O último episódio de descargas programadas no Alqueva aconteceu em 2013, embora a icónica barragem tenha atingido limite de ocupação em anos recentes. Este é apenas um exemplo da situação que vive o país, com as barragens em território nacional a terem de aliviar a pressão devido ao mau tempo.
Durante pelo menos quatro dias foram realizadas descargas programadas na barragem do Alqueva. Localizada na região do Alentejo e guardiã das águas do rio Guadiana, a barragem, que fechou as suas comportas em 2002, tinha apenas registado três episódios do género, o último em 2013. Apesar de pouco comum, o cenário é de tranquilidade.
"A primeira mensagem a essa é que não estamos propriamente preocupados. Estamos a gerir isto com muita tranquilidade, porque a infraestrutura está preparada para isto e muito mais", explica José Pedro Salema, presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA). "Foi dimensionada para cheias bíblicas e, portanto, isto é uma pequena cheia que a infraestrutura tem capacidade de regularizar com um elevado grau de confiança", explicou à Euronews.
Embora tenha atingido o limite de capacidade em outros anos não realizou descargas Em 2025, por exemplo, foi a barragem de Pedrógão, que pertence ao mesmo complexo, que abriu as comportas para gerir o armazenamento. O que acrescenta complexidade ao cenário atual é que não é apenas o Alqueva a descarregar, mas praticamente todas as estruturas do género na região.
"No resto do Alentejo, não havia esta generalização. É a primeira vez que vemos o Alvito a descarregar, talvez em 14 anos ou assim, Odivelas a mesma coisa. E isso nos sistemas a que estamos ligados dá-nos mais preocupação, passamos a ter menos opções, menos possibilidades de gestão", explicou o engenheiro responsável pela gestão do Alqueva.
As tempestades e chuvas contínuas que assolaram o território nacional criaram uma situação pouco comum na região sul do país, com as barragens do Alentejo e Algarve a alcançarem a ocupação máxima e a terem de aliviar a pressão, algo praticamente inédito. "As seis barragens do Algarve descarregaram. É impensável" confessa José Pedro Salema.
Uma piscina Olímpica a cada dois segundos e uma dor de cabeça para as populações das zonas ribeirinhas
Considerada a maior reserva estratégica de água da Europa no contexto de gestão de recursos hídricos, a estrutura tem 4 150 milhões de metros cúbicos. É difícil imaginar quanta a água é largada através das turbinas hidroelétricas e dos descarregadores de meio fundo. Felizmente, há quem faça as contas por nós:
"Em primeiro lugar, privilegiamos sempre a produção de eletricidade, portanto, utilizando as turbinas. As quatro turbinas de Alqueva escoam 800 metros cúbicos por segundo, portanto, é muita, muita água", explica o engenheiro. "Neste momento estamos a utilizar também os descarregadores de meio fundo, regulados para debitar 600 metros cúbicos por segundo. Portanto, estamos a libertar da albufeira de Alqueva 1400 metros cúbicos por segundo. Que é qualquer coisa como encher uma piscina Olímpica em menos de dois segundos".
Se formos mais longe, em quatro dias de descargas, o Alqueva terá descarregado cerca de 500 milhões de m3 de água que daria para cerca de três anos de consumo na Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.
Quantidades destas, a juntar às restantes descargas de outras barragens, causam pressão nos caudais dos rios e podem gerar precoupação entre as populações.
"Quais é que são as maiores preocupações nesta altura? É garantir que as populações, as pessoas e os bens que estão a jusante, portanto, no rio abaixo, que não sejam surpreendidas com a subida do nível das águas. E, portanto, todas estas operações são comunicadas em antecipação a todas as autoridades competentes, nomeadamente a Agência Portuguesa do Ambiente, a Autoridade Nacional da Proteção Civil, para que não haja surpresas", explicou José Pedro Salema.
Dezembro e janeiro quebram recordes de chuva
Se as regiões do Alentejo e Algarve, marcadas por vários anos de seca e algumas medidas de racionamento de água, têm agora os reservatórios a transbordar, que dizer o resto do país.
O temporal afetou Portugal de Norte a Sul, com o cenário de barragens no limite a replicar-se em diferentes zonas do país. De acordo com o IPMA, o mês de dezembro de 2025 foi o sétimo dezembro mais chuvoso desde 2000 em Portugal continental, terminando a seca fraca que existia em novembro em Évora, Beja e Faro.
Ainda sem confirmação, o mês de janeiro deverá seguir o mesmo rumo, segundo revelou o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado na terça-feira, em Coimbra, uma das regiões mas preocupantes neste momento devido às possíveis cheias.
De acordo com o último boletim da APA, em média, as barragens monitorizadas em Portugal estão com cerca de 90% da sua capacidade total ocupada. A bacia hidrográfica do Mondego é a que mais preocupa neste momento, numa altura em que continua a chover e se esperam os efeitos da tempestade Leonardo.
Em termos de descargas, em apenas três dias, as barragens portuguesas tiveram de “descarregar um volume de água equivalente ao consumo anual de todo o país”, indicou o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), ao semanário Expresso.