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Ameaça iraniana: “Portugal não é um inimigo prioritário do Irão”

“Portugal não é um inimigo prioritário do Irão”
“Portugal não é um inimigo prioritário do Irão” Direitos de autor  SANTIAGO LYON/AP
Direitos de autor SANTIAGO LYON/AP
De Diana Rosa Rodrigues
Publicado a Últimas notícias
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Devido à utilização das Lajes pelos EUA, Portugal pode ser considerado um alvo do Irão, mas ser diretamente atacado parece algo remoto. No campo das probabilidades, especialistas alertam para a possibilidade das chamadas “ameaças híbridas” assim como os potenciais impactos na diplomacia.

O conflito no Irão não demorou até se expandir aos países vizinhos, onde bases militares norte-americanas e outras infraestruturas foram atacadas pelo regime iraniano como forma de retaliação aos ataques conjuntos de Israel-EUA.

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Uma operação da dimensão da "Fúria Épica", iniciada a 28 de fevereiro, não pode ser realizada sem apoio logístico. No sábado, o Irão advertiu que todos os locais envolvidos nas operações militares lançadas por Israel e pelos Estados Unidos contra a República Islâmica são “alvos legítimos”, podendo, aqui, incluir a Base das Lajes, nos Açores, onde a circulação de aviões norte-americanos continua a todo o gás.

“As forças armadas iranianas consideram como alvos legítimos os locais de onde foram conduzidas as operações norte-americanas e sionistas [Israel], bem como os locais de todas as ações levadas a cabo contra as operações de defesa iranianas”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, na televisão iraniana.

Será Portugal um inimigo e um alvo do Irão?

“O Irão, neste momento, decidiu tratar Portugal como um inimigo e acho que aí o Estado português, a nossa política externa, deve levar isso em linha de consideração nas relações com o Irão e poderá com isso haver algum tipo de reação mais robusta do ponto de vista diplomático com Portugal", explica João Annes, do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, à Euronews, mas reforça: "temos que ser um bocadinho pragmáticos e compreender que Portugal não é um inimigo prioritário do Irão."

"Em termos de qualquer tipo de risco de ataque direto cinético, de mísseis ou drones a partir diretamente do Irão, isso neste momento não é plausível nem é credível que Portugal corra qualquer tipo de risco nessa matéria, uma vez que a distância geográfica e uma ausência de qualquer contencioso bilateral direto entre Portugal e o Irão, não aponta para que isso seja uma questão” explica o especialista, que indica, no entanto, que existem outras possibilidades de retaliação, nomeadamente através do "formato híbrido" e em três dimensões distintas.

"A utilização de proxies, neste caso organizações criminosas locais, a instrumentalização de personalidades políticas e do foro mediático para atingir os interesses portugueses, seja a nível nacional, seja a nível dos nossos interesses políticos externos e, em terceiro lugar, a utilização do ciberespaço para atingir diretamente Portugal", explica à Euronews.

"O ciberespaço é o espaço em que o Irão tem capacidades que mantém intactas para realizar ciberataques, como espionagem e outros tipos de ameaças. É um dos principais promotores desse tipo de vetor para impactar outros países", reforça.

"O Irão tem já um histórico, inclusive até bastante recente, no Reino Unido e na Alemanha, de procurar relacionar-se com organizações criminosas que operam localmente em países europeus e de procurar contratá-las para desencadear ataques contra sinagogas, contra interesses judaicos ou outros também desses países. Portanto, essa questão é muito importante do ponto de vista de eventuais futuras ameaças internas que sejam promovidas pelo Irão".

A ameaça terrorista é uma realidade?

Para João Annes, a questão existe**,** mas não é nova nem deve ser introduzida apenas no contexto internacional atual. “O tema do terrorismo é um tema que já existia. A ameaça iraniana, do ponto de vista do terrorismo dentro da Europa, existe desde 1979. Não seria uma novidade.”

“Não, não me passa pela cabeça que as forças de segurança nacionais e europeias não estejam a acompanhar de forma muito próxima todas as movimentações, seja das organizações terroristas, patrocinadas diretamente pelo Irão, maior parte delas de inspiração xiita, seja aquelas com que o Irão consegue estabelecer laços e ligações, nomeadamente a Irmandade muçulmana”, explica João Annes.

“Portugal já provou no caso das ameaças do Estado Islâmico que está muito bem preparado e muito bem informado relativamente de forma a conseguir prevenir essas ameaças”

“A única coisa que nós podemos perceber que muda de há três dias para o dia de hoje, é que Portugal é um alvo não prioritário, mas continua, mantém-se como país da NATO, país da União Europeia, como um alvo de potenciais vetores terroristas por parte do Irão, porque também já o era antes”, reforça o especialista que frisa ainda que Portugal deve reforçar meios de prevenção das ameaças, apesar de existirem outros alvos mais apetecíveis para a nação iraniana no seio do continente europeu.

