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António Costa: "Temos bases sólidas para construir a Europa de futuro"

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António Costa: "Temos bases sólidas para construir a Europa de futuro"

António Costa: "Temos bases sólidas para construir a Europa de futuro"
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Os ventos frios da crise podem até ter, aparentemente, deixado a Europa com a recuperação económica em curso. Por outro lado, persistem muitos problemas por resolver que causam arrepios em todo o bloco.

O cenário para 2018 é misto. O otimismo económico esbarra na incerteza geopolítica.

Entre previsões de crescimento sólido, da queda do desemprego e da competitividade da moeda única, a Europa tem um novo fôlego. No ano passado a zona euro superou as expectativas e apesar do abrandamento, para este ano a Comissão Europeia prevê um crescimento acima dos 2%.

2018 pode ser o ano em que a Europa acaba a hercúlea missão de construir uma união monetária mais resiliente. Mas não faltam ressalvas, como as de José Ángel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE): “A complacência é o maior inimigo e neste momento esta é a minha preocupação. Todos falam da recuperação. Algumas pessoas até falam de um boom. Mas reparemos que só estamos a começar a sair de uma década de crise. Ainda não estamos a crescer à velocidade de cruzeiro que tínhamos antes da crise, 4%. Deixámos milhões e mais milhões para trás que agora temos de recuperar. Por isso, há muito trabalho a fazer.”

Para Philip Jennings, secretário-geral da organização sindical internacional UniGlobal Union, a prioridade tem de passar por criar uma Europa mais justa e inclusiva: “Temos de pensar no que é que os trabalhadores europeus estão a ganhar. Os aumentos salariais não correspondem em absoluto ao ritmo de crescimento económico que estamos a assistir. Os trabalhadores precisam de um aumento do salário. Se tiverem mais dinheiro nos bolsos gastarão. Isso precipitaria o investimento, que precipitaria mais crescimento económico. Sem o pilar social, sem um pilar inclusivo para as reformas económicas a que estamos a assistir não vamos obter o resultado que gostaríamos.”

Apesar dos números do crescimento na Europa serem melhores do que o esperado ainda há muitos espinhos. Neste sentido, a jornalista da Euronews, Isabelle Kumar, esteve à conversa com o primeiro-ministro português, António Costa.

Isabelle Kumar, Euronews – A economia portuguesa está a crescer. Mário Centeno assumiu a presidência do Eurogrupo. 2018 é o ano de Portugal?

António Costa, primeiro-ministro de Portugal – É o resultado de vários anos de trabalho que, felizmente, conduziram ao crescimento, à criação de emprego. Mas também resulta da boa gestão orçamental e da redução da dívida. Amortizámos a última tranche do empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) com a taxa de juro mais elevada. Retomaremos as relações normais com o FMI como se passa com a União Europeia porque já saímos do procedimento por défice excessivo. Estamos, por isso, concentrados no relançamento e no desenvolvimento do futuro de Portugal.

Euronews – Falemos do futuro de Portugal. Porque os portugueses olham para esta situação positiva e dizem querer que certas medidas de austeridade sejam invertidas. Querem aumentos salariais, de reforma. É um cenário que contempla para este ano?

António Costa – Já alcançámos esta fase. Estamos a devolver os salários e as pensões que foram cortadas. Já reduzimos a tributação sobre os salários, restabelecemos as prestações sociais. Por isso já estamos noutra fase. Fizemos tudo isto ao mesmo tempo que reduzimos de uma forma sustentável o nosso défice. Em 2017 ficou em 1,2% do PIB. Em 2018, a projeção para o défice é de 1%. Começámos a reduzir a nossa dívida pública. Por isso voltámos a página da austeridade e neste momento estamos no caminho do crescimento.

Euronews – Quando é que os portugueses vão começar a sentir verdadeiramente estas diferenças no dia-a-dia?

António Costa – Já as sentem. Não todos, seguramente, mas o salário mínimo aumentou 15% nos últimos três anos. Os salários, negociados pelos sindicatos, aumentaram no ano passado 2,6% com uma inflação de 1,4%. Por isso, as pessoas já recuperaram. Este é um indicador muito importante. O nível de confiança e o clima económico atingiram um nível histórico.

Euronews – Vemos uma Europa que se está a redesenhar. Quais são as suas prioridades para esta Europa futura?

António Costa – A prioridade é dar respostas concretas às reivindicações dos cidadãos. Segurança e emprego são reivindicações dos cidadãos e para isso é preciso reformar a Europa para criar novas respostas no domínio da segurança e da defesa. É preciso investir na investigação, nos novos domínios das alterações climáticas e do digital. É preciso fazê-lo com bases sólidas e é por isso que existe uma questão-chave que é a reforma da zona euro. Temos bases sólidas para construir a Europa de futuro.

Euronews – Existe um risco de ter demasiada Europa? É uma coisa que o preocupa?

António Costa – Não. Penso que nos falta Europa. Não há demasiada Europa. Mas para ter mais Europa é preciso ter bases sólidas. Só teremos bases sólidas se acabarmos o que é preciso na zona euro: concluir a União Bancária, a união do capital e sobretudo ter uma zona euro que pode ser um benefício para todos os países, 19 Estados-membros, e não apenas para os países desenvolvidos. Esta é a questão-chave nos próximos meses.

Euronews – Também há questões-chave ao nível das divisões na Europa. Na sua opinião quais são os maiores riscos nesta matéria?

António Costa – A base da União Europeia são os valores, a liberdade, a democracia, o Estado de direito, a paz. Nunca podemos esquecer que a economia é apenas um instrumento ao serviço destes valores. Por isso é preciso recuperar estes valores. É na base disto que devemos construir a Europa do futuro. Uma Europa para os cidadãos, que os protege face aos desafios do futuro, para as pessoas que temem pelo futuro do trabalho perante a ameaça da automação e para aqueles que têm medo da ameaça do terrorismo e das ameaças que rondam o velho continente.
É por estas razões que é preciso reforçar a nossa capacidade de defesa coletiva, de trabalhar em conjunto para enfrentar a ameaça do terrorismo, para ter a economia mais dinâmica e inovadora neste mundo em mudança.