pode fazer descarrilar a retoma?

“Não. Mas, claro que não é uma boa notícia. Não é uma boa notícia do ponto de vista político porque a Europa foi sempre construída somando e esta será a primeira subtração de um Estado-membro muito importante.

Economicamente, é mau para o Reino Unido. Basta olharmos para as previsões do FMI. Antes do ‘brexit’, o Reino Unido crescia a 2,5% e a União Europeia a 1,2-1,3%. Agora é quase o inverso. Temos de construir um relacionamento entre a UE e um Reino Unido fora da União, um relacionamento que seja tão sólido, tão aberto e tão amigável quanto for possível. Esse é um dos desafios das negociações.”

O que é que a Comissão Europeia estaria disposta a dar mais ao Reino Unido?

“Não vou fazer comentários sobre isso. As conversas vão arrancar e estamos a entrar na parte mais decisiva e obviamente a parte mais difícil. O meu amigo Michel Barnier está a preparar o dossier. Uma coisa é certa, a Comissão Europeia vai negociar em nome dos 27 Estados-membros, defendendo o interesse da União Europeia e com propostas que assentam em princípios. Um desses princípios é muito simples: se sair, está fora. Se está dentro, está dentro. E estar fora tem de ser diferente de estar dentro. Quão diferente, veremos.”