“A única recomendação adicional que poderíamos fazer era priorizar também as áreas dentro das forças e serviços de segurança que lidam com este tipo de ameaças e aumentar a capacidade também de resposta a nível 'ciber'. Essa parece ser a mais óbvia e mais fácil para o Irão desencadear contra alvos que não sejam prioritários. E nós não somos, neste momento, um alvo prioritário do Irão”, explica João Annes.

“Aqueles que são alvos, já percebemos quem são. Porque um está (a França) a espoletar um porta-aviões, o Charles de Gaulle, para aquela região, e o outro, o Reino Unido, embora com uma pequena hesitação inicial, que é compreensível face ao histórico da Guerra do Iraque, está, neste momento, a atuar como quem reconhece ali uma ameaça. Portanto, como digo, não somos o alvo prioritário. Essa é a minha avaliação ao dia de hoje, com os dados todos que estão disponíveis. Não somos um alvo prioritário, mas não devemos relaxar a guarda.”

"Não olhamos para os EUA como um parceiro. Olhamos para os EUA como um patrão"

Espanha depressa condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, no que o país afirmou ser uma decisão unilateral feita à revelia do Direito Internacional. A nação governada por Pedro Sánchez recusou mesmo a utilização de bases militares no país pelos Estados Unidos nos ataques ao Irão, tendo os norte-americanos movimentado as suas aeronaves para outros países europeus.

A ministra da Defesa espanhola sublinhou que as bases de Rota e Morón "tem de funcionar dentro do quadro da legalidade internacional", alegando que "neste momento", Israel e EUA "estão a atuar unilateralmente, sem o apoio de uma resolução internacional".

Em Portugal, a Base das Lajes mantém as movimentações dos aviões norte-americanos, intensificadas nos últimos dias. Paulo Rangel já havia confirmado que os Estados Unidos poderiam usar a Base das Lajes para uma operação militar contra o Irão, desde que respeitassem os termos do tratado assinado com Portugal. O ministro dos Negócios Estrangeiros português indicou que o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos, assinado em 1995, prevê "autorizações tácitas, que são dadas com um prazo relativamente curto".

Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada do Porto, diz à Euronews que os tratados são "claros" e que os Estados Unidos têm de informar o governo português das operações e que a posição de Portugal revela "submissão" face aos Estados Unidos.

"Isto é um mau sinal porque dá a ideia de uma diplomacia de submissão, e não de cooperação. Nós não olhamos para os Estados Unidos como um parceiro, nós olhamos para os Estados Unidos como um patrão. Os Estados Unidos têm uma necessidade e nós vamos prover essa necessidadenuma relação que não é simétrica e não é de parceria."

Para o professor, a decisão do governo português coloca ainda problemas na posição portuguesa no mundo e na aparente neutralidade que pretende mostrar.

"Estamos sempre a rogar que a nossa diplomacia é pela neutralidade, que é uma diplomacia de cooperação e de pontes com todas as zonas geográficas, mas pontes não se fazem dando apoio político, que é o que nós demos, a um ataque unilateral quando está a decorrer um processo negocial que o mediador dizia estar a correr bem", explica o especialista.

"Este governo tem muita dificuldade em perceber que aliados não são relações de dependência. Nós não temos que aceitar ou concordar com tudo o que um aliado faz. Aliás, o bom aliado chama a atenção do seu parceiro quando este erra. E isso é que é um bom aliado diplomático", reforça.

"Quem sai magoada é a diplomacia portuguesa"

Sobre as potenciais consequências para Portugal no apoio à operação militar norte-americana, Tiago André Lopes não aponta nenhuma, "para já". "Não me parece que isto vá ter o efeito prático de atentados em território português e coisas similares. Não me parece. Mas também não podemos nos excluir", explica o professor, que indica, no entanto, que o cenário pode mudar "a médio prazo", nomeadamente ao nível do campo económico e diplomático.

"Por exemplo, uma política de asfixiamento económico, de manter o estreito de Ormuz fechado para fazer sofrer a economia europeia, ou, em particular, penalizar Portugal. Podia haver o que aconteceu depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Portugal apoiou a intervenção de Israel, na altura, depois da OPEP fez embargo a Portugal e à África do Sul à venda de petróleo destes dois países. E, na altura, isso impactou bastante a nossa economia", explica. "Nós podemos ter aqui uma medida desse sentido, apesar de já percebermos que os parceiros árabes estão um pouco perdidos no conflito neste momento".

"Se quiser vir a concorrer a um lugar no Conselho de Segurança da ONU e precisar dos votos do mundo árabe, Portugal pode não os conseguir. Pode haver esta ideia de que Portugal alinha com agendas muito específicas. Perdemos essa credibilidade de ser um país de semblante eminentemente neutral", indica o especialista à Euronews, reforçando que, perante a situação, "quem sai magoada é a diplomacia portuguesa".

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