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"Estado da União": Orçamento marcará nova etapa na UE?

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"Estado da União": Orçamento marcará nova etapa na UE?
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Cansados ao fim de quase cinco dias, mas aliviados, os líderes da União Europeia fecharam um acordo sobre o orçamento plurianual para 2021-2027 e um fundo de recuperação no valor total de 1,8 biliões de euros.

Coube ao presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, celebrar a unidade europeia e apresentar com orgulho uma vitória de resistência e resiliência: “Conseguimos! A Europa é forte. A Europa está unida. Foram, obviamente, negociações difíceis num momento muito difícil para todos os europeus".

Mas nem todos ficaram tão satisfeitos, nomeadamente o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, que criticou alguns dos cortes: "Se queremos apostar nas gerações futuras, não podemos cortar o orçamento para a investigação, para a juventudoe, para o programa Erasmus".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enfatizou que o plano vai " impulsionar o Pacto Ecológico Europeu e vai acelerar a digitalização da economia na Europa", mas a associação ambientalista Greenpeace afirmou que "os líderes da União Europeia cortaram nos fundos para saúde, investigação e clima e não conseguiram garantir que o dinheiro não será distribuído, também, por indústrias poluidoras".

Para comentar estas avaliações distintas, a euronews entrevistou Jean-Christophe Bas, diretor-executivo do Instituto de Investigação para o Dialogo entre Civilizações (IIDC), em Berlim.

Stefan Grobe/euronews: A cimeira da União Europeia produziu um acordo histórico em termos do montante e características do orçamento. Até que ponto vai fortalecer a Europa em termos de concorrência com potências tais como a China, a Rússia e os Estados Unidos?

Jean-Christophe Bas/IIDC: Há uma coisa que muito interessante que se percebe pelas manchetes de alguma da principal imprensa mundial. Gostaria de escolher o "China Daily", que é o principal jornal diário da China. A manchete era: "O acordo da cimeira da União Europeia marca o nascimento de uma nova Europa". Penso que isso revela bem a percepção externa do que se passou. Tenho a convicção absoluta de que esta cimeira contribuirá significativamente para a mudança num momento em que não há liderança global efetiva. Tanto os EUA como a China estão enfraquecidos pela maneira como se desenrolou a história da pandemia. Tenho a convicção de que existe uma nova oportunidade para a Europa.

Stefan Grobe/euronews: A Polónia e a Hungria conseguiram diluir os esforços para vincular a distribuição dos fundos europeus ao respeito pelo Estado de direito. Isso enfraquece a Europa a longo prazo?

Jean-Christophe Bas/IIDC: É verdade que não há condicionalidade efetiva em termos de compromisso com os valores democráticos. Mas tenho a convicção de que tal poderá ocorrer mais tarde. Os fundos serão dados em tranches variadas, alguns como subsídios e outros na forma de empréstimos. Todas as tranches devem ser aprovadas pela Comissão Europeia e apreciadas pelos Estados membros.

Stefan Grobe/euronews: Por vezes, a cimeira evidenciou que existem ressentimentos amargos e até mostrou ataques pessoais entre líderes. O facto dos chamados países frugais terem obtido uma espécie de "travão de emergência" que permite qualquer governo opor-se aos planos de despesa de outro pode criar desconfiança no seio da União Europeia. Poderá provocar divisões mais profundas no futuro?

Jean-Christophe Bas/IIDC: No passado houve iguais ou piores momentos de confronto e amargura. Lembro-me muito bem do tempo da líder britânica Margaret Thatcher e do líder francês François Mitterrand, marcado por muita amargura nas cimeiras da União Europeia. Cada um adota uma certa postura para não perder a face quando depois tiver de dar explicações no seu país. Mas estas pessoas passaram cinco dias quase sem dormir. Se nós os dois fizéssemos isso durante cinco dias, também teríamos problemas porque ficaríamos exaustos, o que levaria à rispidez na discussão.