Vladimir Putin está pronto para enviar mil milhões de dólares ao “Conselho de Paz” de Trump, Alexander Lukashenko, um dos primeiros a aceitar o convite, não pretende pagar, e alguns aliados tradicionais dos EUA recusam-se a participar no projeto.
Um dos objetivos da visita do presidente dos EUA ao Fórum Económico Mundial de Davos foi promover o seu projeto do chamado "Conselho de Paz". De acordo com os meios de comunicação social norte-americanos, Donald Trump tenciona realizar uma cerimónia de assinatura para a sua criação já na quinta-feira.
O novo conselho foi inicialmente concebido como um pequeno grupo de líderes mundiais para supervisionar um cessar-fogo em Gaza, mas evoluiu para algo muito mais ambicioso. Mas o ceticismo quanto à sua composição e mandato levou alguns aliados tradicionais dos EUA a abandonar o projeto por enquanto.
"Temos muitas pessoas maravilhosas que querem juntar-se a nós", garantiu Trump na quarta-feira, durante uma reunião com o presidente egípcio Abdel-Fattah al-Sisi, que anunciou a sua intenção de integrar o conselho. "Será o conselho mais prestigiado alguma vez criado".
De acordo com a administração americana, cerca de 35 países concordaram em aderir ao projeto, dos 60 que receberam um convite. Trump, que prevê que o conselho substitua algumas funções da ONU, revelou que alguns líderes indicaram a sua intenção de aderir, mas ainda precisam da aprovação dos seus parlamentos.
Legalizar ditadores
A composição dos participantes no "Conselho de Paz" levanta grandes questões.
O presidente russo, Vladimir Putin, confirmou que Moscovo recebeu o convite de Trump e disse ter dado instruções ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para estudar os documentos recebidos e consultar os parceiros estratégicos da Rússia. "Só depois disso é que poderemos dar uma resposta ao convite que nos foi entregue", disse Putin.
Mas mesmo sem esperar por essa decisão, o líder russo manifestou a sua disponibilidade para enviar mil milhões de dólares dos ativos congelados da Rússia para o "Conselho de Paz".
"Mesmo agora, mesmo antes da decisão sobre a nossa participação na composição e no próprio trabalho do Conselho de Paz, dadas as relações especiais da Rússia com o povo palestiniano, poderíamos, penso eu, enviar mil milhões de dólares de ativos russos congelados durante a anterior administração americana", disse Putin numa reunião com membros do Conselho de Segurança. O presidente russo deverá receber o presidente palestiniano Mahmoud Abbas em Moscovo na quinta-feira.
De acordo com os detalhes do projeto que circula nos meios de comunicação ocidentais, cada Estado membro é nomeado por um período máximo de três anos, mas esta regra não se aplica aos países que contribuam com mil milhões de dólares ou mais para o conselho no primeiro ano.
O objetivo do conselho é, alegadamente, promover a estabilidade, garantir a paz e restabelecer uma governação "credível e legítima" em regiões onde tenha ocorrido ou esteja em risco de ocorrer um conflito.
Muitos críticos questionaram a razão pela qual Putin e outros líderes autoritários envolvidos no desencadeamento de conflitos foram convidados a participar numa organização deste tipo. Mas Trump afirmou que quer ver "toda a gente" com poder: "Tenho algumas pessoas controversas. Mas são pessoas que estão a fazer o seu trabalho. São pessoas que têm uma enorme influência".
Um dos primeiros a responder ao convite de Trump foi o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que não vê no projeto oportunidades para ajudar Gaza, mas sim perspetivas para promover a paz na Ucrânia. "Antes de mais, talvez possamos ajudar algo na Ucrânia, discuti-lo de alguma forma e promover a paz, podemos aproximá-lo, influenciar a liderança ucraniana. É com isto que estou mais entusiasmado, não com o facto de irmos ajudar muito Gaza. Conheço as minhas capacidades e as capacidades da nossa Bielorrússia", afirmou Lukashenko.
No entanto, ele não tenciona pagar pela participação na organização. “Não é necessário dinheiro”, afirma o presidente da Bielorrússia. “É precisos mil milhões se, daqui a três anos, quiser trabalhar. Mas há mais uma condição. Se cooperar e trabalhar bem em nome da paz, poderá continuar a trabalhar mesmo sem mil milhões. Eu estou orientado para a segunda opção.”
O presidente bielorrusso considera que, com o seu consentimento, já está a prestar um serviço aos Estados Unidos: “Mas se querem o meu serviço, tal como o de outros que foram convidados, e ainda receber mil milhões de dólares, nem mesmo Trump se permitiria tal coisa”, esclareceu Alexander Lukashenko. “Por isso, é uma mentira completa que tenhamos de contribuir com mil milhões de dólares. Não é preciso absolutamente nada. É preciso experiência, são precisas oportunidades para trabalhar neste conselho.”
A UE, o Reino Unido, o Canadá e a China não responderam ao convite de Trump. E vários países que estão revoltados com as ações do presidente dos EUA na cena internacional recusaram o convite. A Noruega e a Suécia deixaram claro que não participariam no Conselho. Anteriormente, França recusou - embora Paris apoie o plano de paz para Gaza, receia que o Conselho possa tentar substituir a ONU como principal plataforma de resolução de conflitos.